ainda mais dos brancos para o gato de pelo cinzento.
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sábado, 27 de setembro de 2014
quinta-feira, 19 de abril de 2012
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Cinco e Dois
Tentamos tentamos. Tentamos conseguir melhor e o melhor. Tentamos tentamos. Mais. Todos os dissabores do Mundo espreitam à encruzilhada de cada troço. Tentamos. Melhor. A recusa de fintar o destino. Afinal somos nós que edificamos o que vem. Melhor pior. Tentamos. Os sorrisos abertos, as palpitações do músculo cardíaco, os dias de Sol, as noites de Lua cheia. Tentemos. Só assim se pode alcançar a. Melhor, evidentemente.
"Can I get your hand to write on
Just a piece of leg to bite on
What a night to fly my kite on
Just a piece of leg to bite on
What a night to fly my kite on
Do you want to flash a light on
Take a look its on display - for you
Coming down no not today
Did you meet your fortune teller
Get it off with no propellor
Do it up it's on with Stella
What a way to finally smell her
Pick it up but not too strong - for you
Take a piece and pass it on
Fly away on my Zephyr
I feel it more than ever
And in this perfect weather
We'll find a place together
Fly on my wind
Rebel and a liberator
Find a way to be a skater
Find a way to be a skater
Rev it up to levitate her
Super friendly aviator
Take a look its on display - for you
Coming down no not today
Fly away on my Zephyr
I feel it more than ever
And in this perfect weather
We'll find a place together
In the water where I center my emotion
All the world can pass me by
Fly away on my Zephyr
We'll find a place together
Whoa whoa whoa whoa whoa whoa - do you
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah
Whoa whoa whoa whoa whoa whoa - won't you
Yeah yeah yeah yeah yeah yeah
Fly away on my Zephyr
I feel it more than ever
And in this perfect weather
We'll find a place together
In the water where I center my emotion
All the world can pass me by
Fly away on my Zephyr
We're gonna live forever
Forever"
'The Zephyr Song', Red Hot Chili Peppers
sexta-feira, 7 de maio de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Meio Século de aninhos
Caminhar sozinho as estradas da vida é tarefa ingrata e pouco apetecível para a maior parte dos homens e das mulheres. Por isso se terá constituído primeiramente a sociedade, com o intuito que alcançar objectivos que por si só um ser isolado se veria manifestamente incapacitado de concretizar. Porém, a sociedade tornou-se ela própria aos poucos excessivamente lata para o desígnio da vontade individual. Nas nossas sociedades, nas sociedades ocidentais, o par, entendido como o casal, tornou-se o primeiro elemento de charneira entre a solidão extrema e a agregação orgânica que dissolve a identidade pessoal; é importante que não nos percamos, tanto quanto o é nos sentirmos dotados das nossas faculdades intrínsecas e por elas reconhecidos no meio da multidão.
Hoje vivemos dias semelhantes, onde o indivíduo se quer reconhecido sem que deixe de participar de um conjunto como que transcendental que ocorre no terreno e no plano do profano. Um dos laços que nos identifica, particularizando-nos, e que nos une, num sentimento de pertença adstritos normas e valores grupais, é inevitavelmente a família de onde provimos. Depois o grupo de pares. Mais tarde, após o grito de Ipiranga, recolocamos o sentido ao sentido. Por fim queremos ser não só um eu como também um nós. E assim se reproduz indivíduo e sociedade, com uma mediação cuja importância nunca deixará de ser central: o nós; o nós de duas identidades que unas respondem a uma só voz, sem deixar de respeitar as (distintas e aproximadas) vozes que enformam essa mesma uma só voz.
É este nós, não mera soma de duas vozes mas comunhão participada das mesmas, que hoje exalto. Os trajectos e os caminhos não serão abertos nem desbravados por um indivíduo ou por uma sociedade sem rosto próprio; somos nós que com duas vozes nos fazemos ouvir a uma só voz. Assim percorremos o incerto, talvez ao sabor tanto do acaso como de algum determinismo, ombro a ombro, gémeos puros sem cisão alguma que rompesse a união inicial. E se assim caminham ombro a ombro sem distância que os separe, é porque assim entenderam e o elo que os mantém vai muito para além da mera carne.
Também hoje não me esqueci, obviamente.
“Apenas amamos aquilo que não possuímos por completo.”, ‘Em Busca do Tempo Perdido, vol. 5’, Marcel Proust
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Menina-Mulher...
A Lua testemunhou-te. Viu-te surgir e, encantada, fervilhou na sua branca luz e sorriu-te terna e plácida. Inauguraste um novo calendário; hoje orgulho-me que ele me abrace, respondendo a uma vontade nossa, a uma vontade que é tua. Voltarei a vir cá, exaltando o dia que é teu. Sabes, hoje brilhou uma nova estrela no firmamento; nascida a propósito.
"Como podria ser verdad
Last night I dreamt of san pedro
Just like I'd never gone, I knew the song
A young girl with eyes like the desert
It all seems like yesterday, not far away
Chorus:
Tropical the island breeze
All of nature wild and free
This is where I long to be
La isla bonita
And when the samba played
The sun would set so high
Ring through my ears and sting my eyes
Your Spanish lullaby
I fell in love with San Pedro
Warm wind carried on the sea, he called to me
Te dijo te amo
I prayed that the days would last
They went so fast
(Chorus)
I want to be where the sun warms the sky
When it's time for siesta you can watch them go by
Beautiful faces, no cares in this world
Where a girl loves a boy, and a boy loves a girl
Last night I dreamt of San Pedro
It all seems like yesterday, not far away
(Chorus)
La-la-la-la-la-la-laaa
Te dijo te amo
La-la-la-la-la-la-laaa
El dijo que te ama
Pa-pa-la-pa-pa pa-pa-pa-pahaaa
Aha, aha-ahaaa
La isla bonita
Ahaa, aha-ahaaa..."
'La Isla Bonita', Madonna
terça-feira, 30 de março de 2010
Arte nem sempre se ensina
Três horas e mais depois da meia-noite. Novo dia, portanto. Estou eu e o meu portátil apenas, como que fazendo companhia um ao outro, prestando cada um, e de sua forma peculiar, o seu ombro. Uma máquina e uma pessoa não é coisa que se diga (por ora) poder-se compatibilizar. É nesse sentido de opinião que assim sugere que eu tecle e tu repliques o que te foi comandado. Não terás vida de mote próprio, segues os passos que, não gosto desta sentença, te ordenam seguir. Contudo, e não pela primeira vez, não então novidade, pareces ser tu quem puxa pelas minhas mãos em direcção a cada tecla, a cada tecla certeira que, batendo uma a uma, compõem o texto assim acertado. Sentirá a máquina o pulsar do nosso coração? Creio ser demasiado prematuro asserir tamanha façanha. Mas todos nos influenciamos; e o meio ambiente, ainda que não vivo na nossa acepção do conceito, também ele desempenha o seu papel, a meu ver fundamental, no desenrolar dessa sobrecitada influência.
Passo as mãos no meu cabelo com os dedos imitando o formato de um pente. Não. Hoje nem tudo está bem. Algum equilíbrio, por muito desequilibrado que eu seja, se vê quebrado pela ausência de quem me despenteando me apruma melhor do que eu mesmo. É-se como que engolido por uma proximidade que aparta e, em simultâneo, é como se a distância se quisesse ver ignorada e até mesmo esquecida porque apenas fortuita e circunstancial. Explicar é o truque mais burilado. Saber, tantas vezes o sei, passe a redundância, é mais fácil. Como to dizer de forma descomplicada e inteligível? Fácil, não obstante as complicações que acarreta. Seria necessária uma habilidade tremenda para conseguirmos escapar de nós próprios, particularmente quando temos aquela vozinha permanente, que nada mais é que a nossa consciência ou reflexo do nosso estado de tal coisa, pelo que se torna fácil de entender que saber algo é infinitamente menos complexo do que o transmitir com o menor ruído possível a outrem. Esta é uma explicação básica, mas que me parece soberana. Escusassem as vossas expectativas de cuidar por mais, pois o bafejo do genial nunca me abordou e menos ainda me chegou a tocar. É só assim, de forma incauta e inacabada, que te posso explicar aquilo que os milhões de neurónios têm ou detêm a seu bel prazer. Serei, pois então, um fraco comunicador. Como os demais, aliás. Mas é somente por meio de uma fórmula, cuja génese desconheço, que tão pouco explico o que tanto digo saber. Talvez já o tenha dito da forma mais correcta, ou pelo menos a mais perceptível através dos medíocres meios de comunicação (para o exterior) de que dispomos: «passo as mãos no meu cabelo (…) de quem despenteando melhor do me apruma melhor do que.» Não creio que as parábolas melhorem os nossos cingidos meios de comunicação. Nem mesmo a metáfora, mesmo que a mais simples e a que tanto se insinua.
Como vês, ao querer explicar-te o que sei baralhei-me mais do que baralhado está um novelo de mil meadas. Custa-me aflorar ao teu ouvido para que este oiça banalidades de que está cansado; farto? Por isso escolhi outra forma de me exprimir, contando, porque o sei e não me solicites que to explique, que me irás entender. Havemos, se céus existem, de colher os nossos frutos. E que não o seja de forma singular defronte a rostos que, por ventura, nem sequer conhecemos e muito menos ainda reconhecemos. Que o seja em comunhão, em práticas quotidianas e outras que não, reconhecendo os nossos rostos defronte dos espelhos que o mundo faz existir para que todos nos possamos reconhecer na imagem retornada. Lembrei-me de uma música que não aprecio em particular mas que escrita por outras bandas me relembra o sentido do que faz real e efectivamente sentido. Não te expliques também. Eu sei o que queres com as tuas palavras. Definitivamente, há ocasiões em que o silêncio é de ouro. Sei o que dizes, sei o que quero dizer, por mais árdua que fosse a tarefa de explicar a riqueza do nosso conhecimento.
"Do you hear me?
I'm talking to you
Across the water
Across the deep blue ocean
Under the open sky
Oh my, baby I'm trying
Boy I hear you in my dreams
I feel your whisper across the sea
I keep you with me in my heart
You make it easier when life gets hard
Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Ohhhohhhohhhohhohhohhhohh
They don't know how long it takes
Waiting for a love like this
Every time we say goodbye
I wish we had one more kiss
I'll wait for you, I promise you I will
Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Lucky we're in love in every way
Lucky to have stayed where we have stayed
Lucky to be coming home someday
And so I'm sailing through the sea
To an island where we'll meet
You'll hear the music fill the air
I'll put a flower in your hair
Though the breezes through the trees
Move so pretty, you're all I see
As the world keeps spinning round
You hold me right here right now
Lucky I'm in love with my best friend
Lucky to have been where I have been
Lucky to be coming home again
Lucky we're in love in every way
Lucky to have stayed where we have stayed
Lucky to be coming home someday"
'Lucky', Jason Mraz
domingo, 7 de março de 2010
Forty. Plus nine.
Mesmo nos dias de Inverno há uma acendalha que espevita a fogueira.
"Neste caso, por bem, entendo qualquer alegria e tudo o que a provoca (...) Por mal, entendo qualquer espécie de tristeza.", Espinosa
domingo, 7 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Sopro 47
A erosão do tempo nem sempre se manifesta. Acontece todavia que é a experiência do seu antónimo que está presente. Tão presente, nestes quotidianos vividos.
"Com efeito, o comportamento humano normal manifesta uma continuidade de emoções induzida por uma continuidade de pensamentos."
'O Sentimento de Si', António Damásio
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
45
Nem tudo neste dia acontece em conformidade com a nossa plena satisfação. Porém, de algo não arredámos pé: impondo a nossa vontade estaremos, o que é o mais importante, juntos no decorrer deste aninho quarenta e cinco. Podemos ter sido ultrapassados, força das circunstâncias, num flanco; contudo, noutro, os nossos exércitos cilindraram toda e qualquer oposição.
"Em cada gesto perdido
Tu és igual a mim"Em cada gesto perdido
Em cada ferida que sara
Escondida do mundo
Eu sou igual a ti
Fazes pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
Pintas o sol da cor da terra
E a lua da cor do mar
Em cada grito da alma
Eu sou igual a ti
De cada vez que um olhar
Te alucina e te prende
Tu és igual a mim
Fazes pinturas de sonho
Pintas o sol na minha mão
E és uma mistura de vento e lama
Entre os luares perdidos no chão
Em cada noite sem rumo
Tu és igual a mim
De cada vez que procuro
Preciso de um abrigo
Eu sou igual a ti
Faço pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
E pinto a lua da cor da terra
E o sol da cor do mar
Em cada grito afundado
Eu sou igual a ti
De cada vez que a tremura
Desata o desejo
Tu és igual a mim
Faço pinturas de sonhos
E pinto a lua na tua mão
Misturo o vento e a lama
Piso os luares perdidos no chão"
'Tatuagens', Mafalda Veiga & Jorge Palma
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Quarenta e?
E quatro. Quarenta e quatro. Não, não me esqueci. Quarenta e quatro aninhos, como tu carinhosamente os denominas. E eu, de rosto encostado no teu ombro, fecho os olhos e sorrio placidamente.
Quarenta e quatro. São tempos que trazem de tudo, do mais extraordinário ao mais decepcionante dos acontecimentos de uma vida de todos os dias que partilhámos, partilhamos e, certamente, partilharemos. Claro que é muito mais fácil lidar com o extraordinário, que aqui ancoro numa acepção daquilo que comummente caracterizam como o acontecimento agradável, feliz, por vezes imaculado. Há também momentos de alguma neutralidade, e com isto não digo indiferença, com os quais é igualmente fácil de lidar. Depois, por fim, tudo aquilo que se deseja não vir a ter existência, mas a inevitabilidade da vida de todos os dias trá-lo consigo: obviamente, refiro-me à decepção, ao desagradável e ingrato, ao que é mau. A decepção, ao contrário dos demais, não é fácil, nada fácil e muitas vezes penoso de lidar com. Porque quanto maior é o sentimento de proximidade, mais duras se fazem sentir as faltas que cometemos, pois mais não seja é tudo menos isso que aguardamos do ente querido. Mas acontece, nessa inevitabilidade de ocorrências sequenciais e múltiplas da vida quotidiana. Todos nos podem decepcionar, contudo o ferro que verdadeiramente magoa é sempre aquele que, abrasivo, nos é apenso pelos que mais gostamos; para os outros podemos inclusivamente ser indiferentes, demonstrando-lhes que não importam tal como se poderiam querer insinuar. O ente querido importa. Pois que por isso a mais ténue das desilusões é dotada da capacidade de nos fazer sentir aferroados. Dói.
Creio que os entes queridos vivem no seu mundo e só depois no mundo de todos. E esquece-se, amiúde, que somos humanos. É difícil lembrarmo-nos de tal circunstância quando os entes queridos colocam o seu mundo numa esfera superior, numa esfera que, ainda que profana, se considera próxima do plano divino. Mas somos homens e mulheres. Todos nós. E erramos. E erramos outra vez. E outra. Então, a partir daí, remanescem tão somente duas lógicas, dois caminhos distinto, duas soluções, dois trajectos. Dependerão eles, sem dúvida, da força do elo que une os entes sobre os quais temos vindo a discursar. Se for frágil, então a ruptura surgirá num ponto ou momento mais ou menos adiante. Se for forte, então sofrerão, quiçá mesmo mais, mas terão coração suficiente para perdoar, para rectificar, para projectar reformas futuras que evitem o dilaceramento causado pela mágoa e angústia da desilusão.
Não sou fiel a predicados deterministas. Não há escolhas pré-estabelecidas. Há sim o livre arbítrio, a vontade de uns e outros. E essa vontade pode ser conduzida para que se navegue na mesma direcção ou, no extremo do seu oposto, que navegue para mares distintos. A primeira hipótese implica a decisão uníssona por parte das duas entidades, à segunda basta que um delas rompa com o estabelecido. É bem mais fácil navegar sozinho, porém muito menos gratificante já que o vazio se instala como companhia exclusa. Enquanto eu for eu e a demência não me transtornar ao ponto de me perder de mim, navegarei por opção e gosto o traçado mais difícil. Entenda-se: difícil. Porém, incomparavelmente superior em virtude, e porque não enormidade?, de um sentimento de realização que, justamente por ser o que é, se manifesta tanto no indivíduo como no colectivo que é o de duas vidas em engrenagem solidária. Parece difícil. Pode ser. Acredito que seja. Mas, tretas à parte, vale a pena. Só assim se vive; em solidão, está-se. A diferença é abissal. Muito mais que abissal.
Há quarenta e quatro aninhos escolhemos, e assim enveredámos, o nós. Conhecemos as experiências do extraordinário, do mais ou menos neutro, da decepção. Hoje estou radiante por isso. E radiante é dizer pouco, muito pouco. Nesta vida de nós entrelaçados fica a esperança de que a decepção surja rara. Nesta vida de nós entrelaçados fica a esperança de que o extraordinário brinde vitória. Nesta vida de nós entrelaçados fica a esperança que o mais ou menos neutro aconteça em serena felicidade. Há por aí uma estrelinha muito especial…
Quarenta e quatro. São tempos que trazem de tudo, do mais extraordinário ao mais decepcionante dos acontecimentos de uma vida de todos os dias que partilhámos, partilhamos e, certamente, partilharemos. Claro que é muito mais fácil lidar com o extraordinário, que aqui ancoro numa acepção daquilo que comummente caracterizam como o acontecimento agradável, feliz, por vezes imaculado. Há também momentos de alguma neutralidade, e com isto não digo indiferença, com os quais é igualmente fácil de lidar. Depois, por fim, tudo aquilo que se deseja não vir a ter existência, mas a inevitabilidade da vida de todos os dias trá-lo consigo: obviamente, refiro-me à decepção, ao desagradável e ingrato, ao que é mau. A decepção, ao contrário dos demais, não é fácil, nada fácil e muitas vezes penoso de lidar com. Porque quanto maior é o sentimento de proximidade, mais duras se fazem sentir as faltas que cometemos, pois mais não seja é tudo menos isso que aguardamos do ente querido. Mas acontece, nessa inevitabilidade de ocorrências sequenciais e múltiplas da vida quotidiana. Todos nos podem decepcionar, contudo o ferro que verdadeiramente magoa é sempre aquele que, abrasivo, nos é apenso pelos que mais gostamos; para os outros podemos inclusivamente ser indiferentes, demonstrando-lhes que não importam tal como se poderiam querer insinuar. O ente querido importa. Pois que por isso a mais ténue das desilusões é dotada da capacidade de nos fazer sentir aferroados. Dói.
Creio que os entes queridos vivem no seu mundo e só depois no mundo de todos. E esquece-se, amiúde, que somos humanos. É difícil lembrarmo-nos de tal circunstância quando os entes queridos colocam o seu mundo numa esfera superior, numa esfera que, ainda que profana, se considera próxima do plano divino. Mas somos homens e mulheres. Todos nós. E erramos. E erramos outra vez. E outra. Então, a partir daí, remanescem tão somente duas lógicas, dois caminhos distinto, duas soluções, dois trajectos. Dependerão eles, sem dúvida, da força do elo que une os entes sobre os quais temos vindo a discursar. Se for frágil, então a ruptura surgirá num ponto ou momento mais ou menos adiante. Se for forte, então sofrerão, quiçá mesmo mais, mas terão coração suficiente para perdoar, para rectificar, para projectar reformas futuras que evitem o dilaceramento causado pela mágoa e angústia da desilusão.
Não sou fiel a predicados deterministas. Não há escolhas pré-estabelecidas. Há sim o livre arbítrio, a vontade de uns e outros. E essa vontade pode ser conduzida para que se navegue na mesma direcção ou, no extremo do seu oposto, que navegue para mares distintos. A primeira hipótese implica a decisão uníssona por parte das duas entidades, à segunda basta que um delas rompa com o estabelecido. É bem mais fácil navegar sozinho, porém muito menos gratificante já que o vazio se instala como companhia exclusa. Enquanto eu for eu e a demência não me transtornar ao ponto de me perder de mim, navegarei por opção e gosto o traçado mais difícil. Entenda-se: difícil. Porém, incomparavelmente superior em virtude, e porque não enormidade?, de um sentimento de realização que, justamente por ser o que é, se manifesta tanto no indivíduo como no colectivo que é o de duas vidas em engrenagem solidária. Parece difícil. Pode ser. Acredito que seja. Mas, tretas à parte, vale a pena. Só assim se vive; em solidão, está-se. A diferença é abissal. Muito mais que abissal.
Há quarenta e quatro aninhos escolhemos, e assim enveredámos, o nós. Conhecemos as experiências do extraordinário, do mais ou menos neutro, da decepção. Hoje estou radiante por isso. E radiante é dizer pouco, muito pouco. Nesta vida de nós entrelaçados fica a esperança de que a decepção surja rara. Nesta vida de nós entrelaçados fica a esperança de que o extraordinário brinde vitória. Nesta vida de nós entrelaçados fica a esperança que o mais ou menos neutro aconteça em serena felicidade. Há por aí uma estrelinha muito especial…
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
... e quarenta e três (43)
Sou indiferente a protocolos. Evidente, há excepções. Umas toleradas, outras dignas de registo realmente manifesto. Este vive em consonância com a segunda excepção enuncida.
Do alto de um último andar observo lua quase cheia enquanto torro pulmões a fumo de cigarro. Recordo a sombra do que já fui, recordo a sombra do que já fomos. Há muito que a sombra do que já fui se esvaiu, a sombra do que nós fomos permanece autêntica expondo a premência de ser (re)colocada na moldura do real com todas as cores. Claro, são sombras distintas. A minha, remetida para um passado mais longínquo; a nossa, com história já definida e ainda aquela por definir, de um passado mais recente. A nossa continuará a coabitar, e essa sim, com e a par do quadro policromático do real vivido. Os instantâneos guardam momentos, muitas vezes escondidos de devido enquadramento. Há instântaneos, procedidos e prossecutados de tal enquadramento, menos bons e outros admiráveis porque belos. Não há, nem de uma forma nem de outra, instantâneos extirpados da realidade vivida quotidiana. Também o quotidiano, constatámos e constatemos, descobre o mau, o assim-assim, o bom. Ou o que há de.
Não obstante estar desprovido de película, de imagem, de registo sonoro ou olfactivo, este dia é um instantâneo. Instantâneo de dias passados, instantâneo que indicia dias por vir como mesmo já o de amanhã que, suponho, será destituído de registo que faça de si história única com identidade própria. Porém, atenção às falácias. Essa unicidade, essa identidade exclusiva, é apenas um engodo ou uma distorção, pois que só se garante a veracidade do momento captado e retirado do real através do continuum que são as histórias, mesmo que histórias (relativamente) pequenas como as histórias de vida. O instantâneo vem comprovar tudo o que está oculto e que já foi; indo mais além, porque não, instigando ao que está por vir.
Somos comummente atreitos a posturas esquivas ao uso de palavras particularmente às que evocam sentimentos. De raiva e angústia. Quantas vezes são recalcadas, cada vez mais pertença dos ouvidos (pretensamente) atentos de técnicos de saúde mental? De amor e afecto, com o mórbido receio de nos expormos em excesso face ao outro? Renuncio sempre que posso a esta fácil tentação, a de obstruir sons ávidos de serem ditos e escutados. Vivemos em ambiguidade. Queixamo-nos amiúde de vivermos uma sociedade hiper-individualista, contudo não queremos renunciá-la a coesão asfixiante. Dois abismos sem que saibamos em concreto (nem em abstracto) onde o ponto de equilíbrio. Prefiro arriscar na minha aposta, que não sei bem onde cabe no seio destes dois opostos, e acreditar que o jogo pode ser ganho a expensas de avanços e retrocessos. Se quero ser sombra, mais ainda se veicula o meu querer no sentido da textura, da cor, dos sentidos todos sem excepção que quebrada embarace a norma.
Hoje é o nosso dia. Correcto. Como o de ontem foi. Não menos correcto. Como o de amanhã irá ser. Quem o contradirá? Hoje felizes. Ontem mais e também menos. Amanhã igualmente. A felicidade só é um percurso viável conhecido o seu antónimo, a infelicidade. O único absoluto que temos provém da religião. Não é comum a todos, e nos seus seguidores distinguindo-se ainda na forma e na filosofia das especificidades das crenças religiosas. Quanto a mim, o absoluto, esse absoluto, é inacessível ao espírito (compreensão) humano. Agnóstico, tanto quanto dizem. Não pretendo rotular. Todavia, perco-me. Retomemos a primeira frase do parágrafo. E assim, posto isto, posso assegurar-te dos meus sentimentos, já que deles estou assegurado faz muito. Os próximos dias poderão coibir-se de trazer novo instantâneo. Mas lá estarão, impedindo que o estaticismo de uma ocorrência eclipse o dia-a-dia. Não há buracos negros que subtraiam todo um vivido remanescendo tão somente sobras em armação postas. Não obstante, o que neste instantâneo comunico não deixa de ser verdade, uma verdade integrada no panorama global.
Para ti. Por nós. Que fique o quadro. Que prossigamos.

©
"A essência do erotismo, mesmo no seu sentido específico, é esclarecida pela existência de sentimentos que têm o nome de amor, sem que isso se deva ao acaso de um mal-entendido ou de um uso abusivo, e estendendo-se a inúmeros domínios situados para além de toda a sexualidade."
'Fragmento Sobre o Amor e Outros Textos', Georg Simmel
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
3 e ½
Podíamos medir a distância de duas formas. A primeira dizia que contava mais de cem quilómetros. A outra corria à velocidade do pensamento, em nano-segundos. Afinal longe ou perto, ali mesmo ao lado? A segunda hipótese será portadora de maior credibilidade. O que que de mais terno guardamos em nós anula a contabilidade espaço-tempo. É coisa única. Chegou para ficar sem descontinuidades nem descontínuos. Gatos que ronronam gratificados pelo subliminar. Pode ser cego mas nada tem de ignorante, antes o inverso. Amor.
©
"Love is blindness
I don't want to see
Won't you wrap the night
Around me
Take my heart
Love is blindness
In a parked car
In a crowded street
You see your love
Made complete
Thread is ripping
The knot is slipping
Love is blindness
Love is clockworks
And cold steel
Fingers too numb to feel
Squeeze the handle
Blow out the candle
Love is blindness
Love is blindness
I don't want to see
Won't you wrap the night
Around me
Oh my love
Blindness
A little death
Without mourning
No call
And no warning
Baby... a dangerous idea
That almost make sense
Love is drowning
In a deep well
All the secrets
And no one to tell
Take the money
Honey
Blindness"
'Love is Blindness', U2
terça-feira, 7 de julho de 2009
Quadragésima primeira ternura
Foi igualmente numa terça-feira. Primeiro o salmão nos pratos a acicatar-nos o apetite. Depois a conversa mansa de uma ternura partilhada. O sono que surgia, contrariando as noites brancas. Os afagos surgiram, tímidos. Mais tímidos ainda os primeiros beijos na tua face embevecida. Lua e estrelas brilharam sôfregas ao ritmo da nossa partitura que fazia despertar um amor contido mas que se via abençoado.
Hoje, outra terça-feira, Lua e estrelas não brilharão mais contidas nem envergonhadas. Galoparão os seus raios de luz em nossa direcção, reiterando o mistério que nos envolve e que só nós conhecemos ou entrevemos com um sorriso rasgado. É como um ritual, que mantém acesa a chama do mito. Sabes, em todo o mito há uma ponta de verdade. E esta cerimónia que nos exalta nunca é esquecida. Porque esquecer(mo-nos)não consta do nosso dicionário.
Nessa terça-feira, a outra, como nesta, o amor chamou-nos pelo nome. E uniu o que não devia estar apartado num afastamento que se viu, por fim, findado. A harmonia de uma harpa celestial prossegue na sua investidura de trajectos, nossos, determinados a uma eloquência bem-fadada.
Hoje, outra terça-feira, Lua e estrelas não brilharão mais contidas nem envergonhadas. Galoparão os seus raios de luz em nossa direcção, reiterando o mistério que nos envolve e que só nós conhecemos ou entrevemos com um sorriso rasgado. É como um ritual, que mantém acesa a chama do mito. Sabes, em todo o mito há uma ponta de verdade. E esta cerimónia que nos exalta nunca é esquecida. Porque esquecer(mo-nos)não consta do nosso dicionário.
Nessa terça-feira, a outra, como nesta, o amor chamou-nos pelo nome. E uniu o que não devia estar apartado num afastamento que se viu, por fim, findado. A harmonia de uma harpa celestial prossegue na sua investidura de trajectos, nossos, determinados a uma eloquência bem-fadada.
"You thought that it could never happen
To all the people that you became,
Your body lost in legend, the beast so very tame.
But here, right here,
Between the birthmark and the stain,
Between the ocean and your open vein,
Between the snowman and the rain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.
The women in your scrapbook
Whom you still praise and blame,
You say they chained you to your fingernails
And you climb the halls of fame.
Oh but here, right here,
Between the peanuts and the cage,
Between the darkness and the stage,
Between the hour and the age,
Once again, once again,
Love calls you by your name.
Shouldering your loneliness
Like a gun that you will not learn to aim,
You stumble into this movie house,
Then you climb, you climb into the frame.
Yes, and here, right here
Between the moonlight and the lane,
Between the tunnel and the train,
Between the victim and his stain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.
I leave the lady meditating
On the very love which i,
I do not wish to claim,
I journey down the hundred steps,
But the street is still the very same.
And here, right here,
Between the dancer and his cane,
Between the sailboat and the drain,
Between the newsreel and your tiny pain,
Once again, once again,
Love calls you by your name.
Where are you, Judy, where are you, Anne?
Where are the paths your heroes came?
Wondering out loud as the bandage pulls away,
Was I, was I only limping, was I really lame?
Oh here, come over here,
Between the windmill and the grain,
Between the sundial and the chain,
Between the traitor and her pain,
Once again, once again,
Love calls you by your name"
'Love Calls You by Your Name', Leonard Cohen
domingo, 7 de junho de 2009
Para ela - whisper #40...
Lembras-te? Tirei-a para ti.
Nunca se esquece...
"She
May be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She
May be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day
She
May be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a heaven or a hell
She may be the mirror of my dreams
The smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell
She
Who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She
May be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows of the past
That I'll remember till the day I die
She
May be the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I'll care for through the rough in ready years
Me
I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is
She
She, oh she"
'She', Elvis Costello
Nunca se esquece...
©
"She
May be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She
May be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day
She
May be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a heaven or a hell
She may be the mirror of my dreams
The smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell
She
Who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She
May be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows of the past
That I'll remember till the day I die
She
May be the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I'll care for through the rough in ready years
Me
I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is
She
She, oh she"
'She', Elvis Costello
quinta-feira, 7 de maio de 2009
39 com carinho. Todo.
Se calhar no princípio era assim:
"[Rogers]
"[Rogers]
I know it's late
I know you're weary
I know your plans don't include me
Still here we are
Both of us lonely
Longing for shelter from all that we see
Why should we worry?
No one will care, girl
Look at the stars now, so far away
We've got tonight
Who needs tomorrow?
We've got tonight, babe, why don't you stay?
[Easton]
Deep in my soul
I've been so lonely
All of my hopes fading away
I've longed for love
Like everyone else does
I know I'll keep searching after today
[Rogers]
So there it is, girl
We've got it all now
[Easton]
And here we are, babe
What do you say?
[both]
We've got tonight
Who needs tomorrow?
We've got tonight, babe, why don't we stay?
[Rogers]
I know it's late and I know you're weary
I know your plans don't include me
[Easton]
Still here we are
[both]
Both of us lonely, both of us lonely
[Rogers]
We've got tonight
[Easton]
Who needs tomorrow?
[Rogers]
Let's make it last
[Easton]
Let's find a way
[both]
Turn out the light, come take my hand now
We've got tonight, babe, why don't we stay?
We've got tonight, babe, why don't we stay"
'We've Got Tonight', Kenny Rogers (duet with Sheena Easton)
Mas a realidade, porém, talvez fosse já outra, mais trabalhada apesar de escondida num cantinho que aguardava ser encontrado. Na verdade as estrelas, e outra maralha cósmica, não estavam assim tão longínquas e até inclusive já haviam escrito mais do que sabíamos ou poderíamos desconfiar. Hoje também presente o amanhã. E algures em Londres assumimos o compromisso que a neve, à saída, apadrinhou com a sua queda macia, representante de uma pureza que o momento tão bem ilustrava e que a memória guardará, orgulhosa, no humanamente possível para sempre. Esqueci-me que estava frio e o ar gélido deixou de queimar os meus pulmões a cada golfada de ar que os invadia. O belo não se queda pela estética; pertence de igual maneira à esfera dos sentimentos que se nutrem para além das incontáveis tertúlias dos sentidos materiais. Quase perfeito... Tens fôlego para soprar trinta e nove vezes? O meu, ainda que parco, saberá soprar muitas e muitas mais. Vezes. Dias. Meses. Anos...
I know you're weary
I know your plans don't include me
Still here we are
Both of us lonely
Longing for shelter from all that we see
Why should we worry?
No one will care, girl
Look at the stars now, so far away
We've got tonight
Who needs tomorrow?
We've got tonight, babe, why don't you stay?
[Easton]
Deep in my soul
I've been so lonely
All of my hopes fading away
I've longed for love
Like everyone else does
I know I'll keep searching after today
[Rogers]
So there it is, girl
We've got it all now
[Easton]
And here we are, babe
What do you say?
[both]
We've got tonight
Who needs tomorrow?
We've got tonight, babe, why don't we stay?
[Rogers]
I know it's late and I know you're weary
I know your plans don't include me
[Easton]
Still here we are
[both]
Both of us lonely, both of us lonely
[Rogers]
We've got tonight
[Easton]
Who needs tomorrow?
[Rogers]
Let's make it last
[Easton]
Let's find a way
[both]
Turn out the light, come take my hand now
We've got tonight, babe, why don't we stay?
We've got tonight, babe, why don't we stay"
'We've Got Tonight', Kenny Rogers (duet with Sheena Easton)
Mas a realidade, porém, talvez fosse já outra, mais trabalhada apesar de escondida num cantinho que aguardava ser encontrado. Na verdade as estrelas, e outra maralha cósmica, não estavam assim tão longínquas e até inclusive já haviam escrito mais do que sabíamos ou poderíamos desconfiar. Hoje também presente o amanhã. E algures em Londres assumimos o compromisso que a neve, à saída, apadrinhou com a sua queda macia, representante de uma pureza que o momento tão bem ilustrava e que a memória guardará, orgulhosa, no humanamente possível para sempre. Esqueci-me que estava frio e o ar gélido deixou de queimar os meus pulmões a cada golfada de ar que os invadia. O belo não se queda pela estética; pertence de igual maneira à esfera dos sentimentos que se nutrem para além das incontáveis tertúlias dos sentidos materiais. Quase perfeito... Tens fôlego para soprar trinta e nove vezes? O meu, ainda que parco, saberá soprar muitas e muitas mais. Vezes. Dias. Meses. Anos...
All Hallows Church, London
©
terça-feira, 7 de abril de 2009
Trente-huit
Parece que o universo sempre soube haverem laços de ternura e amor entre sol e lua...
Afinal, o navio com os seus tripulantes não navega por mares de escuridão: há sempre algo que ilumina e esclarece.
Afinal, o navio com os seus tripulantes não navega por mares de escuridão: há sempre algo que ilumina e esclarece.
"L'agapè ne questionne pas, puisqu'elle croit tout",
'L'Amour et la Justice comme compétences', p. 231, Luc Boltanski
quarta-feira, 1 de abril de 2009
A terceira vela
Navego numa embarcação, mas não ao sabor do sentido quase único dos ventos. Não sei para onde rumo, mas deixo-me ser encaminhado porque confio. Percebo apenas estar no ventre de uma nau de três mastros, ou se assim nos apetecer, de três velas. Fora construída com a mais nobre das madeiras e com elas se foi aconchegando ao longo do seu devir. Esbelta. Esbelta, não, palavra que transmite com deficiência o grau de beleza que atinge. Fulminante aos sentidos, talvez assim o devesse ter asserido logo desde o início. Não era difícil amá-la, e eu disso sou testemunha ‘pro bono’ que ninguém incapacitará senão a própria vontade da muitíssima esbelta nau das três velas.
Vim dela a saber mais tarde. Muito mais tarde. Porém, conhecia-a quando definia ainda a construção do terceiro mastro. Terei sido o mais privilegiado? Não sei. Mas sei que o sinto, tamanho é o deste privilégio.
Com duas velas ainda, já sabia bem como navegar por estes sete mares que, no fundo, são este nosso mundo da empiria e, porque não, do transcendente. Quase a amei desde que a vi, a esta afoita nau. Quase. O tempo fez-me esperar um pouco mais, mas proveu-me do melhor dos presentes: não só então eu a amava como ela a mim. Passei a navegar consigo, pelos seus trajectos que traçava conforme… bem, navegava, afirmei, de modo simultaneamente simples e complexo. Não mais a deixei. E vi, orgulhosa de si, a terceira vela erguer-se. Altiva, neste mundo às vezes tão medíocre.
Amanhã não sei para onde vou. Mas sei com quem vou. Afinal, qual destas premissas a mais importante?
Amanhã não sei para onde vou. Mas sei com quem vou. Afinal, qual destas premissas a mais importante?
©
Eram uma e quarenta.
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