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sexta-feira, 24 de julho de 2015

timings

Em breve retornarei aqui. Há palavras que te quero deixar. E não, meu claro blogue, não estás ainda esgotado. Em breve...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

domingo, 27 de abril de 2014

A trejeito de desalinhos

Os dias de treta no 'escritório' não permitem sequer que os fins de semana escapulem. Vêm aparecendo como uma constante, quando o expectável seria o inverso; pelo menos de outros tempos que conheci. Presentemente questiono-me, mais amiúde do que gostaria, se eu já não sou a mesma pessoa. Bom, de facto em variadíssimos aspectos não sou - muito mudei desde que iniciei o meu projecto profissional mais audaz, já lá vão uns anitos e não tarda muito para que lhe coloque um definitivo ponto final. Interrogo desajuizadamente as minhas competências, as minhas valências, a minha utilidade no seio daquele círculo. O facto de ter regressado faz pouco de um espaço onde diversos colegas exaltaram as minhas capacidades em nada ameniza as contradições que vagueiam indisciplinadas pela mente. Sinto-me mais fraco que antes, pese embora tenha já percorrido um trajecto digno de, pelo menos, alguma consideração. Sinto-me pior, menos capaz. Guardo-o para mim, ainda que desconfie que me traia com regularidade e permita que esta minha falta de confiança perpasse para o mundo da cabeça de outras gentes - se assim o é consciente ou inconscientemente, trata-se de caminho que por ora quero evitar.

Claro que esta dinâmica não se esgota na minha pessoa. Desvairado sim, tolo de todo é que não. Também os outros, em parcimónia ou acelerados, são alvo desta coisa a que chamamos mudança e que jamais incorre em pausas para cafezinho. Ninguém lhe escapa, nem os mais taciturnos nem os mais teimosos. Ninguém, ponto. Noto consideráveis diferenças, permanecendo a falar na esfera do 'escritório', naquele que mais admiro, na pessoa que em simultâneo é minha colega e minha superior hierárquica. Aquelas que respeitam ao nosso relacionamento, do mais institucional ao menos formal, surgem esporadicamente desagradáveis num continuum acre. Desconfia de mim, coloca-me em dúvida numa permanência que quase me esgota, desencanta-se e também por isso vai, nas entrelinhas, desautorizando competências que outrora me revia. Aliados e cúmplices em múltiplas tarefas que tanta vez extrapolaram a esfera do 'escritório'. Agora, no dia de hoje, fico incrédulo ao perceber que para além das minhas dúvidas também tenho que engajar em combate com os senãos dessa criatura cuja amizade venho almejando, pensara até estar bem mais próximo de a ter. A sua serenidade costumeira extravasou para uma inquietação perene. Tornou-se quotidiano estar pronto para aparar os golpes que possam sair do seu pulso. Continuo, inelutável, a confiar nele. Porém o efeito de erosão, ainda que assaz moroso, pode vir um dia a sentir-se. Tenho comido e calado, como se diz na gíria. Desvio as estocadas que endossa ao meu ser, optando por nunca contra-atacar. Assim vai sendo, até ao dia que avidamente aguardo, aquele em que embainhará novamente o seu florete não mais o dirigindo ameaçadoramente. Isto, claro está, fruto de novos ventos de mudança. Todavia esses novos ventos não são percepcionáveis no imediato e não saberei, até que o seu ar me chegue, para que rumo apontam; poderá ser no da concretizável ilusão amena que prefiro edificar mentalmente como poderá soprar a favor da desilusão e da então assim inevitável quebra do vínculo: não o poderei respeitar se também ele não se respeitar e se me atirar com desdém aos lobos dos quais me tem quase que paternalmente mantido a salvo - enfim, não posso respeitar, com a devida profundidade, quem não me respeita.

Venham, venham mais uma vez, ventos de mudança. A estagnação não presta. E como está não se pode ficar, imbuídos em atmosfera fétida e insustentável. Espero voltar a ver os seus olhos a transbordar de orgulho pelo seu pupilo, como já observei. Guardo particular memória de uma circunstância em que um colega seu, embora não meu superior hierárquico, o encantou por o seu pupilo o ter encantado. Espero. Mesmo que tenha que ser pelo dia em que parta sem adeus e que a essa casa não a torne a chamar 'minha casa'. Na esfera do 'escritório', óbvio; e noutras, que de tão apetecidas tardam como uma eternidade.

Escrevi um dia que por vezes mudamos sem nada mudar, permanecendo os mesmos. Tem o seu quê de verdade. De ousadia. Até de profecia. Porém, nunca olvidando que nos tornamos o que nos fazemos. Quanto a mim e ti, pá, e agora? A ver vamos... Não é demais recordar que ao ninho, que é a casa dos afectos que os seres-humanos sabem - ou deviam saber - construir, a 'casa' do métier é complemento sine qua non - e outra que limítrofe: a da amizade cuja pedra basilar é o mútuo respeito.

Talvez daqui a umas semanas redija qualquer coisa de mais simpática e de mais sinfónica ao ouvido. Por ora, das três 'casas' que mencionei... adiante-se tão-somente que todas elas carecem de obras - umas mais que as outras, pois é evidente. Pelo menos para mim, já que as palavras aqui apensas gotejam dos meus pulsos que vão mantendo uma firmeza que anos atrás desconhecia e julgava inatingível. Até breve.



sexta-feira, 2 de agosto de 2013

incorrer-se em dúvida certeira

Posso parar de devanear ou devo continuar com todos estes, tantos, disparates que na realidade só fazem, todos eles, sentido?

sábado, 22 de junho de 2013

sábado, 14 de julho de 2012

lost & found

Para ti.


"If you walk away, walk away
I walk away, walk away
I will follow
I will follow"

sexta-feira, 6 de julho de 2012

entre a emoção e a razão


Sétimo piso, o ‘chefe’ a aguardar. Melhor, seria eu a aguardar por ele. Como de costume estava com alguém no seu gabinete. Não lhe ouvira a voz, mas fora informado que estava reunido com alguém, alguém esse de que não guardo a mais pálida recordação. Sentado no sofá, olhei em redor. Tudo igual por ali, pelo menos parecia-me. Extrapolei, considerando que o normal é que tudo se mantivesse igual por toda a Lisboa. Sabia-me a exagerar, contudo essa sensação montada a partir de uma generalização dúbia e grosseira era do meu agrado, pelo que a deixei tal qual instalar-se a seu conforto no meu pensamento. Enquanto mantinha o  olhar, agora algo perdido e em devaneio, a cruzar o espaço que me enleava, martelava os dedos da mão direita num caderno de notas, curiosamente adquirido aquando da deslocação à cidade do Porto: há quem lhes chame, a estes fenómenos, sinais, predilecções de um destino que nos ultrapassa; outros preferem dizê-los signos, cujos significados e significantes devem ser criteriosamente analisados, decompostos e categorizados; eu opto por denominá-los por acaso, conceito que tomo de empréstimo a Boudon e que me ficou caro desde os tempos em que frequentava o curso de licenciatura. Reparei no ruído provindo do contacto entre as extremidades dos meus dedos e a capa do caderno, correlacionando de imediato este batucar com o estado de ansiedade que se apoderara da minha vontade. Nada de anormal quando estamos incertos se o ‘chefe’ manifestará aprovação face ao trabalho, ainda que muito parcial, entregue ou se, pelo inverso, discorrerá sobre as mais minuciosas incorrecções com que se deparara ou até mesmo se bradará que o que fora entregue nada mais era do que um leque de banalidades superficiais, de trivialidades mal trabalhadas e desajeitadamente recolhidas num processo em que nada se ganhara, antes tendo-se perdido tempo precioso acrescido por um desperdício de qualidades que me vai reconhecendo em uma ou outra ocasião. Sorri por dentro, como se costuma dizer – Como será que o nosso organismo pode sorrir por dentro? Não será uma tolice, uma patranha da pior espécie, inventada por poetas populares inebriados pelo torpor letárgico provocado pelo consumo de irresponsáveis medidas de álcool entre tascas sombrias e casas de pasto de duvidosa integridade? Em resposta a este raciocínio, voltei a sorrir por dentro, desta feita forçando a racionalidade a partilhar a sua sobranceria com o espírito folclórico. Afinal sorrir por dentro é belo, para além de que soa bem. Sorrir por dentro, como se alma manifestasse o seu júbilo sem que o corpo, por gestos seus, a denunciasse.

Entretanto, da sala do emérito ‘chefe’ escutavam-se, ainda que muito ao fundo, duas vozes cujo tom se elevara e que pareciam engajadas numa dança ritual de quem se despede e que canta até outro dia que por hoje finda-se o tempo. Por outras palavras, a reunião estava concluída e agora cumpria-se a etiqueta das boas regras. Não tardaria muito até que ouvisse as palavras do senhor emérito, cumprimentando-me, convidando-me a entrar e desculpando-se pelo atraso que teima em persistir em quase todos os nossos encontros. Antes, dirigi as minhas cogitações na tua direcção. Sentia uma irresistível tentação de procurar ao senhor emérito algumas informações tuas, particularmente dos tempos em que ainda não te conhecia, porém sustive-me já que estava convicto de que tal façanha poderia ser do teu completo desagrado. Estranho, foste tu primeiro a buscar informações sobre mim de forma sub-reptícia, esclareça-se, investigaste o meu passado na esfera do trabalho, o que eu havia produzido ou aquilo que por inabilidade me havia redondamente esquecido de produzir, e disseste-mo descarada e abertamente na cara, frente-a-frente, finalizando com um espero que não se importe, caso se importe, então as minhas desculpas, até me escutares a dizer-te não se preocupe, não tem qualquer importância, com um sorriso tão estúpido quanto tolo cinzelado no rosto, irremediavelmente desarmado pelo tão simples facto da tua presença. E ali estava eu a debater-me com uma crise ética, a digladiar-me com princípios morais, a esgrimir considerações sobre atitudes correctas e aquelas outras que nem por isso. As pessoas são estranhas. Não podemos confiar nelas, se bem que são as únicas em quem podemos confiar. Hábil e estranho paradoxo, contudo nada de inverdade em si. É assim mesmo, a estranha – mas tão deliciosa – condição humana; logo Arendt se assomou aos meus considerandos em silêncio, que mulher bestial deverá ter sido, para mais numa época em que muitas portas estavam ainda teimosamente enferrujadas face à pertença de género no feminino, se bem que tal situação decorresse já em pleno século XX… faleceu antes de teres sido dada à luz, concluí sem no entanto saber o porquê ou a relação desse facto com os acontecimentos que eu e tu vivemos presentemente no nosso presente. Ergui a face para a porta acompanhado com os globos oculares os movimentos muito mais pragmáticos daquele homem que admiro acima de quase todos, estejam ainda a rodar pela terra ou tenham sido alimento de vermes há vários séculos passados, e que amistosa e amigavelmente me convidava a entrar, visivelmente entediado, contudo coisa que sabia não dever-se nem à minha presença nem aos motivos da minha visita. Estava mais do que decidido: não lhe perguntaria nada sobre ti, nem mesmo se estivesse no seu poder uma fórmula de desvendar os mais misteriosos segredos de uma vida inteira – estava a deixar-me arrastar pela minha vertente dramática, que tanto adora fazer uso da sua pseudo-prodigiosa imaginação, quando o que necessitava era de concentração e da minha máscara de actor no meu métier. Entrei no gabinete, deixando-te à porta sem a menor das hesitações, apertámos as mãos e finalmente poderíamos opinar sobre aquela parcela de um trabalho a e por concluir.

Pouco seria o tempo à nossa disposição, numa questão de quinze a vinte minutos teríamos que estar numa sala de outro edifício: um para introduzir um conferencista basco de renome, outro, eu, para assistir à palestra. Ainda assim, nesta míngua de tempo, ousaste tentar aflorar o meu pensamento. No entanto, sem piedade nem remorso, extirpei esse assomo da minha existência ali naquele momento. És teimosa, sabes? Bela, cândida e plácida; tenaz, decidida e vigorosa, sempre com o véu das primeiras a cobrir estas últimas. És mesmo bem teimosa, sabes? Já to disse. Não te desculpaste com lugares comuns do tipo é o meu feitio. Assumiste e retorquiste: somos os dois, embora de maneiras bastante distintas. Tens razão. És tão teimosa. Mea culpa, também o sou. Sorriste e beijaste-me, puxando-me com os teus braços provocando o toque mimoso dos nossos corpos ainda vestidos. Foi um beijo de verdade, não foi um beijo de tréguas. És teimosa, mas tens dificuldade em mentir e até o teu corpo se ressente quando o fazes, comunicando na sua linguagem que algo incómodo o atravessa. Não mentias, não. Foi um beijo de verdade. E os teus braços, algo magros, como os meus, capturaram o meu torso para que também os nossos corpos, à sua maneira, se beijassem. Não tinha muito a acrescentar, aliás nenhuma crítica de monta, o que aliás me deixou enormemente satisfeito. Queria apenas sugerir que enriquecesse o trabalho com isto e aquilo e mais aqueloutro, sugestões brilhantes, admita-se, dignas de um homem ao qual reconheço valor e mérito muito para além da mera escala profissional – sinto-me orgulhoso por me ter aceite no seu círculo, jamais se dirigindo a mim com prepotência ou complacência, tratando-me como um igual cuja falta maior seria a escassez de experiência e não o potencial formal. Anui, evidentemente. Sugeri, inclusive, que se poderia ir mais longe, que seria possível executar-se um maior desdobramento no que propunha. Acenou afirmativamente. Por esta hora devia estar a apresentar o basco; ele, não eu – eu iria ser um espectador. Deixáramos para trás o edifício onde se tinha previsto o nosso encontro. Interpelávamo-nos agora estacados no interior de um outro a aguardar, com a pouca paciência a que podíamos apelar, pela chegada do elevador. Nem eu nem ele estávamos dispostos a galgar os degraus até ao quarto andar de mote próprio se podíamos muito bem esperar que uma máquina o fizesse sem o menor esforço. Posto isto, para concluir, o que tem não está nada mau, está bom e interessante; agora é continuar e ir angariando progressos – disse-me, informando-me que estava concluída a conversa do motivo que em primeira instância me conduzira à sua presença, naquele espaço tão específico e singular, tão prenhe de significados. Saíamos do elevador em direcção à sala reservada à conferência onde o actor principal já aguardava pelo seu colega de carreira, que o introduziria aos presentes. Reconheci poucas faces e depois de uma informal e mútua pancada nas costas ou no ombro, a comunicar um até já, dirigi-me a uma cadeira vazia e ocupei o lugar situado algures na segunda ou terceira fila, falha-me a memória; na segunda, estou certo disso.

O ‘chefe’ abandonou a sala. Compromissos inadiáveis exigiam a sua presença. Já lho disse, anda a abusar; se entrou a cem, saiu a trezentos. O senhor basco, é verdade. Um slide show incontável, mesmo que eu me tivesse dado ao trabalho de os contar desde o primeiro. Contudo, não lhe estou a fazer justiça. Profissionalíssimo muito além do que a profissão lho exigia – e nós, já agora, que assistíamos com a atenção que fez por merecer. De quando a quando baixava os queixos de forma a que o meu campo de visão abrangesse os marcadores do meu relógio afincadamente preso ao pulso. Parecia-me invariavelmente, ilusão de um tempo dito psicológico, que os ponteiros se encontravam na mesma posição, preguiçosos em querer trabalhar, mais preguiçosos do que eu, o que não é dizer pouco. Já sei, se me ouvisses dizer isto censuravas-me com o olhar e ficarias meia hora a dissertar sobre o que é a preguiça, o que devia e não devia fazer, como exagerava e em simultâneo não exagerava. Calar-te-ia com um beijo. Não resultaria. Logo voltarias à carga, fizesse eu o que fizesse, dissesse o que dissesse. Tens o teu timing interno que respeitas escrupulosamente, só findarias quando a tua vontade determinasse que desejava ficar por ali, mais do que satisfeita e saciada. Teimosa, sabes? Nem assim deixaria de te dar esse beijo, porque sim. Teimosos os ponteiros. De nada valeria acelerá-los artificialmente, o tempo é-nos exterior e está-se marimbando para o que o meu relógio diz ou deixa de dizer; o meu e o de todos os outros. Em tom coloquial confidenciei para mim próprio: tens que te aguentar à bomboca. Pelo menos a temática era interessante e o facto de ser falada em castelhano sempre quebrava um pouco com o ritmo pardacento de um dia inteiro, como o são quase todos os dias regulares, a escutar e a verbalizar palavras e frases no nosso português; não me entendam mal, aprecio muito e tenho todo o respeito pela nossa língua materna. Nisto voltavas a mim e eu a esforçar-me por ouvir o senhor vindo propositadamente da metrópole de Barcelona. Era a minha vez de teimar e disse-te que ali não era o teu lugar. Curiosamente acabei por constatar que até seria, contudo acabei por ficar morbidamente feliz por ali não te encontrares – de não te encontrares a sério, fisicamente, e não como produto da minha mente –, evitando-se assim que o nosso mundo profissional nos colocasse numa posição com a qual não me quero debater. Devagar, a passo de caracol engripado, a conferência avançou para o almejado término. O ‘chefe’ regressou, pontual que nem um britânico, cabia-lhe ainda a tarefa de moderar o debate que se seguiria ao que fora comunicado. A minha satisfação tornou-se irreprimível assim que ele atravessou aquelas portas. No máximo mais trinta minutos, quarenta, dado que o senhor basco permanecia imerso nas suas palavras. Duas horas e quarenta e cinco minutos após ter entrado, juntamente com o senhor emérito, naquela sala fui ao rubro ao ouvir os primeiros aplausos. O basco agradecia, como obrigam os bons modos. Deu-se início ao debate, ou, por outra, o senhor emérito deu início ao debate – ao abrir das hostilidades, como eu prefiro denominar este momento preciso. Um ou dois quartos de hora e estaria livre daquela cela, voltaria a ser um indivíduo livre a fazer o quer que seja que os indivíduos livres façam; o que amiúde, convenha-se, não é muito. Todos erguidos e prestes a abandonar o local, eu entre os mais desejosos, lá nos fomos paulatinamente movimentando. O emérito e o basco conversavam entusiasticamente, bati levemente no blazer do emérito e à saída da sala saudei-o em despedida com uma espécie de movimento de mão em continência. Em retorno, recebi a palma de uma mão levantada e um olho piscado; ainda não satisfeito, apontou-me o dedo e, alto, depois falamos, hã? Claro, retorqui. Teimosa, podes voltar? Desço pelas escadas para compensar a cobardia de, antes, não as ter subido. Tento sair pelas traseiras, o senhor segurança diz que não, que a porta está já trancada e que não tem chave, que terei de sair primeiro para o passeio da avenida e só depois de umas dezenas de metros poderei reentrar, agora pelo portão principal, de encontro ao edifício onde inicialmente estivera, o tal do sétimo piso, descer alguns lances de escadas ao encontro do automóvel. Podes regressar, teimosa? Sorrio. Por dentro e por fora.

Apreciava com antecipação o regresso ao teu amplexo, ao teu beijo morno. Era tarde e anoitecia a olhos vistos. Pensei que quando chegasse a ti já o lusco fusco teria abandonado o céu e o manto de estrelas reinaria por cima das nossas existências. Coloquei a chave na ignição, esfreguei a testa cansada daquela tareia de intermináveis horas passadas naquele lugar. O motor indicou-me que estava pronto, liguei os médios como sempre faço quando entro ou saio da garagem do edifício. Fiz fé de que o carro, a par de mim, conhecia o trajecto a percorrer. Marcha-atrás, primeira, quero-te; tanto…

Adormeceste no sofá, agarrada ao meu braço e com a cabeça a ele encostada, praticamente logo após termos jantado. Senti que estavas exausta, por mais que me tentasses distribuir sorrisos e piscadelas de olho marotas, por entre o manuseamento dos talheres, dos copos e de outros que afins. Não contrariei a tua vontade, permiti julgares que me iludias – embora, no âmago, soubéssemos os dois que apenas teatralizávamos, como dois fantoches encantados a representar os seus papéis numa caixa e no seio de um mundo de fantasia, respeitando-nos mutuamente, a nós e ao que somos; temos muito para crescer, não o ignoramos porque não somos tolos nem ingénuos, mas tal faz parte e aceitamo-lo serena e placidamente, ouso até asserir que o desejamos com o tamanho das nossas forças que individuais se unem para a concretização de objectivos comuns e partilhados. Confesso-te, já sinto a dormência do meu braço a alastrar e a tornar-se inconveniente para além do aceitável. Pelas minhas contas, grosso modo, mais de três horas se foram desde que ligaste a minha televisão, que agora também é tua, e poisaste a cabeça no meu ombro, encolhendo o mais do resto do teu adorável corpo para que coubesses, comigo, semideitada nas almofadas do sofá. Não lhe ligaste peva, à televisão. Era indiferente o canal sintonizado, pois era-te indiferente qualquer conteúdo que o ecrã lcd pudesse projectar nos teus olhos de castanho-mel. O cansaço dominou-te e venceu – embora só por hoje, digo-te eu que te chamo minha. Pesa-me o coração por ter de te despertar, mas quero-te mais confortável, desejo que o teu sono aconteça onde deva ser para que de facto repouses a fim de que, mais tarde, te reergas com energias plenamente recuperadas ou, pelo menos, lá perto. Tens um sono bem pesado, sabes criatura teimosa? Ignora o ruído da televisão, cujo volume, apesar de tudo, já diminuí após uma prolongada batalha para me apoderar do comando sem te perturbar, ignora o disparo violento e sonoro da ventoinha do meu portátil, ignora a minha tosse teimosa por causa de uma garganta irritada, questiono-me se não ignorará inclusivamente todo o mundo excepto aquele feito de sonhos para onde te levou. Quase não sinto o braço e só devido a um esforço mais do que considerável é que continuo a conseguir teclar com a mão esquerda; com a direita aproveito para afagar o teu cabelo, para tocar levemente o teu rosto. É imperativo acordar-te, desculpa-me. Quem me dera que houvesse outra forma, mas não há. Tenho mesmo que o fazer, por mais que deteste, que abomine a ideia. Antes, porém, sussurro-te um desculpa do qual nunca terás conhecimento. Provavelmente dirigi-o a mim, não estou certo. Já não estou certo de nada; ou antes, estou mas de pouca coisa. Começo igualmente a ficar baralhado e sinto areia nos olhos.

É com agrado que estou de regresso aos textos mais longos. Devo-o a ti. Estou-te grato, sim. Talvez um dia, quem sabe, te fale deste blogue. Não hoje, isso é garantido. Já dormes novamente e no mobiliário apropriado, pelo que fico satisfeito. Não te zangaste por ter interrompido o teu sono. Esfregaste teimosamente um olho até à sua coloração avermelhada se tornar mais acentuada e sorriste para mim. Tentaste regressar à posição em que estavas, o que entendi mal agarraste com as duas mãos o meu braço. Não permiti, no entanto, que poisasses a cabeça. Cama, imperativo mas delicado, transmiti-te. Zombie lá caminhaste, trôpega, deliciosamente ensonada e sem jeito nenhum a andar. Senti ainda mais ternura por ti. Num fôlego ergui-me e servi-te de amparo até ao quarto, onde te deixei sentada na cama para vir terminar estas linhas e desligar todos os aparelhos que, teimosos como tu, pareciam ter vontade em ficar ligados. Falta só encostar a tampa deste portátil. Fui observar-te, já dormes, tão sossegada como canta o Palma, e um novo assomo de ternura percorreu todo o meu corpo. Falta encostar a tampa deste. Não demora. Já me junto a ti.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Fábula. Para graúdos.

Cheguei ofegante e atrasado. A rampa de betuminoso que conduz ao edifício que tanto queria alcançar parecia não ter fim, como nos filmes. Dentro do edifício, outro obstáculo. Dois lanços de escadas para trepar. Passei o computador para a mão esquerda e ajudei o trote com a mão direita a puxar contra mim o corrimão. Os restantes metros eram fáceis. Com todos repentinamente a voltar os seus olhares para mim, entrei na sala.
O músculo cardíaco bombeava sangue a uma velocidade vertiginosa. Porém, sentia que as gotas de adrenalina tinham deixado de pingar e iam, suavemente, deixando de fazer efeito. Começara o processo de recuperação do esforço a que me obrigara. Limitei-me a olhar de frente, fazendo-me por esquecer os rostos que em mim se fixavam com espanto e talvez também com uma atitude de quem pretende repreender. Depressa, contudo, se tornaram mais afáveis para comigo, talvez o meu cansaço tenha despoletado sentimentos opostos àqueles que gostariam de imprimir naquele instante. Seja lá como for.
Vi os teus olhos meigos, ainda que chispados devido a um atraso que vias injustificado e injustificável, cruzarem-se com os meus. Nem soergueste o queixo mais do que os milímetros estritamente necessários para me confrontar. Mantiveste-te profissional, fazendo regressar a tua atenção para com a jovem à tua frente. Profissional. Profissionalíssima. Jamais alguém entendeu que por breves instantes havias quebrado a conexão com a minha colega. Só quando os demais te interromperam é que te dignaste a prestar-me atenção. E não tinhas outra hipótese, eu agora estava ali e tinha todos os outros como testemunhas. Ah, afinal sempre conseguiu vir, colega – brindaste tu com mágoa e desalento, talvez mesmo com umas acendalhas de rancor, evitando sempre, e com um brilhante sucesso, que os demais desconfiassem do laço que nos vai unindo.
Observei a plateia de luxo à qual ia servindo um sorriso mesclado de saudação e de sincero pedido de desculpa pela chegada tão em cima da hora. Percebi, desde logo, que havia perdido a pole position para outros colegas, mas estava longe do meu pensamento resmungar. Aliás, como poderia? Ainda que tivesse manifestado qualquer desagrado sabia que me desintegrarias, primeiro com o teu olhar e de seguida com um discurso ameno, como é teu hábito, mas prenhe de considerações que me embaraçariam até às entranhas – e como tu, melhor do que ninguém, o sabes fazer. Colega, as minhas desculpas por este atraso indesculpável, lamento imenso, um imprevisto… e fiquei por aí, com as palavras a voarem perdidas e inacabadas no ar, até porque nem eu mesmo saberia inventar mais o que acrescentar. Nem valia a pena. Sorriste, sempre impecável com a postura correcta e dada à situação, e nesse sorriso ordenaste-me que me calasse e que tomasse um lugar sem delonga e tentando incomodar o menos possível todas as pessoas que estavam já sentadas nos seus lugares – e tudo isto sem precisares de proferir uma única palavra, imagine-se. Entre os desculpe e obrigado, lá abanquei num lugar miraculosamente vago junto à janela. Expirei o mais fundo que consegui, coisa que não fiz de forma ciente, e pedi ao meu coração que me desse tréguas, cavalgando um pouco menos depressa, e à minha garganta que não fosse tão ríspida comigo, seria o mais célere possível em atribuir-lhe a água por que tanto, e justamente, reclamava.
Agora com o netbook colocado em cima do tampo da mesa recordei-me que na noite pretérita te havia trocado pelo computador. Tentei evitar entrar em conflito comigo mesmo por causa desse acontecimento e por isso girei a cabeça em direcção ao vidro da janela que me apresentava uma paisagem bem distinta daquela que eu percorrera até estar finalmente no interior do edifício. Ia começando a inquietar-me com o sucedido na noite que passara quando a tua voz interrompeu, decidida, o meu raciocínio. Agradeci-te por essa façanha mais tarde, se bem que na realidade nunca to tenha dito. Sobranceira e cândida eras a única pessoa erguida na sala. Todos te olhavam, todos te escutavam, todos bebiam a tua fonética e os teus gestos, delicados como se ensaiados ao pormenor. Estavas bela. És. Finalmente sossegado, com o ritmo cardíaco novamente a funcionar como a mais bem cadenciada das máquinas, a garganta afinada ao detalhe e desprovido de qualquer vestígio de suor que o esforço impusera à minha testa, ao meu pescoço, às minhas mãos e onde mais ele se tivesse instalado. Apurava a audição, já não comprometida pela respiração ofegante e assíncrona de minutos atrás, e ordenava aos miolos que se concentrassem no motivo que me havia trazido ali; obtive cem por cento de sucesso. Todavia, permanecia com o maior dos cuidados, continuava a temer-te. Se tinhas boas razões para não estares de bem comigo, hoje havia-te dado ainda mais, as suficientes para que estivesses honestamente zangada comigo. Cerrei os olhos por uns instantes. Firmei os maxilares um no outro, foquei-me: não havia mundo para além daquela sala.
Apresentaste os intervenientes de maneira tão sóbria e simultaneamente tão dócil que isso te valeu uma valente ovação no final. Confesso, inclusive, que fiquei com uma pitada de ciúme, já sabes como sou. De seguida sentavas-te e escutavas como se te tivessem transportado para um recital de piano e cordas, imperturbável, serena e sempre com o teu sorriso jovial desenhado na face. Quase me distraías, mas também eu nestas circunstâncias sou imperturbável, se bem que nada airoso como tu consegues ser, antes o inverso: nota-se a tensão nas minhas têmporas, os olhos tremendamente sérios coadjuvados por um arqueamento forçado das sobrancelhas, o semblante empedernido como o de uma estátua talhada mais de um milhar de anos antes do nosso tempo. Somos tão diferentes. E tu és sempre mais bela. E eu, eu sou o pragmático, implacável com os erros, próprios ou alheios, o tipo sisudo que serve para aquilo sem que no entanto cative quem quer que seja no que remete para fora desse cenário. Como te cativei? Essa pergunta já rodou o meu cérebro milhões de vezes e nunca encontrei qualquer tipo de resposta satisfatória, nenhuma hipótese inabalável, nenhuma síntese digna de verdadeiramente o ser. Como? Considerado ao contrário, a resposta é tão óbvia que quase roça a suspeita; mas não, é inapelavelmente verdadeira. Ganhaste a minha confiança em segundos, obtiveste a minha simpatia sem que eu me questionasse: bastou-te seres tu. Contudo… e eu? Como agradei o teu olhar, olhar esse que se ancora a uma aguda inteligência e astúcia? Quando to pergunto, enleando ou em proposição directa, sorris e piscas os olhos um pouco mais depressa durante uns escassos segundos. Alguma vez me irás permitir saber? Isto é, saber dizendo-mo tu frontalmente e em palavras que eu consiga interpretar.
O tempo correu depressa, ou pareceu-me que sim. O nível de argumentação era muito bom, superior à média do que já experenciei em vivências lá fora, nalgumas das capitais do conhecimento da Europa. Dignificava a nossa condição, a nossa arte. Tinha ficado, por força das circunstâncias que eu próprio construí através do meu atraso despropositado, com a última posição. Nem por isso verguei ao peso da responsabilidade. Ergui-me e sentei-me com convicção, não cedendo nem exagerando no meu acto encenado. Tracei o meu sorriso profissional – gosto de o chamar assim, pois deposito toda a fé no facto de que mais nenhum dos sorrisos no meu lote de sorrisos é tão sui generis como este – e encarei todos de frente, destemido como um soldado que oferece o peito ao chumbo pela sua pátria, pelos seus valores, pelos seus ideais; e não tombei. Entretanto a tua voz preenchia graciosa o ar daquele espaço. Escutava-te atentamente, falavas de mim, de quem eu era – e sou – numas míseras quatro ou cinco frases não muito alongadas. Estou a ser injusto, sei que procedeste de igual para com os que me antecederam. Estávamos todos condicionados pelo tempo e não eras, nem podias ser, excepção. Evitei ao máximo olhar-te, e fui bem sucedido, enquanto me enquadravas no seio daquele cenário, não fosse a minha máscara dissipar-se e trair sentimentos mútuos, esforcei-me portanto por transparecer uma concentração real e credível face a todos os que assistiam. Iniciei e terminei com total ausência de sobressaltos. Talvez até com uma certa ausência de mim. Talvez, não. Indubitavelmente. O comportamento na presença daquele público em particular obrigava a que eu, escondendo, renunciasse a uma parte de mim; fi-lo sem pejo nem pudor.
Seguiu-se uma discussão que guiaste e que pecou tão somente pela razão de ter sido excessivamente célere quando se pedia por mais. Contudo, tínhamos um horário a cumprir. Se não fosse cumprido, com o mínimo de rigor, seria o bastante para instalar a entropia na ordem de trabalhos. Zelaste imaculadamente por esse cumprimento. No final, quando proferiste o discurso conclusivo, ofereceste-me um mimo absolutamente inesperado: citaste um trecho do meu trabalho, preterindo assim das palavras de outros que pelo estatuto em que estão envoltos deveriam ter sido a tua escolha. O meu sorriso profissional manteve-se fiel e as restantes expressões possíveis do meu rosto ou do meu corpo alinharam, também elas, no mesmíssimo sentido. Só bem mais tarde te soprei ao ouvido a minha gratidão. No corredor, já fora da sala quadriculada, fui assomado por pessoas que queriam o meu e-mail, que não tinham conseguido apanhar na íntegra durante a exposição, algumas falando num português estrangeiro a Portugal. Não tive oportunidade para ficar surpreso, logo me vi enfiado em conversas que se desenrolavam em pequenos grupos, onde uns falavam e a maioria se limitava a escutar numa posição de espectador manifestamente assumida. Enquanto também eu dava ao verbo, passaste por mim de rasante e apertaste-me a mão esquerda que logo abandonaste com uma festa delicada dos teus dedos. Tão rápida e tu tão senhora de ti que ninguém reparou: só nós o sabíamos. Porém, e por mais que muita que fosse a vontade, não me podia permitir a abandonar o local. Sabia igualmente que tinha outro encontro marcado para logo, logo, cujo assunto era e é demasiado sério para se deixar ao incerto abraço do acaso. Deixei de pensar até em ti, aquela ambiência absorvia-me por completo e em absoluto. O cérebro trabalhava com um objectivo excluso, o meu pensamento era redutor, imerso naquela realidade.
Abandonei o edifício cerca de cinco horas mais tarde. Não te voltara a ver, o que até então não me perturbava. Estava embriagado na minha própria euforia. Creio mesmo que terás reparado e que se não nos encontrámos mais vezes durante essas cinco horas terá sido inclusivamente por obra tua, evitando-me propositadamente. Transpus o portão de saída saudando o segurança e só olhei, e de soslaio, uma única vez para trás. Alguém chegava de táxi, deixando-o vago. Logo desisti de ir até à rotunda da Boavista a pé como prometera fazer para compensar o meu desleixo com o exercício físico, o que ocorre demasiadas vezes mesmo que de tal esteja perfeitamente ciente. Fiz sinal ao condutor. Anuiu, podia entrar. Para o aeroporto, se faz favor. O acelerador foi pisado e o veículo depressa se pôs a galgar primeiro metros e depois quilómetros. Para o aeroporto, pensei para comigo. Carregava a sensação de um vazio, à qual decidi não atribuir importância. Desejava desesperadamente o avião do meu voo, regressar a Lisboa. Tudo o mais era mero ruído residual em torno de mim. No check in perguntaram-me se não viajava com bagagem que quisesse despachar para o porão do aparelho. Asseri que não, agradecendo. Caminhei, todavia, inseguro para as portas de embarque. Exactamente como aquando do percurso inverso, coisa extremamente rara, o aparelho de detecção de metais optou por me dar tréguas e não buzinou à minha passagem. Parei no número trinta e três e recostei-me nas desconfortáveis cadeiras de aeroporto. Qualquer coisa mexia comigo, mas o pensamento teimava em manter-se redutor, tal qual seis ou sete horas antes. A sensação de desconforto transmutou-se de assomo para presença inquestionável, era demasiado premente. Revi parte do trajecto. Detive-me nas memórias do check in. Qualquer coisa sobre bagagem. Porra! Nem me despedi dela! Enfiei a cara nas mãos formatadas em concha, esfreguei os cabelos com força e pertinácia. Merda, merda, merda. Miolos de merda. Provi, contudo, de me acalmar: nada podia fazer agora que alterasse o rumo dos acontecimentos. Mais uma vez, o que precisava era da cabeça fria. Ergui-me de imediato num impulso, estaquei e reli os painéis de embarque. O voo dela seria só no dia de amanhã e não estava ainda contemplado na listagem. Quanto ao meu pouco restava, deixando-me com uma escassíssima margem de manobra. Pela primeira vez desde que saíra daquela sala, não fazia a menor ideia do que fazer, de como agir. Então agi da maneira em que, literalmente, sou perito: não agindo.
Prestes a embarcar, sobravam três ou quatro pessoas na linha, decidi-me a enviar uma sms. Três letras, um hífen, mais duas letras, um ponto final. Mal o relatório de mensagem entregue surgiu no visor, desliguei o telemóvel. Entrei no aparelho, dirigi-me ao meu assento, confirmei se o i-pod estava desligado, coloquei o cinto de segurança, tudo com um automatismo que noutras circunstâncias certamente despoletaria em mim sentimentos de náusea e de horror. Meia-hora de viagem, após a qual um inferno até ao dia seguinte ou, quiçá, até ao outro e ao outro e ao outro. Enterrei a cabeça no encosto. Fechei os olhos e implorei ao meu cérebro que se desligasse por uns minutos. Nem tinha dado conta do quanto estava exausto, intelectual e fisicamente. Voltei a olhar o Porto, agora pela janela e noutra perspectiva. Estava escuro, noite feita, e as luzes da metrópole da Invicta pouco mais permitiam do que alguns vislumbres do seu tecido. Volvidos vinte minutos e estaria a aterrar na Portela. Sem ti. Sem um beijo teu. No Porto ficara o que mais importa, a bagagem que verdadeiramente merece consideração. Até amanhã, sussurro bem baixinho e, desta feita, com o mais honesto e doce dos meus sorrisos. Até amanhã…


©

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Foi você que pediu...?

O Porto vai correndo de vento em popa, por ora. Falta o mais difícil, claro está. Esse está sempre, lá se ajeita paulatinamente, presente. Difícil. Ora, não é necessário recrutar uma centena de milhar de neurónios para o discernir do impossível. Se é difícil, faz-se. Pena que tanto chova neste fim de tarde. Contudo, o cinza até acaba por cair bem numa cidade de paleta de inapeláveis cinzentos, como me acostumei a observá-la com os meus olhos. É que há coisas que não são fáceis de entender. Nada fáceis. Ainda assim, concedo uma ternurinha à Invicta. Nada mesmo. Fáceis.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Despertar-se-á? Sim.

Nada é fácil. Temos que lutar pelo que temos e pelo que não temos e que queremos. O que acontece quando se perde a vontade de lutar é o absurdo e o inominável. Quando se perde essa vontade de luta desistimos não só das externalidades mas principalmente de nós próprios. Não se trata de nenhuma pérola de sabedoria, antes do manual básico da vivência humana.
Amanhã é, só!,  dia  de  mais um(!) pequeno-almoço.
Até sempre. Salvé, Caesar. ;)
Ter-lhe-ei dito o quanto ficou mal e mais aquilo que por fazer restou? De certo. Até já.




"Take a look at my girlfriend
She's the only one I got
Not much of a girlfriend
Never seem to get a lot
Take a jumbo cross the water
Like to see America
See the girls in California
I´m hoping it´s going to come true
But there´s not a lot I can do
Could we have kippers for breakfast
Mummy dear, Mummy dear
They got to have ´em in Texas
Cos everyone's a millionaire
I´m a winner, I´m a sinner
Do you want my autograph
I´m a loser what a joker
I´m playing my jokes upon you
While there´s nothing better to do
Don´t you look at my girlfriend
She´s the only one I got
Not much of a girlfriend
Never seem to get a lot
Take a jumbo cross the water
Like to see America
See the girls in California
I´m hoping it´s going to come true
But there´s not a lot I can do.
"

domingo, 26 de junho de 2011

Ser-se empedernido

Perdoa-me nem um abraço te ter conseguido oferecer.
O mundo não é perfeito, todos o sabemos.

domingo, 23 de maio de 2010

Sms 2

Shhh!, não acordes. Sabes que... Pois sabes.


"Little sister don't you worry about a thing today
Take the heat from the sun
Little sister
I know that everything is not ok
But you're like honey on my tongue

True love never can be rent
But only true love can keep beauty innocent"

'A Man and a Woman', U2

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Cada um é como é. Somos diferentes. Porém, com tanto em comum.


"You have a winning way, so keep it
Your future, your future, your future...

You are an angel heading for a land of sunshine
And fortune is smiling upon you

Prepare for a series of a comfortable miracles
From fasting to feasting
And life to you is a dashing, bold adventure
So sing, and rejoice, sing, and rejoice

And look for the dream that keeps coming back
Your future, your future, your future...
Pat yourself on the back and give yourself a handshake
'cause everything is not yet lost...

Does life seem worthwhile to you?

Does life seem worthwhile to you?

Here's how to order!

Yes, hmm hmm, now for the next question
Does emotional music have quite an effect on you?

Do you feel like sometimes age is against you?
Sing and rejoice and sing and rejoice

Yes, hmm hmm, that's interesting
But tell me, do you often sing or whistle just for fun?

Do you feel like sometimes age is against you?
I, I can help - I can help you - I can help you help yourself!

Does life seem worthwhile to you?

Does life seem worthwhile to you?

Here's how to order!

Varicose
Comatose
Senile"

'Land of Sunshine', Faith no More

sábado, 22 de agosto de 2009

Rendez-Vous avec Lisbonne

Cheguei ontem. Hoje já estive num aniversário. As férias terminaram num ápice. De volta ao espaço urbano e ao seu estudo; não só, obviamente. Agora, antes de mais, há algumas burocracias que carecem de conclusão célere. Depois o trabalho, em duas frentes distintas mas sem perder de vista o objectivo principal, virá reclamar mais do meu tempo. Muito mais. Espero conseguir conciliá-las sem demasiada fricção, a essas duas frentes. O cronómetro foi (re)accionado e o tempo não espera, nem por mim nem por ninguém; provavelmente, nem por ele próprio.
Abracei Lisboa, ou ela a mim, confiando-lhe que por si me iria mantendo, andando a viver o meu quotidiano; e o de outros. É sempre bom rever esta cidade simultaneamente serena e caótica; entrópica, diria. Está em paz comigo; ou eu com ela.




"Mas é precisamente disso que eu preciso, doutor. Pressão. Se relaxasse agora, acabaria desfeito em cacos. Voaria numa centena de direcções difrerentes, e nunca mais seria capaz de me recompor."

'O Livro das Ilusões', Paul Auster

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Vacances, enfin

É hora de deixar a vida urbana em paz, ou pelo menos o estudo da mesma. Sem ralações, sem preocupações pendentes ou de última hora. O cansaço assomou há muito. Também ele, como eu, carece de digno descanso das fadigas quotidianas. É precisamente essa a intenção, romper com os passos mais ou menos previsíveis de uma rotina encafuada no quotidiano do costume. Mais tarde será, sem dúvida, retomado esse viver do dia-a-dia do qual, por inverso que pareça, não desdenho com rancor selvagem.
Assim ainda hoje abalarei para outras terras, rumo a paragens mais distantes. Levo pasta dos dentes e calções de banho. Não levo um terror exacerbado à gripe A ou H1N1, como preferirem chamar ao bicho-vírus que alarma mundo e meio. Levo de igual maneira o que mais gosto, ou o contrário, irrelevante saber por que ordem: se é que a há. Os afectos na algibeira do coração nunca são esquecidos, sendo que só uma parte deles ficará em standby nas lusas terras; ainda assim, vão no pensamento. Mais sorte têm os restantes que cumulam pensar e estar, numa comunhão baptizada por estrelinhas, pozinhos cósmicos mágicos e lua com todas as suas fases.
Escreveria até já, porém ficar-me-ia a soar a publicidade gratuita a uma operadora telefónica; até as coisas mais simples são mercantilizáveis, pelo que todo o tento na língua, neste caso na ponta dos dedos, é pouco. Porém, vou feliz e mais feliz espero retornar. Então, até ao meu regresso. Divirtam-se.



"Giant steps are what you take
walking on the moon
I hope my legs don't break
walking on the moon

we could walk forever
walking on the moon
we could live together
walking on, walking on the moon

Walking back from you house
walking on the moon
walking back from you house
walking on the moon

feet they hardly touch the ground
walking on the moon
my feet don't hardly make no sound
walking on, walking on the moon

Some may say
I'm wishing my days away
no way
and if it's the price I pay
some say
tomorrow's another day
you stay
I may as well pay

Giant steps are what you take
walking on the moon
I hope my legs don't break
walking on the moon
we could walk forever
walking on the moon

we could live together
walking on, walking on the moon
Some may say
I'm wishing my days away
no way
and if it's the price I pay
some say
tomorrow's another day
you stay
I may as well pay
Keep it up, keep it up
"

'Walking on the Moon', Police

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Cohen

Já quase deixava passar em branco este espectáculo. Mais de duas horas a ouvir a voz de um artista que é um senhor. Fantástico pelas músicas oferecidas, fantástico pelas mensagens que nas pausas endossava ao público. Um senhor.



Começou assim:

"Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
"

'Dance Me To The End Of Love', Leonard Cohen

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Hello, hello

Já é noite, há muito caída. Mas eu cá te espero. De olho arregalado.

©


Até já!...

domingo, 19 de outubro de 2008

«My Man...» II

- G-21.
- G-23.

O Tiago ex-Toranja esteve muito bem, propiciando uma agradável e simpática primeira parte.
A Aimee esteve ainda melhor, superando-se na entrega ao público quando em comparação com a vinda pretérita. Um serão bastante bem concicionado, em súmula.



"Thirty-one today
What a thing to say
Drinking Guinness in the afternoon
Taking shelter in the black cocoon

I thought my life would be different somehow
I thought my life would be better by now
I thought my life would be different somehow
I thought my life would be better by now
But it's not, and I don't know where to turn

Called some guy I knew
Had a drink or two
And we fumbled as the day grew dark
I pretended that I felt a spark

I thought my life would be different somehow
I thought my life would be better by now
I thought my life would be different somehow
I thought my life would be better by now
But it's not, and I don't know where to turn
No, it's not, and I don't know where to turn
No, it's not, and I don't know where to turn

Easter comes and goes
Maybe Jesus knows
So you roll on with the best you can
Getting loaded, watching CNN

I thought my life would be different somehow
I thought my life would be better by now
I thought my life would be different somehow
I thought my life would be better by now
But it's not, and I don't know where to turn
No, it's not, and I don't know where to turn
No, it's not, and I don't know where to turn
No, it's not, and I don't know
"

'Thirty One Today', Aimee Mann