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sábado, 25 de julho de 2015

ausências evidentes, take vii


Corri os dedos pelo ecrã do tablet, desligando-o. Coloquei-o, com algum desdém, em cima da mesa de cabeceira. Duas e trinta da manhã, passavam uns minutos. Permanecia sozinho naquela cama que, sem ti, é uma enormidade. Aguardava-te, aguardava pela presença do teu corpo singular junto ao meu. Sentia-me estoirado, a bodega da viagem no dia anterior havia-me deixado inapelavelmente exaurido. Não que tivesse sido muito longa: uma hora e pouco de Florença a Munique, duas horas e quarenta, por aí, de Munique a Lisboa; a culpa é dos assentos, e talvez da pressurização do avião, os assentos em turística matam-me, fornicam-me as costas sem perdão nem apelo, contudo não sou rico para andar de conferência em conferência em classe executiva. Cobrira o rosto com as mãos em concha. A comunicação não tinha corrido de forma excepcional, porém também não me havia comprometido. No tablet confirmara não haver e-mails cuja urgência cativasse a minha atenção. Só o raio do artigo, ainda tão em atraso e tão espartanamente esquissado, perturbava o sono que entretanto assomara – isso e a ausência do teu corpo naquela cama infernalmente hiperbólica aquando sem ti. Inspirei profundamente duas vezes. Dois suspiros profundos que, sem dúvida, escaparam à tua audição. Olhei o maço de cigarros, porém depressa se esvaiu a ideia de ir até à janela da cozinha acender um prego. Mera preguiça, nada que concernisse com a consciência de um cuidado de mim, do zelo pela minha saúde. Pus a língua de fora, num sentimento de pseudo-desprezo para com o tabaco, e recoloquei as mãos em concha sobre o rosto, com os olhos vincadamente cerrados.

Que farias tu ainda na sala? Escutava os teus passos e alguns ruídos que, certamente, só tu poderias provocar. Mexericavas por entre algumas coisas, sem dúvida. O que farias? Que tamanha necessidade te movia para te impedir a que te juntasses a mim? Não fazia a menor ideia e os poucos neurónios que, no meu cérebro, teimavam em continuar despertos escusavam-se a esforços do pensamento. Parecias fazer de propósito, aguardando que eu adormecesse para também tu, enfim, viesses esgueirar-te sorrateira para o nosso leito. Estarias ainda de beicinho por eu me ter escapulido para terras da Toscânia durante uma semana completa quando três noites teriam bastado? Sabia quando marquei a viagem, e de antemão, que estarias impossibilitada de me acompanhar devido às obrigações que acompanhavam os teus afazeres profissionais. Sim, pernoitei sete vezes naquela cidade museu. Terei, por isso, acirrado a tua fúria? Uma vez mais os neurónios escusavam-se ao labor, pelo que me deixei desprovido de qualquer resposta. Estiquei-me na cama sem apagar a luz pardacenta do candeeiro da mesa de cabeceira; aquele do meu lado, no teu reinava profusamente a escuridão. Abri os braços em cruz e pus-me a contemplar inconscientemente o tecto, cabeça firme directamente no colchão – bem sabes o quanto odeio travesseiros; desde puto que assim sou, catraia; desde puto – desde um universo em que ainda nem sequer sonhávamos com a existência um do outro, tempos em que ainda não valorizávamos esta coisa tão divinal de se partilhar a vida com um companheiro que se ama e cuja vida se preza, inclusive, mais do que a nossa própria. Vem, minha menina. Vem. Implorava-te eu sem que tu disso soubesses ou sequer desconfiasses. Minha… És minha, sim. Porém, só és minha no mesmo sentido do tanto, e igual, que eu sou teu, pertença da mulher menina que tanto amo; e a ti me ofereço sem hesitação, não cogitando mas fazendo-o por instinto, aquele instinto que me dita poder colocar nas tuas mãos a minha vida – a confiança que em ti deposito é algo de quase infinito e de inquestionável. Por favor… Vem.

Mantinha-se o burburinho provindo da sala, o abafado ruído dos teus passos a acrescentar-se-lhe de quando em quando. Acreditava que nada terias de facto para fazer, todavia que inventavas fosse o que fosse tão-somente com o intuito de não te juntares a mim enquanto perdurasse em vigília. Recordei que poucas palavras trocáramos desde que regressara daquela cidade que quase nos remete para o quotidiano do Renascimento italiano, não fossem todos os atributos modernos e pós-modernos que a equipam – a luz eléctrica, os automóveis que circulavam nas estradas esguias, os smartphones de última geração que os turistas, cuja pressão na cidade é tremenda e até algo horrível, transportavam consigo, os neons, o eu sei lá que mais; estava exausto, já o mencionei. Poucas palavras. E beijos? E ternuras? E meiguices? Tudo isso tão parco. Que se passa connosco, miúda? Não, não é só o facto de poderes estar a embirrar com a minha ida, aos teus olhos, excessivamente prolongada. Algo não está bem entre nós, intuo-o com amargura ainda que igualmente com irrefutabilidade. Moça, já fomos melhores. Já fizemos mais para nos merecermos do que no presente agora vivido, tenho perfeita noção disso. Coisa que dói, magoa no âmago do meu ser. Estaremos… Suspiro, estaremos condenados a fracassar, periga o nosso dia-a-dia em comunhão? Merda de burburinho na sala que não se silencia.

Dei um pulo da cama. Dei um golo na água que uma garrafa de litro e meio, mesmo ao lado da minha cabeceira, permanecia erecta todos os dias sem excepção. Peguei o maço de cigarros, esfreguei os olhos e proferi em pensamento um milhão de asneiras. Percorri, célere, o caminho conducente à porta da sala. Eventualmente escutaste os meus passos e dirigiste o teu olhar para mim, que me apoiava na ombreira da porta, sem todavia entrar na divisão, e sorriste-me breve voltando logo a recolocar a tua atenção em papelada e livros que se amontoavam no chão. Vou dormir, estou um bocado de gatas ainda. Vai, julgava que já dormias, vai, descansa, dorme bem, descansa, olha, o meu beijo primeiro. Transpus a fronteira e fui ter contigo. Puxei-te e envolvi-te com os meus braços. Desenhei o melhor sorriso que consegui e juntei, delico-doce, os meus lábios aos teus. Contudo, não estavas presente, não estavas ali. Durante o nosso tímido beijo insististe em olhar para a confusão no chão como se não quisesses saber de mim. Vou à cozinha, fumar um cigarro, logo volto para a cama, já não me aguento. Vai, doce, e descansa, procuro umas coisas, preciso mesmo, já vou também para a cama, não tardo, sim? Sim, ternura, até já, e boa sorte com isso. Afaguei-te o cabelo num gesto nem rápido nem lento e dirigi-me para a cozinha e para a minha janela de fumo.

Deslizei a janela para a esquerda, abrindo um conexão para o mundo exterior, para aquele lá de fora. Isso após ter encerrado com a devida precisão a porta da cozinha. Um fumador que detesta o cheiro a fumo. De facto, às vezes não sei se não serei uma besta; atípica, mas ainda assim um anormal. O cigarro pendia da boca. Desta feita era eu que obrigava o cérebro a não pensar e não qualquer preguiça que se pudesse imputar ao desgaste físico dos neurónios. Não me apetecia pensar: estava, como se diz na gíria, fodido da vida. A tua displicência para com o nosso beijo parecia confirmar a minha profecia, de que não estávamos bem e de que parecíamos condenados, num futuro mais distante ou mais próximo, a um fim, a uma cisão irrevogável. Estava fodido. Isso ainda é dizer pouco, estaria a ser simpático na consideração. Isqueiro? Merda, nas calças. E calças, ora bem, no quarto. Abri, ainda mais danado, uma das gavetas de onde saquei uma caixa de fósforos com um aspecto duvidoso e até miserável. Que se lixasse, desde que cumprissem a sua função o resto não importaria. O primeiro alaranjou-se mal lhe raspei a cabeça na lateral da caixa e logo o encostei ao cigarro pendente dos meus lábios, aspirando mais porcaria do que alguma vez possa vir a imaginar. Contemplei as estrelas, soltando a primeira baforada do vil fumo que, por opção própria, enfio nos meus pulmões, infligindo ao meu ser maus-tratos pela minha mão. Poucas estrelas. Em Florença pareciam-me mais. É provável que aqui a iluminação artificial, ou a poluição ou o que diabo for, seja aqui mais forte e que assim vele mais os pontos luminosos do manto celeste. Tudo tem um fim. Desde que me lembro de ser gente que esta frase me acompanha. Tudo. Isso implica que nós também. Já? Somos ainda tão novos na nossa relação comungada… Tudo. Tilintava sem perdão essa única palavra: tudo. Mais fumo para os pulmões, mais fumo para o mundo lá fora. Fumava com tal pressa que até a máquina, o meu querido coração, se acelerava desmedidamente. Ou acelerar-se-ia principalmente por nos ver emocionalmente, afectivamente tão distantes apesar de nenhum de nós comprovar tal facto por palavras? Não tenho a certeza. Continuei a insistir com o cigarro. Porquê nós? E, mais ainda, porquê já? Amava-te? Bolas, sem dúvida, nem carecia de me questionar. Então porquê? Insistia com o cigarro. Mais que tudo, miúda. Amo-te mais que tudo. No manto celeste as estrelas cintilavam, incólumes à minha inquietação. Haja alguém, ou algo, tão sereno. Suspirei. Confesso que as lágrimas quase me vinham aos olhos, felizmente a minha cornadura encontrava-se a funcionar quase apenas à força de serviços mínimos, o que eventualmente colheu as minhas emoções evitando assim que me desfizesse logo ali. Mantive-me mais uns minutos prostrado à janela a observar o cintilar das estrelas. Como é sereno… Pouco depois acendia o segundo cigarro. Tossi, garganta irritada – da emoção ou do tabaco? Engolia a seco, a saliva escapara-se-me desde que fora à gaveta retirar os fósforos. E tu? Sim, tu. Amar-me-ás? Não ouso sequer pensar na negativa, seria injusto e perverso para contigo, é claro que sim. Enfim, nem sempre o amor é tudo. Devia ser. Mas não aguenta tudo, é o alicerce mais forte do mundo, mas o mundo, esse, é também todo ele imperfeito. Devia ser, devia bastar. Escutei as badaladas provenientes do sino da igreja próxima, três da manhã. Atirei o cigarro pela janela sem pensar sequer no que fazia. Abri a porta de um armário, segurei trémulo uma caixa de um medicamento sujeito a prescrição médica e subtraí a uma lamela uma cápsula. Cerrei a janela da cozinha, abri a porta e, encolhido, dirigi-me para o quarto. Com o auxílio de um pouco de água engoli o hipnótico. Em menos de meia-hora, bem me conheço, estaria na terra dos sonhos. Deitei-me e apaguei a luz do meu candeeiro de cabeceira. O burburinho na sala não condescendera e era para mim um inferno. Dorme bem, miúda, pensei. Depois, depois logo se vê.

Devia ser…

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

redutos

às vezes tomamos decisões erradas e escolhemos fazer o que é mais difícil; exactamente porque queremos ser ou parecer fortes.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

se sei o que é ironia?

Não interessa o que fazemos bem. Curioso que quando fazemos mal todos e mais alguns nos caem em cima. Infalível. Que raça de raça.

quinta-feira, 6 de março de 2014

void

Primeiras palavras só em Março. Isto está bonito. Pode ser que entretanto mude. Pode ser...
E assim, já cansado, se vai à labuta. Dizem que é preciso. Igualmente precisa, e muita, é a vontade. Amanheceres com nevoeiro...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

espiral

Percorro a casa a fazer mil coisas sem nada realmente fazer. Não, não sei o que faço. Nem o que digo. O que penso. Estou só certo do que procuro e não encontro porque não está. Perdido. Não é a primeira vez. É normal. Já passa. Encontra-me.
 
"i've been under the gun
i've lost and i've won"
 
'under the gun', sisters of mercy
 
 

terça-feira, 24 de julho de 2012

o espelho não mente (?)

"Take a look at my girlfriend
She's the only one I got
Not much of a girlfriend
We never seem to get a lot"
('Breakfast in America', Supertramp)

Não se encontram propriamente na minha lista de musts. Todavia, sempre apreciei a entrada da letra desta música em particular. Por curiosidade, fui repetindo e reproduzindo essas mesmas palavras, ou outras que similares, com uma irritante e constante cadência a todas as minhas (ex-)namoradas, ou pelo menos àquelas que de facto são dignas de ainda permanecerem na minha memória - daí se infere a sua incontestável prestação em distintas representações no decurso da minha vida; outras, poucas e votadas a um esquecimento perene, provavelmente nunca usufruiram de estatuto nem de solenidade merecedoras do elogio. Para meu desagrado, e porque não desilusão?, as realidades com que me confrontei acabaram inevitavelmente como corolário do sustentado, realizando-se, em certa medida, a profecia.

Ao leitor mais incauto, já prestes a arremessar a primeira pedra por indignação ou devido a eventual leitura de um chauvinismo inerente à minha pessoa, sugiro que tenha um pouco mais de paciência e compreensão, já que nada é tão simples ou superficial como indicia a mera aparência: é que a isto, a funcionar, aplica-se-lhe o denominado efeito de espelho. Quer isto dizer, exactamente o princípio da reflexividade. De outro modo, recorrendo a uma construção frásica alternativa, quando sugiro a aplicabilidade desta qualificação tipológica e adjectiva implico-me reciprocamente na mesma. Em súmula, o que afirmo, por vezes a título de gracejo e outras numa tonalidade literal, ou mesclando ambas, remete igualmente para a consciência, diga-se em abono da verdade que bem manifesta, de que eu próprio o sou, com o verbo no masculino. Retomemos o espelho. Quando lhe imputo uma determinada categorização, e.g., not much of a girlfriend, obtenho de imediato o feedback que aponta, me aponta, exactamente igual, invertido, neste caso, somente o que remete para o género; de longe não o melhor dos namorados, também eu omisso no que respeita aos atributos e qualidades mormente buscadas pela percepção ideal-típica do papel de valentino.

Muito apreciaria não mais (ter de) fazer uso dessas palavras. Talvez. Porém, desta, o cepticismo leva-me de vencido. Mas não inevitável ou fatalmente derrotado.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Crescer dói (?)

Odeio a sensação imbecil de quando, em síntese, chegamos à conclusão de que aquilo que perseguíamos não é em nada de facto aquilo que realmente pretendíamos (e pretendemos, bem entendido). Este é indubitavelmente um dos sentimentos mais frustrantes, e até acrescentaria incapacitantes, face aos quais, aqui e ali, nos deparamos. Todavia, há que vivê-los e experenciá-los, a esses sentimentos frustrantes, fazendo fé de que se trata de apenas mais um passo inerente ao inevitável e muito apreciado crescimento pessoal.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Enfático

Como é bela, a Airosa Academia. Música da minha vida...

"Aquela era uma experiência há muito esquecida, do seu tempo de estudante: não só estar atrasado, mas sentir-se ignorante, incompetente e infeliz, com todas as outras pessoas misteriosamente sabedoras, como que coligadas contra ele." 

'Solar', Ian McEwan

domingo, 22 de abril de 2012

Come again?!

"Sei que há pessoas interessadas de forma desinteressada".
Até posso - e sei - perceber o que pretendes informar. Mas deixa-me complicar um bocadinho, sff.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Despertar-se-á? Sim.

Nada é fácil. Temos que lutar pelo que temos e pelo que não temos e que queremos. O que acontece quando se perde a vontade de lutar é o absurdo e o inominável. Quando se perde essa vontade de luta desistimos não só das externalidades mas principalmente de nós próprios. Não se trata de nenhuma pérola de sabedoria, antes do manual básico da vivência humana.
Amanhã é, só!,  dia  de  mais um(!) pequeno-almoço.
Até sempre. Salvé, Caesar. ;)
Ter-lhe-ei dito o quanto ficou mal e mais aquilo que por fazer restou? De certo. Até já.




"Take a look at my girlfriend
She's the only one I got
Not much of a girlfriend
Never seem to get a lot
Take a jumbo cross the water
Like to see America
See the girls in California
I´m hoping it´s going to come true
But there´s not a lot I can do
Could we have kippers for breakfast
Mummy dear, Mummy dear
They got to have ´em in Texas
Cos everyone's a millionaire
I´m a winner, I´m a sinner
Do you want my autograph
I´m a loser what a joker
I´m playing my jokes upon you
While there´s nothing better to do
Don´t you look at my girlfriend
She´s the only one I got
Not much of a girlfriend
Never seem to get a lot
Take a jumbo cross the water
Like to see America
See the girls in California
I´m hoping it´s going to come true
But there´s not a lot I can do.
"

terça-feira, 31 de maio de 2011

Proto-Percursos

Um(a) gajo(a) às vezes não sabe o que anda cá a fazer. Há que descobrir. O sentido pode estar velado, mas não implica que seja absolutamente impossível descortiná-lo.


"Ainda lembro o que passou
Eu, você, em qualquer lugar
Dizendo:
«Aonde você for eu vou»
Oh! Oh!...
E quando eu perguntei
Ouvi você dizer
Que eu era tudo
O que você sempre quis
Mesmo triste eu tava feliz
E acabei acreditando
Em ilusões...
Eu nem pensava em ter
Que esquecer você
Agora vem você dizer:
«Amor, eu errei com você
E só assim pude entender
Que o grande mal que eu fiz
Foi a mim mesmo»...
Uh! Uh! Uh!...
Vem você dizer:
«Amor, eu não pude evitar»
E eu te dizendo:
«Liga o som, uh! uh! uh!
E apaga a luz»
Uh! Uh! Uh! Uh!...
Ainda lembro o que passou
Eu, você, em qualquer lugar
Dizendo:
«Aonde você for eu vou»
Oh! Oh!...
E quando eu perguntei
Ouvi você dizer
Que eu era tudo
O que você sempre quis
Mesmo triste eu tava feliz
E acabei acreditando
Em ilusões...
Eu nem pensava em ter
Que esquecer você
Agora vem você dizer:
«Amor, eu errei com você
E só assim pude entender
Que o grande mal que eu fiz
Foi a mim mesmo»
Uh! Uh! Uh! Uh!...
Vem você dizer:
«Amor, eu não pude evitar»
E eu te dizendo:
«Liga o som, uh! uh! uh!
E apaga a luz»
Uh! Uh! Uh!...
Ainda lembro o que passou
Ainda lembro como era bom
Ainda lembro inda lembro
Ainda lembro, inda lembro
Oh! Oh! Oh! Oh!
Ainda lembro..."
'Ainda Lembro', Marisa Monte

sábado, 21 de maio de 2011

Os filhos da cidade

Onde ando eu, que não me consigo encontrar? Perdido algures na pele de alcatrão e cimento desta cidade que tanto amo, Lisboa. Talvez ande às voltas, desenhando círculos e regressando sempre com a mesma inevitabilidade ao lugar donde partira. Que faço? Nas entranhas do meu carro vejo outros tantos semelhantes; vejo gentes com olhos vítreos a arrastarem-se pelos passeios que marginam as estradas e, pontualmente aqui e ali, observo nos olhos de um estranho o emanar da felicidade – são os únicos que se distinguem verdadeiramente do resto da manada e que têm uma aparência humana completa e que vivem ao invés de se limitarem a existir. Ainda no carro, com a testa a querer suar pela temperatura quente que se faz sentir, reviro-o com os olhos: o volante já gasto, estofos queimados por beatas que não atirei pela janela com sucesso, três ou quatro garrafas de plástico ainda com alguma água na barriga, uma radiografia tirada faz muito atirada para os bancos de trás e papéis, vários papéis imprestáveis, fazem de tapete a pés que ali queiram assentar; o banco do lado, o banco ao meu lado, vazio. Nem os fantasmas lá vivem, partiram e deixaram-me só. Nem suspiro, volto a colocar os olhos na estrada, olhos cujos únicos estímulos são o negro do tapete da estrada, o plástico do pára-choques dos outros, luzes que piscam e luzes que se mantêm firme e teimosamente acesas; os meus olhos estão perdidos, notam todos estes estímulos mas a verdade é que não estão lá, como também não estão em sítio algum: estão como eu. 

Outros estímulos que arrepiam o meu corpo são os sonoros. Do interior do automóvel é o auto-rádio que fala e canta, só não dança, desde que dou à ignição até rodar a chave em sentido inverso. Poucas vezes me dou ao trabalho de colocar um cd, pelo que deixo às estações da rádio o ditar daquilo que me irá penetrar pelos ouvidos. Uma vez por outra há uma melodia que me eriça os pêlos e, por breves instantes, volto a estar onde todos estamos. Já sou quase que inteiramente indiferente aos ruídos dos tipos que adoram ter a mão na buzina, entra por um lado e sai ainda mais depressa pelo outro; por vezes dou por mim a encolher os ombros, mais raramente com vontade de explicar a um ou uma condutora que o meu carro não é primo do Pégasus e que por isso não tenho asas que me façam voar – mas quase sempre permanece o silêncio, cansa-me o simples facto de ter de comunicar com alguém principalmente quando esse alguém, autista, não está disposto a escutar. Então, volto a fechar-me em mim mesmo, na minha redoma em moldes de cidadela, e volto a fugir da realidade. Posso nada fazer em relação ao meu corpo, todavia a minha mente transporta-se para outros lugares que até de mim são desconhecidos – voa para longe, para outros tempos talvez… 
Dou comigo sentado numa esplanada de praia. Afinal era mesmo para aqui que eu queria vir; ou que me constranjo a vir no cumprimento de obrigações estabelecidas. Há qualquer coisa no mar que me sossega, apazigua-me o ser, embala-me como se eu fosse pequenino. Olho-o sem que me canse. Se a indumentária que cobre o corpo fosse outra sem dúvida que iria sem parar um instante para pensar até junto dele, caminhando por onde a areia está molhada do salivar oceânico. Por vezes tenho que me conter para não arregaçar as calças, quase sempre de ganga, para não desabotoar a camisa até ao seu derradeiro botão, para não tirar os ténis ou uns sapatos de vela, para não ir sentir o mar acariciar-me as ferraduras também sem meias, desnudadas e ávidas por serem tocadas; até aos tornozelos, porque não, deixaria que o sal arrepanhasse os meus pêlos até à vinda de nova vaga de água fria – e repeti-lo-ia mil vezes ou mais. Contemplaria, então, com o sol a coser-me a pele desnudada, a linha do horizonte onde o mar parece querer beijar o céu antes de com ele se enrolar na maior das volúpias, deixando-me confuso por não mais conseguir distinguir qual é qual – confuso, sim; todavia, profundamente sereno; e sentir que, afinal, a vida é boa de se viver.


"Well... you didn't wake up this morning
Because you didn't go to bed
You were watching the whites of your eyes
Turn red
The calendar, on your wall, is ticking the days off
The calendar on your wall is ticking
the days off
You've been reading some old letters
You smile and think how much you've changed
All the money in the world
Couldn't bring back those days.
You pull back the curtains, and the sun burns into your eyes,
You watch a plane flying across a clear blue sky.
This is the day - Your life will surely change.
This is the day - Your life will surely change.
You could've done anything - if you'd wanted
And all your friends and family think that you're lucky.
But the side of you they'll never see
Is when you're left alone with the memories
That hold your life together like
Glue
"

'This Is The Day', The The

sábado, 23 de abril de 2011

Lentes desfocadas

Foi assim. Um tornou à esquerda. O outro à direita. Os demais somaram em frente.




"Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime
Moi non plus
Oh mon amour
Comme la vague irrésolue
Je vais, je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Entre tes reins
Et je me retiens

Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime
Moi non plus
Oh mon amour
Tu es la vague, moi l'île nue
Tu vas, tu vas et tu viens
Entre mes reins
Tu vas et tu viens
Entre mes reins
Et je te rejoins

Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime
Moi non plus
Oh mon amour
Comme la vague irrésolue
Je vais, je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Entre tes reins
Et je me retiens

Tu vas, tu vas et tu viens
Entre mes reins
Tu vas et tu viens
Entre mes reins
Et je te rejoins

Je t'aime je t'aime
Oh oui je t'aime
Moi non plus
Oh mon amour
L'amour physique est sans issue
Je vais je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Je me retiens
Non! maintenant viens..."

'Je t'aime... Moi non plus', Jane Birkin & Serge Gainsbourg

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Altercações de ar

Amanhã sigo para o Porto. Dois dias, apenas. Não levo saudades de Lisboa.


"If hospital cure
Then prisons must bring their pain
Do not be ashamed to slaughter
The centre of humanity is cruelty
There is never redemption
Any fool can regret yesterday"

'Archives of Pain', Manic Street Preachers

terça-feira, 27 de abril de 2010

Descarrilhado

Amargura sabe mal na boca porque primeiro reprovada no cérebro.


"-Há cerca de dois anos conheci uma rapariga e fiz asneira da grossa, gostei mesmo dela."

'Olhos nos Olhos', Júlio Machado Vaz

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Patetices...

A loucura é uma prostituta de rua. Uma rameira barata, que se vende por escassos tostões. Informei-a de que tinha um papel do médico. Uma prescrição de poções mágicas à prova dela, da loucura. Todavia, derrotou-me. Ainda bem.


"This bed is on fire
With passionate love
The neighbors complain about the noises above
But she only comes when she's on top

My therapist said not to see you no more
She said you're like a disease without any cure
She said I'm so obsessed that I'm becoming a bore, oh no
Ah, you think you're so pretty

Caught your hand inside a till
Slammed your fingers against the door
Fought with kitchen knives and skewers
Dressed me up in women's clothes
Messed around with gender roles
Dye my eyes and call me pretty

Moved out of the house, so you moved next door
I locked you out, you cut a hole in the wall
I found you're sleeping next to me, I thought I was alone
You're driving me crazy, when you're coming home
Pretty"

'Laid', James