Mostrar mensagens com a etiqueta devaneios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta devaneios. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de julho de 2015

ausências evidentes, take vii


Corri os dedos pelo ecrã do tablet, desligando-o. Coloquei-o, com algum desdém, em cima da mesa de cabeceira. Duas e trinta da manhã, passavam uns minutos. Permanecia sozinho naquela cama que, sem ti, é uma enormidade. Aguardava-te, aguardava pela presença do teu corpo singular junto ao meu. Sentia-me estoirado, a bodega da viagem no dia anterior havia-me deixado inapelavelmente exaurido. Não que tivesse sido muito longa: uma hora e pouco de Florença a Munique, duas horas e quarenta, por aí, de Munique a Lisboa; a culpa é dos assentos, e talvez da pressurização do avião, os assentos em turística matam-me, fornicam-me as costas sem perdão nem apelo, contudo não sou rico para andar de conferência em conferência em classe executiva. Cobrira o rosto com as mãos em concha. A comunicação não tinha corrido de forma excepcional, porém também não me havia comprometido. No tablet confirmara não haver e-mails cuja urgência cativasse a minha atenção. Só o raio do artigo, ainda tão em atraso e tão espartanamente esquissado, perturbava o sono que entretanto assomara – isso e a ausência do teu corpo naquela cama infernalmente hiperbólica aquando sem ti. Inspirei profundamente duas vezes. Dois suspiros profundos que, sem dúvida, escaparam à tua audição. Olhei o maço de cigarros, porém depressa se esvaiu a ideia de ir até à janela da cozinha acender um prego. Mera preguiça, nada que concernisse com a consciência de um cuidado de mim, do zelo pela minha saúde. Pus a língua de fora, num sentimento de pseudo-desprezo para com o tabaco, e recoloquei as mãos em concha sobre o rosto, com os olhos vincadamente cerrados.

Que farias tu ainda na sala? Escutava os teus passos e alguns ruídos que, certamente, só tu poderias provocar. Mexericavas por entre algumas coisas, sem dúvida. O que farias? Que tamanha necessidade te movia para te impedir a que te juntasses a mim? Não fazia a menor ideia e os poucos neurónios que, no meu cérebro, teimavam em continuar despertos escusavam-se a esforços do pensamento. Parecias fazer de propósito, aguardando que eu adormecesse para também tu, enfim, viesses esgueirar-te sorrateira para o nosso leito. Estarias ainda de beicinho por eu me ter escapulido para terras da Toscânia durante uma semana completa quando três noites teriam bastado? Sabia quando marquei a viagem, e de antemão, que estarias impossibilitada de me acompanhar devido às obrigações que acompanhavam os teus afazeres profissionais. Sim, pernoitei sete vezes naquela cidade museu. Terei, por isso, acirrado a tua fúria? Uma vez mais os neurónios escusavam-se ao labor, pelo que me deixei desprovido de qualquer resposta. Estiquei-me na cama sem apagar a luz pardacenta do candeeiro da mesa de cabeceira; aquele do meu lado, no teu reinava profusamente a escuridão. Abri os braços em cruz e pus-me a contemplar inconscientemente o tecto, cabeça firme directamente no colchão – bem sabes o quanto odeio travesseiros; desde puto que assim sou, catraia; desde puto – desde um universo em que ainda nem sequer sonhávamos com a existência um do outro, tempos em que ainda não valorizávamos esta coisa tão divinal de se partilhar a vida com um companheiro que se ama e cuja vida se preza, inclusive, mais do que a nossa própria. Vem, minha menina. Vem. Implorava-te eu sem que tu disso soubesses ou sequer desconfiasses. Minha… És minha, sim. Porém, só és minha no mesmo sentido do tanto, e igual, que eu sou teu, pertença da mulher menina que tanto amo; e a ti me ofereço sem hesitação, não cogitando mas fazendo-o por instinto, aquele instinto que me dita poder colocar nas tuas mãos a minha vida – a confiança que em ti deposito é algo de quase infinito e de inquestionável. Por favor… Vem.

Mantinha-se o burburinho provindo da sala, o abafado ruído dos teus passos a acrescentar-se-lhe de quando em quando. Acreditava que nada terias de facto para fazer, todavia que inventavas fosse o que fosse tão-somente com o intuito de não te juntares a mim enquanto perdurasse em vigília. Recordei que poucas palavras trocáramos desde que regressara daquela cidade que quase nos remete para o quotidiano do Renascimento italiano, não fossem todos os atributos modernos e pós-modernos que a equipam – a luz eléctrica, os automóveis que circulavam nas estradas esguias, os smartphones de última geração que os turistas, cuja pressão na cidade é tremenda e até algo horrível, transportavam consigo, os neons, o eu sei lá que mais; estava exausto, já o mencionei. Poucas palavras. E beijos? E ternuras? E meiguices? Tudo isso tão parco. Que se passa connosco, miúda? Não, não é só o facto de poderes estar a embirrar com a minha ida, aos teus olhos, excessivamente prolongada. Algo não está bem entre nós, intuo-o com amargura ainda que igualmente com irrefutabilidade. Moça, já fomos melhores. Já fizemos mais para nos merecermos do que no presente agora vivido, tenho perfeita noção disso. Coisa que dói, magoa no âmago do meu ser. Estaremos… Suspiro, estaremos condenados a fracassar, periga o nosso dia-a-dia em comunhão? Merda de burburinho na sala que não se silencia.

Dei um pulo da cama. Dei um golo na água que uma garrafa de litro e meio, mesmo ao lado da minha cabeceira, permanecia erecta todos os dias sem excepção. Peguei o maço de cigarros, esfreguei os olhos e proferi em pensamento um milhão de asneiras. Percorri, célere, o caminho conducente à porta da sala. Eventualmente escutaste os meus passos e dirigiste o teu olhar para mim, que me apoiava na ombreira da porta, sem todavia entrar na divisão, e sorriste-me breve voltando logo a recolocar a tua atenção em papelada e livros que se amontoavam no chão. Vou dormir, estou um bocado de gatas ainda. Vai, julgava que já dormias, vai, descansa, dorme bem, descansa, olha, o meu beijo primeiro. Transpus a fronteira e fui ter contigo. Puxei-te e envolvi-te com os meus braços. Desenhei o melhor sorriso que consegui e juntei, delico-doce, os meus lábios aos teus. Contudo, não estavas presente, não estavas ali. Durante o nosso tímido beijo insististe em olhar para a confusão no chão como se não quisesses saber de mim. Vou à cozinha, fumar um cigarro, logo volto para a cama, já não me aguento. Vai, doce, e descansa, procuro umas coisas, preciso mesmo, já vou também para a cama, não tardo, sim? Sim, ternura, até já, e boa sorte com isso. Afaguei-te o cabelo num gesto nem rápido nem lento e dirigi-me para a cozinha e para a minha janela de fumo.

Deslizei a janela para a esquerda, abrindo um conexão para o mundo exterior, para aquele lá de fora. Isso após ter encerrado com a devida precisão a porta da cozinha. Um fumador que detesta o cheiro a fumo. De facto, às vezes não sei se não serei uma besta; atípica, mas ainda assim um anormal. O cigarro pendia da boca. Desta feita era eu que obrigava o cérebro a não pensar e não qualquer preguiça que se pudesse imputar ao desgaste físico dos neurónios. Não me apetecia pensar: estava, como se diz na gíria, fodido da vida. A tua displicência para com o nosso beijo parecia confirmar a minha profecia, de que não estávamos bem e de que parecíamos condenados, num futuro mais distante ou mais próximo, a um fim, a uma cisão irrevogável. Estava fodido. Isso ainda é dizer pouco, estaria a ser simpático na consideração. Isqueiro? Merda, nas calças. E calças, ora bem, no quarto. Abri, ainda mais danado, uma das gavetas de onde saquei uma caixa de fósforos com um aspecto duvidoso e até miserável. Que se lixasse, desde que cumprissem a sua função o resto não importaria. O primeiro alaranjou-se mal lhe raspei a cabeça na lateral da caixa e logo o encostei ao cigarro pendente dos meus lábios, aspirando mais porcaria do que alguma vez possa vir a imaginar. Contemplei as estrelas, soltando a primeira baforada do vil fumo que, por opção própria, enfio nos meus pulmões, infligindo ao meu ser maus-tratos pela minha mão. Poucas estrelas. Em Florença pareciam-me mais. É provável que aqui a iluminação artificial, ou a poluição ou o que diabo for, seja aqui mais forte e que assim vele mais os pontos luminosos do manto celeste. Tudo tem um fim. Desde que me lembro de ser gente que esta frase me acompanha. Tudo. Isso implica que nós também. Já? Somos ainda tão novos na nossa relação comungada… Tudo. Tilintava sem perdão essa única palavra: tudo. Mais fumo para os pulmões, mais fumo para o mundo lá fora. Fumava com tal pressa que até a máquina, o meu querido coração, se acelerava desmedidamente. Ou acelerar-se-ia principalmente por nos ver emocionalmente, afectivamente tão distantes apesar de nenhum de nós comprovar tal facto por palavras? Não tenho a certeza. Continuei a insistir com o cigarro. Porquê nós? E, mais ainda, porquê já? Amava-te? Bolas, sem dúvida, nem carecia de me questionar. Então porquê? Insistia com o cigarro. Mais que tudo, miúda. Amo-te mais que tudo. No manto celeste as estrelas cintilavam, incólumes à minha inquietação. Haja alguém, ou algo, tão sereno. Suspirei. Confesso que as lágrimas quase me vinham aos olhos, felizmente a minha cornadura encontrava-se a funcionar quase apenas à força de serviços mínimos, o que eventualmente colheu as minhas emoções evitando assim que me desfizesse logo ali. Mantive-me mais uns minutos prostrado à janela a observar o cintilar das estrelas. Como é sereno… Pouco depois acendia o segundo cigarro. Tossi, garganta irritada – da emoção ou do tabaco? Engolia a seco, a saliva escapara-se-me desde que fora à gaveta retirar os fósforos. E tu? Sim, tu. Amar-me-ás? Não ouso sequer pensar na negativa, seria injusto e perverso para contigo, é claro que sim. Enfim, nem sempre o amor é tudo. Devia ser. Mas não aguenta tudo, é o alicerce mais forte do mundo, mas o mundo, esse, é também todo ele imperfeito. Devia ser, devia bastar. Escutei as badaladas provenientes do sino da igreja próxima, três da manhã. Atirei o cigarro pela janela sem pensar sequer no que fazia. Abri a porta de um armário, segurei trémulo uma caixa de um medicamento sujeito a prescrição médica e subtraí a uma lamela uma cápsula. Cerrei a janela da cozinha, abri a porta e, encolhido, dirigi-me para o quarto. Com o auxílio de um pouco de água engoli o hipnótico. Em menos de meia-hora, bem me conheço, estaria na terra dos sonhos. Deitei-me e apaguei a luz do meu candeeiro de cabeceira. O burburinho na sala não condescendera e era para mim um inferno. Dorme bem, miúda, pensei. Depois, depois logo se vê.

Devia ser…

sexta-feira, 24 de julho de 2015

timings

Em breve retornarei aqui. Há palavras que te quero deixar. E não, meu claro blogue, não estás ainda esgotado. Em breve...

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

redutos

às vezes tomamos decisões erradas e escolhemos fazer o que é mais difícil; exactamente porque queremos ser ou parecer fortes.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

void

Primeiras palavras só em Março. Isto está bonito. Pode ser que entretanto mude. Pode ser...
E assim, já cansado, se vai à labuta. Dizem que é preciso. Igualmente precisa, e muita, é a vontade. Amanheceres com nevoeiro...

domingo, 24 de novembro de 2013

ausências evidentes, take vi

Acordei bem cedo. Bom, pelo menos consideradas as minhas medidas e padrões. As contas que num ápice executei, que também nada tinham de difícil, diziam-me que dormira cerca de quatro horas, não mais. À chuva substituíra-se-lhe um sol tímido que só com púdica vergonha ousava espreitar, aqui e ali, por entre uma e outra nuvem. Levantara-me com a exacta roupa com que me deitara, umas calças de ganga que usara durante todo o dia anterior e pouquíssimo mais. O tronco desnudado ressentia-se da quebra de temperatura após ter retirado de cima de mim o edredão que me envolvera no sono. Talvez por isso tenha espirrado umas cinco vezes seguidas; ou terá antes sido pelas toneladas de pó, e dos seus aliados filamentos de cotão, que tomaram a princípio de cerco e no entretanto em conquista de facto os espaços do nosso quarto? Seja como for, também pela gelada chuva apanhada quando fumara na véspera o último cigarro. Sentia a garganta arranhada e dorida, os pulmões pesados, o pingo no nariz que teimosamente permanecia. Bom dia, atiro de suspenso para o ar num volume contido e com uma tonalidade sarcástica.

Liguei o computador, já com uma sweatshirt manhosa mas quentinha a cobrir os costados, para confirmar no site dos caminhos de ferro o que (me) tinhas transmitido. Gare do Oriente, 21h22, chegada do alfa pendular oriundo da Campanhã. Por que razão escolheras apear-te no Oriente? Saudosa de uma Expo que nunca chegaste a visitar? Como tantas vezes os teus motivos são insondáveis desisti das indagações remetendo a minha atenção para considerandos mais práticos. Como sempre, o apartamento devia mostrar-se impecavelmente apresentável quando por ele a dentro te trouxessem os teus seguros passos. Sem tirar nem pôr. Era um facto que se havia instalado na mente, por mais asquerosas e brejeiras que me parecessem as tarefas a executar. Baixei a tampa ao computador e palmilhei todos os recantos olhando atentamente em volta, sondando cada milímetro do nosso templo profano em busca de tudo o que parecesse deslocado; sabes, sou muito mais exigente quando só e te aguardo do que quando estamos juntos – talvez seja alguma forma ou estratégia de compensação, porém não estou certo. Certo tinha que muitas horas intervalavam o momento de reencontro e que, não tendo na agenda obrigação que me fizesse deslocar a outros lugares, vantagens da nossa profissão, as iria fazer valer.

Começara com o pé direito, já que não teria que me preocupar com loiça utilizada pois que a havia posto a lavar breves horas antes de me ter recolhido ao ninho que tão pouco se parece como tal na tua ausência. Arrastei o aspirador até ao quarto para fazer guerra a quantidades absurdas de cotão que pareciam brotar espontaneamente do soalho flutuante. Porém, quando estava quase a fazê-lo, abstive-me de ligar a máquina: parecia-me escandalosamente cedo para tamanho troar e embora não tenhamos calorosa relação com nenhum dos nossos vizinhos o respeito mútuo tem sido uma constante, coisa de gente que se conta e diz civilizada, seja lá o que se pretende transmitir com o que parece uma patranha preconcebida e mobilizadora de comportamentos padrão. Depressa me deparei com opções alternativas, como por exemplo recolher a roupa amontoada que havia semeado pela habitação durante este período da tua não presença física. Era mais sensato começar por aí, pelos pares de calças displicentemente abandonados no chão junto à cama, coisa habitual, e defronte do sofá da nossa sala, pelas camisas e camisolas enrodilhadas que preenchiam vazios nossos pelas cadeiras da mesa de jantar, nos bancos de cozinha, aos pés da cama e só Deus sabe mais onde; dos boxers que faziam fila tanto no quarto de banho como por debaixo daquele estrado e colchão aos quais, juntos, chamávamos cama. Apeteceu-me enfiar toda esta maralha anómica na máquina da roupa e lavá-la a frio, mas logo constatei a patetice dessa espécie de disparate. Por que razão danada nunca aprendi a funcionar com esse aparelho de tambor? Não sei. Facto é que não iria passar a sabê-lo agora. Num mundo onde tudo, quase tudo, incluindo pessoas, é tratado de modo descartável observei que seria igualmente lógico que também um dia todo o vestiário seria tratado da mesma forma. Sorri. Sabia-me estar a ser tolo exactamente por não saber por onde começar a labuta para o embelezamento artificial e aparente do apartamento. Tudo o que me bastava, registei, eras tu. Tu, como se a tua mera presença pudesse reconduzir a vida quotidiana ao seu regular funcionamento. Disparate. Contudo, disparate que me envolvia na melhor sensação de conforto e de continuado aconchego. Os homens são loucos. E as mulheres, as mulheres idem, se bem que de longe mais belas e airosas na sua entrópica loucura; especialmente tu, que manténs os meus neurónios num arraial de sinapses em catadupa ainda que tantas vezes sem um sentido que se possa evocar como racional ou disposto por atributos dessa coisa a que denominamos razão sem saber muito ao certo nem a profundidade nem as peculiaridades do seu significado. Com vocês estamos perdidos. Sem, somos como um quadro de traços desalinhados e inacabado porque, sem apelo, arrasados pela incompletude da nossa condição. Regressa-me ao rosto o sorriso. Não estava para travar conversas dessa dimensão comigo, para mais com a manhã ainda menina. Sabes, sou como os morcegos: funciono em pleno nas horas de escuridão, pela noite dentro. Sabes, eu sei. Que estarias tu agora a fazer na tua cidade? Desliguei a ficha, há tanto por fazer.

Abri o portátil. Mais uma vez. Talvez conseguisse comer algumas horas se eventualmente me embrenhasse em textos do meu trabalho. Olhei-os da mesma forma que um boi contempla um palácio, sem os entender e incapaz de os apreciar. Surgiam-me aos olhos tão-somente letras somadas e baralhadas, enfim, dispostas por uma qualquer lógica que agora me escapava de todo. Já tu és bem mais pragmática do que eu. Num ápice decifrarias sem qualquer dificuldade o código instituído pelas palavras e frases para as quais olhava alheado e sem interesse. Também tu és muito menos resistente a funcionar em sintonia com as ditas horas normais de trabalho, prefere-las. Eu, pelo inverso, não me entendo nessa lógica e sempre preferi delinear objectivos em detrimento de uma esquematização rígida e operacional de como os alcançar, um dos aspectos em que sou indubitavelmente mais flexível do que tu, tanto para melhor como para pior. Chega. Desisti. Para mais tarde retomar. E aí sim, provido do pleno das minhas capacidades intelectuais. Eras tu o centro do meu universo; melhor, era-lo todo. Seriam risíveis empreitadas que exigissem outra coisa que não apenas a mecânica imbuída no meu esquema mental. O meu pensamento estava exclusivamente direccionado para o teu abraço, para os beijos com que ansiosamente prendaríamos os nossos lábios, os nossos rostos, os nossos pescoços que exalariam os nossos cheiros de um para o outro, tudo o mais que ocorresse entretanto vergado à nossa irredutível vontade, actos que antecipava com a maior vontade e impaciência do mundo. Como te amo, miúda. A distância faz-me mal, é como uma gripe que assola o espírito, por muito tonta que te pareça a metáfora.

Ainda assim consegui perder, deveria dizer ganhar, uma hora nestes meus devaneios. Já não me parecia despropositado utilizar o aspirador, embora talvez fosse ainda demasiado cedo. Poderia muito bem começar por limpar o pó que constatava abusivamente acumulado no móvel que sustentava a televisão, uma foto dos dois e um solitário vazio; deveria preenchê-lo, antes da tua chegada, com uma das tuas flores predilectas, talvez uma rosa rosa. Perscrutei o pó com um olhar mais sério. Que gaita, nunca sei o que fazer primeiro: limpar o pó ou aspirar. Quantas vezes já mo disseste? Certamente tantas quantas as que esqueci. Não é por mal, ternura. Às vezes, ou não tão pouco como isso, sou um bocado avoado. Talvez porque continua a deleitar-me escutar-te, seja lá sobre o que for desde que… o desde que fica por ora em trânsito, por terminar: traz à memória coisas pesadas, material inverso ao daquele de que são feitos os sonhos. Há sempre um desde que, um porquê, um mas que assombra a vivência de todo o ser humano. Deixemo-los por agora, perdidos num qualquer recanto obscuro e quase inacessível no âmago da massa cinzenta; ou branca, sei lá, escassos são os meus saberes de neurologia e das neurociências em geral, que é o mesmo que afirmar, na prática, nada. 

A imagem da rosa rosa tomou-me de tão vivida, pela necessidade que antecipei impossível de incumprir, que de imediato me imaginei em incursão pela que melhor te fizesse jus. Cumpria a mundana tarefa de ir aprontando a casa para o teu regresso enquanto intimamente indagava quais os locais onde podia obter essa formosa rosa ou ainda se deveria adquirir duas ao invés de uma apenas. Onde obtê-la não era coisa que me criasse grandes obstáculos ou dúvidas, já o quantas falava-me de outra forma. Projectava na mente a imagem do solitário albergando uma tanto como duas, incapaz de me decidir de facto. Diz o bom senso que a nomenclatura nos oferece resposta imediata: solitário, portanto uma só flor. Todavia, a nossa condição, o vivermos as nossas vidas no seio de um regime de comunhão, abria como que obrigatoriamente portas a outra e não tão ortodoxa possibilidade, a saber às tais duas rosas que representariam juntas por força de metáfora as nossas duas pessoas bem como a natureza da nossa união. À guisa deste pensar o trabalho investido em colocar o apartamento num brinco tornou-se bem mais fácil e menos aborrecido, sendo que quando o terminei o espanto assomou-se já que não me esperava tão lesto e eficiente. De facto, isto do tempo psicológico tem muito que se lhe diga. Gostava inclusivamente de lhe dedicar uma atenção mais devida, a este assunto, porém desviava-se por demais das tarefas a que era chamado a executar na lide das actividades da esfera profissional. Paciência, talvez quando puder usufruir de algum tempo extra livre o venha a fazer, pensei mesmo sabendo que tal não viria realmente a suceder por motivos que não importa agora elencar. Enfim, dei-me por satisfeito por a casa estar finalmente própria para te acolher, coisa suficiente para me provocar um satisfeito sorriso que fez esquecer o cansaço físico devido ao aparato que fora conduzindo por mais de um par de horas, bastante mais.

O dia começava a esconder o seu rosto, aos poucos cedendo lugar ao soturno manto negro da noite que tanto estimo. Embora esmiuçasse os prós e contras de uma ou duas rosas rosa a preencher aquele esguio solitário, não me conseguia decidir com vincada certeza. Precisava, o que era mais que certo, era de sair de casa o quanto antes se pretendia adquirir os ditos complementos ornamentais. Seriam as flores o complemento ou ao invés sê-lo-ia o objecto que as albergaria? Mente vadia, o tempo escasseia e ainda assim te pões aos devaneios tontos como se tivesses em mãos todo o tempo do mundo. Urgia, isso sim, ir buscar as flores antes de ir buscar o éden que elas, agora sim, complementariam: tu, miúda. Peguei as chaves, de casa e do carro, e bati a porta já com um destino delineado célere pelos meus neurónios. Que se lixe, o elevador subia ao meu encontro, duas.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

incorrer-se em dúvida certeira

Posso parar de devanear ou devo continuar com todos estes, tantos, disparates que na realidade só fazem, todos eles, sentido?

quinta-feira, 13 de junho de 2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

breve (des)encanto da idade

Já soube escrever. Agora, nos dias do presente, limito-me a arrastar dedos por teclas. 

segunda-feira, 11 de março de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ausências evidentes, take v

A chuva precipita-se copiosamente sobre a cidade. Há muito que fazia falta. Não são somente os territórios aráveis, agrários e rurais que carecem da sua bênção. É essencial para a urbe, acometida por poeiras e outros detritos acumulados durante o período em que o céu não chora, lavando o seu tecido de ponta a ponta incluindo os seus interstícios (mais imundos).

Já comi, já pus a loiça na máquina e só não alimentei o cão porque não o temos. Fazia parte das nossas intenções, recordas-te? Algo protelado já que nos demorados concílios em que debatíamos que tipo de cão para, nunca chegáramos a consenso. Porém, seja-se apologista da verdade, o certo é que a pressa quanto ao amigo canino não falava assim tão alto. Temos tempo, concordávamos provisoriamente até que chegasse a concordância final de escolha. Eu cá teria preferido um gato, hipótese que de imediato descartaste. O cão, então. Largo a pastilha na máquina e sacudo das mãos, directo para o chão, o pó remanescente que a elas se colora sem ter sido convidado para permanecer. Inspiro pelo nariz, incomodado. Constipei-me, raios partam estas bruscas mudanças meteorológicas. Nem cão nem gato. Eu e a máquina de lavar loiça, cujo labor inicio mal encerro a portinhola. Rasgo uma folha de papel do rolo de cozinha e assoo o nariz, todavia sem que isso contribua para reparar o meu incómodo. Encolho os ombros, paciência – o que hei-de fazer? Safo-me, contudo, do teu discurso de censura: regressas amanhã e não irás perceber o meu gesto que deixei de executar à tua frente por ter percebido – entenda-se, após teres-me feito perceber sem margem de apelo a dúvida – que te repudia e enoja. Há cá uma diferença entre lenços de papel e o papel dos rolos de cozinha. Todavia, nem pretendo reentrar nessa argumentação que foste peremptória, talvez até imperativa, muito para além do habitual. Na minha rendição, concedo-te a atribuição simbólica que distribuímos pelos objectos: se é rolo de cozinha, então o seu papel remete para afazeres adstritos a práticas que remontam da sua adjectivação; se é papel em que no rótulo vem impressa a palavra lenços, então o seu uso referencia-se também mas não só à limpeza não da cozinha mas do sótão atafulhado de agentes bacterianos que muitas vezes o nariz, ou o seu interior, que é mais correcto, o é. Ok, quem sou eu para pretender boicotar o teu jogo de papéis? Sim, já sei que sei mais do que isso, que mais do que um dever é minha obrigação: contudo, não poderia eu por uma vez separar o trabalho da esfera pessoal, impondo-lhe uma clivagem tal que pudesse ser, por assim dizer, duas pessoas? Levo o recorte usado do rolo para a casa de banho e submeto-o às torturas do turbilhão de água evacuado pelo autoclismo. Porque perco tempo e queimo paciência com estes devaneios inúteis? Afinal a tua presença só amanhã se materializará pela casa. E não saberás, ai pois não, de nada pela minha boca que se firmará mais firme que a concha de um bivalve. Não por cobardia, antes para evitar aborrecimentos inúteis. Quer a mim, quer a ti. Regressas. Quero o confortável silêncio de um beijo unido por abraço há tanto tempo desejado. Discutir é cenário que não quero sequer imaginar para amanhã. Primeiro os mimos, só a seguir a trivialidade no nosso quotidiano.

Onde é que eu ia? No cão? Não, já sei: a chuva e a cidade. Hoje o verbo sai-me pouco fluído, de certo por défices graves no emaranhado que amiúde enleia a imaginação. Não quero saber, que se lixe. A verdade é que penso numa coisa e numa apenas. A minha mente vive já no dia de amanhã, debruçada e deleitada nos prazeres sensitivos que o do teu colo oferece em dádiva desinteressada que não exige retribuição. Entretanto o céu chora, a cidade banha-se deliciada. Chove no teu Porto? Sei que sim, embora os meus olhos não vejam.

Se me esqueci das dúvidas que assomaram à mente? É evidente que não. Sentença imediata desprovida de hesitação. Não são fortuitas. Silencio-as, apenas. Faço de miúdo e de miúdo faço de conta. Faço de conta que não existem. Por ora. São demónios que não consigo afastar sem lhes aplicar devida exorcização. Sinto-os, ainda que silenciosos, a morderem implacavelmente pedaços de alma. Pedaços bem grandes, impossíveis de ignorar. Não mata, mas mói – assevera a sapiência popular. Corroboro: como o inverso? – não há como… antes houvesse. Onde param as nossas âncoras que até hoje se mantinham inamovíveis e aguerridamente agarradas à certeza? Enferrujaram. Sim, decerto foram enferrujando. Será a corrosão que subjaz irremediável? Conheço a resposta, bem demais para a escarrapachar numa palavra. Conduz-me para outro universo, para o universo da dor emocional. Que criaturas desbragadas, os meus demónios. Feias.

Coloco as severas dúvidas em pausa. Amanhã. Para cima de um mês que os meus olhos não encontram os teus. Aquelas encenações em que, agarrados aos nossos portáteis, nos encontrávamos via espaço virtual para mim não contam. Não contam para nada; ou quase, já que alguma certeza se insinua. Pouco importa. Centro novamente a atenção no dia de amanhã, dia em que como um cão portarei de vigia à porta até que por ela adentro caminhes. Devaneio, se calhar já temos o cão – só ainda não tinha dado conta disso. Tolo, escarneço de mim com raiva a aflorar-se na voz dos meus pensamentos. Recupero imagens que ainda estão por vir, imagino-te a afagares-me o cabelo e a despenteá-lo com as tuas mãos. Regressa o cenário do cão, só me falta a língua de fora e rebolar-me pelo chão. Constrito a tolerância que ainda havia tido comigo: tolo, não; palhaço – mas alguma vez sou algum cão, assiro ferrenho com palavras das mais bem feias a dar o mote a uma eventual interrogação. Busco e rebusco nos bolsos das calças pelo maço de cigarros. O nervoso, esse, miudinho. Tiro o primeiro, partido. Arremesso-o violentamente sem preocupações com a direcção. Já a ficar esganado, sai o segundo. Torto, ainda assim intacto de ponta a ponta. Endireito-o com os dedos enquanto o encaminho para os lábios e abro, abrupto, uma das janelas da cozinha. A chama baila nervosa no ar, tal qual eu, até que enfim encontra o seu destino e cumpre a sua vontade. Retenho o fumo nos pulmões o máximo que posso, como que a punir-me em castigo por uma falta que afinal só eu conhecia. Cão… Entretanto a água que se prostrava do céu ensopava-me até aos ossos. De que me importava? Cão… Cão é o… O fumo subia ao encontro das nuvens mijonas. E eu, eu voltava a descer ao meu inferno, por descuido e não intencionalmente; quando assim estamos predispostos a nossa mente é capaz das piores peripécias, bem o sei.

Devia estar feliz, não é? Questão a que não respondi enquanto o episódio de birra se esbatia da centralidade das minhas cogitações. Ao invés procurei de novo o papel de cozinha, não para o nariz e sim para enxugar as mãos que pingavam os quadriculados desenhos do chão. Na realidade, esquecera-me por absoluto da constipação contraída e que se afirmava mais séria com uma pontinha de temperatura à mistura. Desapertei uns quantos botões da camisa e arranquei-a do corpo juntamente com a camisola ensopada que se lhe encimava. Tudo de uma vez. Abandonei as duas peças de roupa amontoadas sem qualquer cuidado em cima de um banco e fui tentar remover do tronco a restante água que se entranhara pelos tecidos. Com a toalha de banho. As questões preconcebidas de etiqueta tinham sido irrevogavelmente suspensas. O imediato era agora onde eu vivia sem questionar. Finas linhas de água, ou assim as percepcionava, escorriam para o rosto. Dei conta que também o cabelo se encharcara muito além da sua capacidade de retenção. Esfreguei-o desabridamente sem pronunciar uma palavra, nem por dentro. Quando me vi reflectido no espelho foi-me custoso reconhecer-me. É assim uma pessoa? Aquela imagem retribuída não parecia de gente. Reflectia-me quebrado e destituído da minha dignidade humana. Ao vê-la, impeli-me inconscientemente a estacar todo e qualquer movimento. Não, não podia ser assim. Aquele não era eu. Não podia ser. Impossível. Agastado, obriguei-me a voltar a pensar. De que servem os neurónios se não se usam? Retomei a certeza de ser um ser; um ser pensante e dotado de razão e discernimento, não somente moldado por enxurradas de emoções desenfreadas. Notei que paulatinamente o calor do sopro da vida reaparecia com evidente consciência. Devo dizer, no caso, o frio. Sentia-me gelado, contaminado por um frio que entranhava cada extremidade nervosa. Porém, do mal o menos. Encontrava-me vivo e bem vivo; e ciente, coisa que me escapara sem que por isso desse conta. Por fim a imagem sorriu-me. Foi o suficiente. De facto, devia estar feliz. A verdade era essa sem que conseguisse encontrar-lhe qualquer rasto de impureza. No fundo sabia-o. Pressentia que assim era até às raízes da minha alma. Sosseguei. Os espectáculos que enceno na tua ausência… que dirias, se me visses assim? Na verdade, não quero saber. Na verdade, não aconteceriam na tua presença. Se as pessoas têm segredos, mesmo aquelas que mais parcelas da sua vida comungam? Têm. Este é um deles, um dos quais não estou disposto a abrir mão – desculpa.

No nosso quarto olhei as tuas coisas e os teus lugares; e mais tudo aquilo que não é nem de um nem do outro, mas ao invés comum e pertença de ambos. Puxei por uma fotografia nossa, bem junto à televisão que tão poucas vezes ligamos, instantâneo do real capturado e enquadrado numa moldura pela qual não tenho a mínima simpatia; tu gostas dela, da moldura, e eu, por isso, tolero-a. Importava-me apenas o instantâneo capturado e a ternura que parecia querer transbordar-lhe pelos quatro cantos. Fixei-a intensamente, com o olhar e com as mãos. Parecia querer tocar naqueles dois seres retratados, de verdade e não no papel. Um instantâneo é exactamente o que é, uma forma rebuscada que pretende agrilhoar uma realidade que já foi e que é irrepetível. Óbvio que os seus esforços, não sendo inconsequentes, se demonstram amplamente em vão. Dois rostos colados, sorrisos tão abertos quanto espontâneos, dois seres de tamanha forma embrenhados na sua felicidade que se esquecem que o ademais do mundo também existe. Felicidade. Não deveria eu estar feliz? Amanhã o rosto em falta iria reparar uma espécie de realidade suspensa, voltaríamos a colá-los refazendo o completo da figura. Devia estar. Porque hesito? Reponho a foto no sítio. Será de facto aquele o seu sítio? Ou de outra forma, terá sítio para além daquele que se apropriou quando ocorreu em tempo presente? Esqueço o devaneio, não estou disposto para mais ventanias por entre os miolos. Debruço-me nessa cama tão enorme sem ti. Acabo por nela me estirar, encerrando os olhos em sintonia com um suspiro profundo. Quero adormecer. Quero o amanhã. Quero-o, com todo o desespero das minhas forças. Merdas à parte, sabes quanto te amo miúda? Sabes, sim. E mesmo com a distância a entrepor-se sinto o teu. Falta pouco, tão poucochinho. Decidido arranco o edredão da amálgama de roupa de uma cama por fazer, espraio-o sobre o meu corpo. Permito que a tranquilidade em mim penetre. Penso qualquer coisa, coisas, sei lá. Todo o desequilíbrio é acossado e deposto. Sinto-me em paz. Comigo. 

Se sou feliz, ternura? Sou.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

cansaço que faz esquecer

E quando a cidade adormecer, plácida e serena, também eu me recolherei no aconchego do seu colo.




"La ville s'endormait
Et j'en oublie le nom
Sur le fleuve en amont
Un coin de ciel brûlait
La ville s'endormait
Et j'en oublie le nom
Et la nuit peu à peu
Et le temps arrêté
Et mon cheval boueux
Et mon corps fatigué
Et la nuit bleu à bleu
Et l'eau d'une fontaine
Et quelques cris de haine
Versés par quelques vieux
Sur de plus vieilles qu'eux
Dont le corps s'ensommeille

(refrain)

Et mon cheval qui boit
Et moi qui le regarde
Et ma soif qui prend garde
Qu'elle ne se voit pas
Et la fontaine chante
Et la fatigue plante
Son couteau dans mes reins
Et je fais celui-là
Qui est son souverain
On m'attend quelque part
Comme on attend le roi
Mais on ne m'attend point
Je sais, depuis déjà
Que l'on meurt de hasard
En allongeant le pas

(refrain)

Il est vrai que parfois près du soir
Les oiseaux ressemblent à des vagues
Et les vagues aux oiseaux
Et les hommes aux rires
Et les rires aux sanglots
Il est vrai que souvent
La mer se désenchante
Je veux dire en cela
Qu'elle chante
D'autres chants
Que ceux que la mer chante
Dans les livres d'enfants
Mais les femmes toujours
Ne ressemblent qu'aux femmes
Et d'entre elles les connes
Ne ressemblent qu'aux connes
Et je ne suis pas bien sûr
Comme chante un certain
Qu'elles soient l'avenir de l'homme
(refrain)
Et vous êtes passée
Demoiselle inconnue
A deux doigts d'être nue
Sous le lin qui dansait"


'la ville s'endormait', jacques brel

terça-feira, 16 de outubro de 2012

ausências evidentes, take iv

Optaste por prolongar a tua estadia pelas terras da Invicta. Não te condeno. Nem posso, mesmo que fosse essa a fome da minha vontade. O meu vínculo profissional exige a minha permanência continuada na metrópole de Lisboa, o teu na cidade do Porto. Actualmente, e até num futuro a médio prazo, nada há que possamos fazer para alterar as circunstâncias que agora guiam os nossos compromissos relativos à esfera profissional. Antes de nos conhecermos melhor sabíamo-lo, estávamos completamente esclarecidos quanto aos trajectos que não podíamos evitar, anteriores a nós mesmos. O tempo vai passando, quantas vezes sem dele darmos conta, e vai para lá de um mês que não somos postos na presença um do outro. A uma dúvida que se havia assomado à mente, e à qual não quero escapar pelo menos a tentativa de obter melhor compreensão, adiciona-se presentemente outra: terá sido acertada a opção de arrendarmos conjuntamente habitação em Lisboa? Alturas houve em que não hesitaria em responder, com a flexão na afirmativa. Hoje em dia, porém, a convicção esbateu-se, a dúvida instala-se mais confortável nos seus senãos, os porquês surgem menos espaçados e as respostas aos mesmos tendem a ser esguias quando não completamente inexistentes. Vicissitudes dos tempos modernos; ou melhor, da nossa modernidade. A certeza e a previsibilidade são substituídas pelo risco e pela multiplicidade da acção individual solipsista. Não poderemos ser nós dois, única e exclusivamente, a mudar o mundo – aliás, demasiadas são as vezes em que é este que nos altera e nem sempre no sentido manifestamente desejado pelas nossas duas individualidades.

Compreendo perfeitamente a tua decisão e, de um certo modo, também a suporto. Creio que menos não esperarias de mim, nem eu de ti. Sei bem que não abandonaria Lisboa como residência no espaço de tempo do imediato. Tenho as minhas razões, as minhas boas razões; exactamente as mesmíssimas que a ti atribuo com as tuas ausências rumo ao Porto que a pouco e pouco vão sendo cada vez mais extensas. Presumo, num tom pessimista para o tal nós, que não tardará a que te mudes de armas e bagagens. Presunção pouco simpática, como é evidente, já que é mais do que garantido que não me poderei permitir acompanhar-te. Bem sei que estou a tentar não explicitar o inevitável, contudo não sei por quanto tempo eu e tu, ou nós, nos consigamos conter. Se fosse um jogo diria que estávamos perante uma situação em que nenhum cenário dos possíveis é vencedor ou capaz de o ser. O que é mais grave é que estou a habituar-me a viver o meu quotidiano apartado de ti, inclusive nas mais pequenas coisas que amiúde me te traziam à memória. Jantar, um ritual que fazíamos questão que acontecesse a dois, passou a ser normal suceder apenas entre mim e o televisor, isto quando não levo o prato para o quarto e me fixo no ecrã do portátil. Quebrou-se, ou está-se a quebrar, o hábito construído e constituído de nos alimentarmos enquanto nos entrosávamos em amena cavaqueira ignorando por completo os sons emitidos pelo aparelho de televisão invariavelmente ligado. O elo, o nosso elo, parece querer escorregar por entre a impossibilidade que se entrepõe e impõe entre as nossas vontades. Não me é fácil nem agradável admiti-lo, mas o vivido fala por si e, como se diz, contra factos não há argumentos. O amor devia ser mais forte do que tudo. Sê-lo-á?...

Hoje, sábado, declinei o convite semanalmente reiterado para ir tomar café com alguns bons amigos de longa data. O meu círculo social já não é nada de extraordinário, pelo que não é com leveza que pretiro destes momentos especialmente para me dedicar a práticas introspectivas que me conduzem, inapelavelmente nos últimos tempos, à interrogação sobre o nós. Porém foi exactamente esse o leitmotiv subjacente à recusa em ir socializar com a rapaziada. Mais do que convicto, estou certo disso. Almocei um hambúrguer manhoso numa dessas casas que se encontram praticamente ao dobrar de cada esquina e voltei sem mais embargos para casa. Queria-me só ou comigo e as paredes, que é dizer o mesmo. Estirei-me na cama mal me vi livre dos ténis; sem atacadores, até estas criaturas dispensam os laços. Bem a meio da cama, a observar o tecto, procurei colocar-me o mais confortável possível. As mãos atrás da cabeça e as pernas semi-flectidas. Por instantes tal foi a torpe que me enleou que julguei ir cair no sono. Contudo, esforcei-me para me manter acordado. Tinha vários projectos introspectivos em mente aos quais me queria dedicar e não estava disposto a protelá-los. Embora não tenha fugido na íntegra, lá espantei o sono que se aproximara sorrateiramente e matreiro. Pus na boca um kompensan, coisa de que me faço acompanhar religiosamente, a fim de mitigar o desarranjo então surgido no estômago – refluxo esofágico, diz-me o médico. Sabia que havia um nós. Todavia, haveria um projecto para esse nós? Algo de concreto, sustentável? Passei o comprimido de um lado da boca para o outro, revelando o meu nervoso miudinho e a tentativa de apelar aos meus neurónios que laborassem em conformidade com as exigências da situação que jamais me parecera tão delicada quanto agora. Atirei uma mão para o meu lado da cama, mas ao invés da habitual garrafa de água apenas encontrei o vazio; desisti. Afinal, talvez tenha sido burlado por artes de labuta do inconsciente, nem sequer tinha sede. Não de água, pelo menos. Sede, sim. Mas de respostas, por mais hipotéticas e provisórias que elas fossem. Respostas… Quem não as quer? Certos estão os que asserem ser mais fácil dizê-lo do que fazê-lo; já sei que é uma verdade à la Palice, contudo nem por isso menos acertada.

O ruído dos automóveis que circulavam avidamente pela rua incomodava-me, o que, diga-se, é qualquer coisa de bastante raro. Sempre fui um citadino, um nado da metrópole: aqui e ali tenho asseverado que Lisboa é a minha segunda mãe. Coisa tola. Ou nem por isso. Mas, de facto, não é tema para agora – debate para outras núpcias. Por que motivo danado fujo sempre com o rabo à seringa quando farejo assunto que suspeito ser desagradável? A minha capacidade de alienação é extraordinária quando os ventos não me sopram a favor; este é um desses casos, provavelmente dos mais paradigmáticos para exemplificar essa mencionada capacidade perante a contrariedade, a impotência, adversidades de monta, enfim, perante a frustração. Saí da postura confortável em que na cama me encontrava. Ponderei, errando pelo corredor único da casa, se não faria melhor em juntar-me àquele turbilhão de veículos em movimento, percorrendo por meu turno o tecido betuminoso que constituí boa parte da derme da minha amada Lisboa. Após alguma indecisão, subtraí essa hipótese do leque de possibilidades. Afinal pretendia estar comigo e por muito que goste de papar quilómetros enquanto me perco no profundo de mim mesmo esta não me pareceu opção acertada, não para saciar os meus anseios presentes – estava, definitivamente, fora de questão. Ao invés, seria de maior tino permanecer por casa. Acenei que sim, como que corroborando a minha própria sentença. Acabei por me sentar no sofá da sala, não sem que antes me tivesse ajoelhado defronte do singelo bar de madeira para dele retirar um copo baixo e bojudo que enchi com uma medida de três dedos de líquido de um dos meus whiskeys predilectos; dispensei as duas pedras de gelo do costume. Quebrei igualmente a nossa regra de não fumar na sala, coisa que só muito extraordinariamente acontece como quando reunimos alguns amigos, dos meus e dos teus, para uma jantarada que se prolonga noite afora até ao despontar da madrugada – ainda assim, nunca era eu a acender o primeiro cigarro. Levei o copo aos lábios a provar aquela bebida que ainda é mais quente quando desprovida das minhas habituais duas pedras. Poisei-o no braço do sofá para ir apressadamente ao escritório buscar o cinzeiro, creio que o único que temos no nosso cantinho – quanto aos mencionados jantares vários eram os apetrechos que, ao improviso, faziam as vezes de um cinzeiro. Troquei de posições copo e cinzeiro, passando um para a mão e o outro para o braço do sofá. Abri uma frincha nas janelas e voltei a sentar-me, já com o cigarro a fumegar na mão oposta àquela que segurava o copo servido. Fiz com que o mesmo, o copo, encontrasse mais uma vez os meus lábios. Porém, desta feita, aproveitei para uma golada mais profunda, acto que deixou apenas um risco breve de tonalidade âmbar a baloiçar no fundo do copo. Apercebi-me do erro da minha precipitação ao sentir o ardor provocado pelo líquido que atravessava o caminho que o depositaria no estômago, estômago que terá ficado danado comigo vista a forma violenta e célere como desagradavelmente se abrasou. Precisava de ter mais calma, pois não pretendia ficar ébrio o que implicaria, para mais contra a minha vontade, perturbar o regular funcionamento do sistema neuronal. Com o remoto liguei o leitor de dvd que por obra do acaso ainda continha em si o disco de música que lhe introduzira no dia em que havias dito regressar – o que, com facilidade se constata, não sucedeu. O seu impacto para comigo foi no mínimo ambivalente: se por um lado o álbum se encontra no lote dos meus musts, por outro cristalizava em mim a tua ausência já que habitualmente quando tocava, ainda que sem déssemos conta disso nessas alturas, o escutávamos em comunhão. Com um sorriso triste a ponderar sobre a constatação bipolar soergui-me e verti da garrafa para o copo um pouco mais de whiskey, o suficiente para que tomasse a aparência original de quando me servira. Voltei a molhar os lábios, tenuemente, precavido dos efeitos não desejados por trago exacerbado. Serena, a tarde ainda só vai a meio. Escuso precipitar-me esvaziando apenas num breve espaço de um par de horas uma garrafa de quase quarenta graus de álcool que ainda mal encetada tinha sido.

À medida que a tarde se ia fazendo noite outro ocaso acontecia em simultâneo no meu cérebro fervilhante – a saber, o nosso; ou assim o via, sem saber ao certo o que era isso que eu via. Não, não era torpe provinda do consumo do líquido espirituoso. Sabia-me – sentia-o sem réstia de dúvida – absolutamente sóbrio. Os discos lidos já iam para cima de três ou quatro, mas como permanecera praticamente imóvel o whiskey não tinha levado nenhum outro avanço desde que a borda do copo tocara os lábios logo após o reabastecimento. Passara um coro de horas a pensar em tudo e em nada; nem eu mesmo saberia fazer uma síntese deste facto tão prolixo como paradoxal – na realidade sentia-me tão paroxista como indigentemente indiferente. A concentração escapava-me, em nada o posso negar nem há palavras que me contradigam, porém a responsabilidade, uma vez na vida, não podia ser imputada ao álcool e aos seus efeitos aquando resultado de um consumo desmesurado. A entropia vivia em mim; ou era-o eu. Os meus movimentos redundaram, por tanto que os ponteiros do relógio avançaram, na troca de discos no leitor e a um ou outro espasmo ou contorção devido à abominável sensação de dormência que então perfilava num determinado músculo. Todavia, do que ainda assim concluíra mesmo que num profundo estado de astenia nada ia ao encontro do meu agrado; ao invés assentei num pessimismo que atribuía ao modelo pragmático a que não conseguia escapulir. Sem reservas de maior, via-me projectado num futuro no qual não caberias: tratava-se, mais que tudo, de apenas uma mera questão de tempo e tão-somente isso. Acendi um cigarro. A expressão do rosto devia desenhar-se falida, o brilho nos olhos extinto. Mecanicamente fumei o cigarro, novamente entregue à apatia e a pensamentos dispersos e desconexos, devaneios de quem deixou de acreditar: em si, nos outros, enfim, num qualquer sentido meritório que fizesse mover a minha vontade.



Por hoje basta. O volume de trabalho a que me deixei sujeitar por desleixo, fenómeno indissociável do meu modo de ser, tem-me deixado exaurido física e mentalmente. Pouco é o tempo que resta para mim próprio e careço dele para uso que permita refrear os laços à realidade – a fuga é quase tão importante quanto a integração. Tempo só e exclusivamente para mim ou, mais certo, para o cuidado de mim – coisa de que preciso como o ar que respiramos, por muito poluído que esteja, por mais ordinária que seja a sua qualidade. Hei-de dar continuidade ao que, por mote próprio mas sem saber ao certo das consequências, iniciei. Não me arrependo. Contudo, exige-se uma pausa na redacção de palavras. O descanso assume contornos acima da necessidade, torna-se premente e sei-o insubstituível. Até breve, garanto.