sábado, 22 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

pé ante pé... att: frágil

Numa correria. Não sei viver de outra forma.

shuffle mode

Lavar os dentes às sete da manhã com os headphones do i-pod ainda no ouvido por noite não dormida e prestes a ir para o labor é demasiado metrossexual para mim.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

do diagnóstico, dos distúrbios e aos societais rótulos estigmatizantes

Com a neura (há que fazer jus à nomenclatura aqui do cantinho)  toda para pôr as mãos em cima desta preciosidade que o é a nova edição do manual:





ps: há gente que não tem vida, já sei. (pré-ordem para a Europa: 130,00€, no sítio oficial)

terça-feira, 28 de maio de 2013

breve (des)encanto da idade

Já soube escrever. Agora, nos dias do presente, limito-me a arrastar dedos por teclas. 

sábado, 27 de abril de 2013

perché sì

Final de Agosto em Turim. Lazer e trabalho. Nos tempos que correm é amiúde mais ajuizado juntar ambos. Ainda falta, demora; até lá.
Escuso-me a questionar-te se vais. Era bom, era mau. Há quanto ando a evitar um clash profissional? Receio-o por mim, por ti, por nós? Por tudo isso. Porque somos implacáveis, ambos, quando imersos na nossa subcultura do métier. Coadunaríamos as distintas esferas, a pública e a privada, com a devida eloquência? Creio que só o fizemos uma vez; não ficou qualquer vontade para um remake. Se fores... se fores, é bem ignaro sustentá-lo mas enfim, talvez por esta vez fosse mais prudente cada um no seu hotel, no seu quarto, suprimindo quanto possível o encontro. Repartíamos Torino em quartieri previamente balizados: uma para mim, outra Torino para ti; a intersecção profissional seria espaço-tempo e território neutros. Quero-nos paralelos. Temo que se cairmos na fácil tentação destes momentos para a competição... destruímo-nos, não saberíamos parar e somos feitos de uma argamassa excessivamente inflexível e arrogante nalguns domínios muito próprios. Fracos, feios, impiedosos porque não sabemos perder; já soube, todavia não há armistício que possa garantir: sabes, cogito em desabafo, as pessoas mudam. Mudam e permanecem mais iguais, mais fieis a elas próprias. Noutras calendas silenciar-me-ia com um sorriso a vincar o rosto e deixava-te mais às tuas hostilidades afundar a minha frota; ou que assim o julgasses, fosse como fosse - porém, não é mais assim. Mudamos. E firmamo-nos mais iguais. Não vás...

segunda-feira, 11 de março de 2013

terça-feira, 5 de março de 2013

no excuses, they say

- Já escrevias.
- Tenho que voltar à escola.


"My reflection, dirty mirror
There's no connection to myself
I'm your lover, I'm your zero
I'm the face in your dreams of glass
So save your prayers
For when we're really gonna need'em
Throw out your cares and fly
Wanna go for a ride?

She's the one for me
She's all I really need
Cause she's the one for me
Emptiness is loneliness, and loneliness is cleanliness
And cleanliness is godliness, and god is empty just like me
Intoxicated with the madness, I'm in love with my sadness
Bullshit fakers, enchanted kingdoms
The fashion victims chew their charcoal teeth
I never let on, that I was on a sinking ship
I never let on that I was down
You blame yourself, for what you can't ignore
You blame yourself for wanting more
She's the one for me
She's all I really need
She's the one for me
She's my one and only
"

'zero', smashing pumpkins

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ausências evidentes, take v

A chuva precipita-se copiosamente sobre a cidade. Há muito que fazia falta. Não são somente os territórios aráveis, agrários e rurais que carecem da sua bênção. É essencial para a urbe, acometida por poeiras e outros detritos acumulados durante o período em que o céu não chora, lavando o seu tecido de ponta a ponta incluindo os seus interstícios (mais imundos).

Já comi, já pus a loiça na máquina e só não alimentei o cão porque não o temos. Fazia parte das nossas intenções, recordas-te? Algo protelado já que nos demorados concílios em que debatíamos que tipo de cão para, nunca chegáramos a consenso. Porém, seja-se apologista da verdade, o certo é que a pressa quanto ao amigo canino não falava assim tão alto. Temos tempo, concordávamos provisoriamente até que chegasse a concordância final de escolha. Eu cá teria preferido um gato, hipótese que de imediato descartaste. O cão, então. Largo a pastilha na máquina e sacudo das mãos, directo para o chão, o pó remanescente que a elas se colora sem ter sido convidado para permanecer. Inspiro pelo nariz, incomodado. Constipei-me, raios partam estas bruscas mudanças meteorológicas. Nem cão nem gato. Eu e a máquina de lavar loiça, cujo labor inicio mal encerro a portinhola. Rasgo uma folha de papel do rolo de cozinha e assoo o nariz, todavia sem que isso contribua para reparar o meu incómodo. Encolho os ombros, paciência – o que hei-de fazer? Safo-me, contudo, do teu discurso de censura: regressas amanhã e não irás perceber o meu gesto que deixei de executar à tua frente por ter percebido – entenda-se, após teres-me feito perceber sem margem de apelo a dúvida – que te repudia e enoja. Há cá uma diferença entre lenços de papel e o papel dos rolos de cozinha. Todavia, nem pretendo reentrar nessa argumentação que foste peremptória, talvez até imperativa, muito para além do habitual. Na minha rendição, concedo-te a atribuição simbólica que distribuímos pelos objectos: se é rolo de cozinha, então o seu papel remete para afazeres adstritos a práticas que remontam da sua adjectivação; se é papel em que no rótulo vem impressa a palavra lenços, então o seu uso referencia-se também mas não só à limpeza não da cozinha mas do sótão atafulhado de agentes bacterianos que muitas vezes o nariz, ou o seu interior, que é mais correcto, o é. Ok, quem sou eu para pretender boicotar o teu jogo de papéis? Sim, já sei que sei mais do que isso, que mais do que um dever é minha obrigação: contudo, não poderia eu por uma vez separar o trabalho da esfera pessoal, impondo-lhe uma clivagem tal que pudesse ser, por assim dizer, duas pessoas? Levo o recorte usado do rolo para a casa de banho e submeto-o às torturas do turbilhão de água evacuado pelo autoclismo. Porque perco tempo e queimo paciência com estes devaneios inúteis? Afinal a tua presença só amanhã se materializará pela casa. E não saberás, ai pois não, de nada pela minha boca que se firmará mais firme que a concha de um bivalve. Não por cobardia, antes para evitar aborrecimentos inúteis. Quer a mim, quer a ti. Regressas. Quero o confortável silêncio de um beijo unido por abraço há tanto tempo desejado. Discutir é cenário que não quero sequer imaginar para amanhã. Primeiro os mimos, só a seguir a trivialidade no nosso quotidiano.

Onde é que eu ia? No cão? Não, já sei: a chuva e a cidade. Hoje o verbo sai-me pouco fluído, de certo por défices graves no emaranhado que amiúde enleia a imaginação. Não quero saber, que se lixe. A verdade é que penso numa coisa e numa apenas. A minha mente vive já no dia de amanhã, debruçada e deleitada nos prazeres sensitivos que o do teu colo oferece em dádiva desinteressada que não exige retribuição. Entretanto o céu chora, a cidade banha-se deliciada. Chove no teu Porto? Sei que sim, embora os meus olhos não vejam.

Se me esqueci das dúvidas que assomaram à mente? É evidente que não. Sentença imediata desprovida de hesitação. Não são fortuitas. Silencio-as, apenas. Faço de miúdo e de miúdo faço de conta. Faço de conta que não existem. Por ora. São demónios que não consigo afastar sem lhes aplicar devida exorcização. Sinto-os, ainda que silenciosos, a morderem implacavelmente pedaços de alma. Pedaços bem grandes, impossíveis de ignorar. Não mata, mas mói – assevera a sapiência popular. Corroboro: como o inverso? – não há como… antes houvesse. Onde param as nossas âncoras que até hoje se mantinham inamovíveis e aguerridamente agarradas à certeza? Enferrujaram. Sim, decerto foram enferrujando. Será a corrosão que subjaz irremediável? Conheço a resposta, bem demais para a escarrapachar numa palavra. Conduz-me para outro universo, para o universo da dor emocional. Que criaturas desbragadas, os meus demónios. Feias.

Coloco as severas dúvidas em pausa. Amanhã. Para cima de um mês que os meus olhos não encontram os teus. Aquelas encenações em que, agarrados aos nossos portáteis, nos encontrávamos via espaço virtual para mim não contam. Não contam para nada; ou quase, já que alguma certeza se insinua. Pouco importa. Centro novamente a atenção no dia de amanhã, dia em que como um cão portarei de vigia à porta até que por ela adentro caminhes. Devaneio, se calhar já temos o cão – só ainda não tinha dado conta disso. Tolo, escarneço de mim com raiva a aflorar-se na voz dos meus pensamentos. Recupero imagens que ainda estão por vir, imagino-te a afagares-me o cabelo e a despenteá-lo com as tuas mãos. Regressa o cenário do cão, só me falta a língua de fora e rebolar-me pelo chão. Constrito a tolerância que ainda havia tido comigo: tolo, não; palhaço – mas alguma vez sou algum cão, assiro ferrenho com palavras das mais bem feias a dar o mote a uma eventual interrogação. Busco e rebusco nos bolsos das calças pelo maço de cigarros. O nervoso, esse, miudinho. Tiro o primeiro, partido. Arremesso-o violentamente sem preocupações com a direcção. Já a ficar esganado, sai o segundo. Torto, ainda assim intacto de ponta a ponta. Endireito-o com os dedos enquanto o encaminho para os lábios e abro, abrupto, uma das janelas da cozinha. A chama baila nervosa no ar, tal qual eu, até que enfim encontra o seu destino e cumpre a sua vontade. Retenho o fumo nos pulmões o máximo que posso, como que a punir-me em castigo por uma falta que afinal só eu conhecia. Cão… Entretanto a água que se prostrava do céu ensopava-me até aos ossos. De que me importava? Cão… Cão é o… O fumo subia ao encontro das nuvens mijonas. E eu, eu voltava a descer ao meu inferno, por descuido e não intencionalmente; quando assim estamos predispostos a nossa mente é capaz das piores peripécias, bem o sei.

Devia estar feliz, não é? Questão a que não respondi enquanto o episódio de birra se esbatia da centralidade das minhas cogitações. Ao invés procurei de novo o papel de cozinha, não para o nariz e sim para enxugar as mãos que pingavam os quadriculados desenhos do chão. Na realidade, esquecera-me por absoluto da constipação contraída e que se afirmava mais séria com uma pontinha de temperatura à mistura. Desapertei uns quantos botões da camisa e arranquei-a do corpo juntamente com a camisola ensopada que se lhe encimava. Tudo de uma vez. Abandonei as duas peças de roupa amontoadas sem qualquer cuidado em cima de um banco e fui tentar remover do tronco a restante água que se entranhara pelos tecidos. Com a toalha de banho. As questões preconcebidas de etiqueta tinham sido irrevogavelmente suspensas. O imediato era agora onde eu vivia sem questionar. Finas linhas de água, ou assim as percepcionava, escorriam para o rosto. Dei conta que também o cabelo se encharcara muito além da sua capacidade de retenção. Esfreguei-o desabridamente sem pronunciar uma palavra, nem por dentro. Quando me vi reflectido no espelho foi-me custoso reconhecer-me. É assim uma pessoa? Aquela imagem retribuída não parecia de gente. Reflectia-me quebrado e destituído da minha dignidade humana. Ao vê-la, impeli-me inconscientemente a estacar todo e qualquer movimento. Não, não podia ser assim. Aquele não era eu. Não podia ser. Impossível. Agastado, obriguei-me a voltar a pensar. De que servem os neurónios se não se usam? Retomei a certeza de ser um ser; um ser pensante e dotado de razão e discernimento, não somente moldado por enxurradas de emoções desenfreadas. Notei que paulatinamente o calor do sopro da vida reaparecia com evidente consciência. Devo dizer, no caso, o frio. Sentia-me gelado, contaminado por um frio que entranhava cada extremidade nervosa. Porém, do mal o menos. Encontrava-me vivo e bem vivo; e ciente, coisa que me escapara sem que por isso desse conta. Por fim a imagem sorriu-me. Foi o suficiente. De facto, devia estar feliz. A verdade era essa sem que conseguisse encontrar-lhe qualquer rasto de impureza. No fundo sabia-o. Pressentia que assim era até às raízes da minha alma. Sosseguei. Os espectáculos que enceno na tua ausência… que dirias, se me visses assim? Na verdade, não quero saber. Na verdade, não aconteceriam na tua presença. Se as pessoas têm segredos, mesmo aquelas que mais parcelas da sua vida comungam? Têm. Este é um deles, um dos quais não estou disposto a abrir mão – desculpa.

No nosso quarto olhei as tuas coisas e os teus lugares; e mais tudo aquilo que não é nem de um nem do outro, mas ao invés comum e pertença de ambos. Puxei por uma fotografia nossa, bem junto à televisão que tão poucas vezes ligamos, instantâneo do real capturado e enquadrado numa moldura pela qual não tenho a mínima simpatia; tu gostas dela, da moldura, e eu, por isso, tolero-a. Importava-me apenas o instantâneo capturado e a ternura que parecia querer transbordar-lhe pelos quatro cantos. Fixei-a intensamente, com o olhar e com as mãos. Parecia querer tocar naqueles dois seres retratados, de verdade e não no papel. Um instantâneo é exactamente o que é, uma forma rebuscada que pretende agrilhoar uma realidade que já foi e que é irrepetível. Óbvio que os seus esforços, não sendo inconsequentes, se demonstram amplamente em vão. Dois rostos colados, sorrisos tão abertos quanto espontâneos, dois seres de tamanha forma embrenhados na sua felicidade que se esquecem que o ademais do mundo também existe. Felicidade. Não deveria eu estar feliz? Amanhã o rosto em falta iria reparar uma espécie de realidade suspensa, voltaríamos a colá-los refazendo o completo da figura. Devia estar. Porque hesito? Reponho a foto no sítio. Será de facto aquele o seu sítio? Ou de outra forma, terá sítio para além daquele que se apropriou quando ocorreu em tempo presente? Esqueço o devaneio, não estou disposto para mais ventanias por entre os miolos. Debruço-me nessa cama tão enorme sem ti. Acabo por nela me estirar, encerrando os olhos em sintonia com um suspiro profundo. Quero adormecer. Quero o amanhã. Quero-o, com todo o desespero das minhas forças. Merdas à parte, sabes quanto te amo miúda? Sabes, sim. E mesmo com a distância a entrepor-se sinto o teu. Falta pouco, tão poucochinho. Decidido arranco o edredão da amálgama de roupa de uma cama por fazer, espraio-o sobre o meu corpo. Permito que a tranquilidade em mim penetre. Penso qualquer coisa, coisas, sei lá. Todo o desequilíbrio é acossado e deposto. Sinto-me em paz. Comigo. 

Se sou feliz, ternura? Sou.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

cansaço que faz esquecer

E quando a cidade adormecer, plácida e serena, também eu me recolherei no aconchego do seu colo.




"La ville s'endormait
Et j'en oublie le nom
Sur le fleuve en amont
Un coin de ciel brûlait
La ville s'endormait
Et j'en oublie le nom
Et la nuit peu à peu
Et le temps arrêté
Et mon cheval boueux
Et mon corps fatigué
Et la nuit bleu à bleu
Et l'eau d'une fontaine
Et quelques cris de haine
Versés par quelques vieux
Sur de plus vieilles qu'eux
Dont le corps s'ensommeille

(refrain)

Et mon cheval qui boit
Et moi qui le regarde
Et ma soif qui prend garde
Qu'elle ne se voit pas
Et la fontaine chante
Et la fatigue plante
Son couteau dans mes reins
Et je fais celui-là
Qui est son souverain
On m'attend quelque part
Comme on attend le roi
Mais on ne m'attend point
Je sais, depuis déjà
Que l'on meurt de hasard
En allongeant le pas

(refrain)

Il est vrai que parfois près du soir
Les oiseaux ressemblent à des vagues
Et les vagues aux oiseaux
Et les hommes aux rires
Et les rires aux sanglots
Il est vrai que souvent
La mer se désenchante
Je veux dire en cela
Qu'elle chante
D'autres chants
Que ceux que la mer chante
Dans les livres d'enfants
Mais les femmes toujours
Ne ressemblent qu'aux femmes
Et d'entre elles les connes
Ne ressemblent qu'aux connes
Et je ne suis pas bien sûr
Comme chante un certain
Qu'elles soient l'avenir de l'homme
(refrain)
Et vous êtes passée
Demoiselle inconnue
A deux doigts d'être nue
Sous le lin qui dansait"


'la ville s'endormait', jacques brel

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

para ontem

Há muito que por aqui não escrevo. Demasiado, sem dúvida. Aliás, há muito que não escrevo de todo, se exceptuar o registo técnico. Não pode ser. Para breve tenho que postar o ausências evidentes v, terminada que está a sua redacção sei lá desde quando; e mais qualquer coisita de novo, que isso também se quer e deseja muito. Da forma e do conteúdo nenhumas alterações de monta: o neurose é o que é e continuará a sê-lo; tal como eu.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

colaterais

Irritadiço e a descarregar a frustração em colegas que nada têm a ver. Mesmo que de forma encapotada e não mal-disposta é coisa que não se faz. Sabes mais do que isso. Shame on you mr. pma.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

ausências evidentes, take iv

Optaste por prolongar a tua estadia pelas terras da Invicta. Não te condeno. Nem posso, mesmo que fosse essa a fome da minha vontade. O meu vínculo profissional exige a minha permanência continuada na metrópole de Lisboa, o teu na cidade do Porto. Actualmente, e até num futuro a médio prazo, nada há que possamos fazer para alterar as circunstâncias que agora guiam os nossos compromissos relativos à esfera profissional. Antes de nos conhecermos melhor sabíamo-lo, estávamos completamente esclarecidos quanto aos trajectos que não podíamos evitar, anteriores a nós mesmos. O tempo vai passando, quantas vezes sem dele darmos conta, e vai para lá de um mês que não somos postos na presença um do outro. A uma dúvida que se havia assomado à mente, e à qual não quero escapar pelo menos a tentativa de obter melhor compreensão, adiciona-se presentemente outra: terá sido acertada a opção de arrendarmos conjuntamente habitação em Lisboa? Alturas houve em que não hesitaria em responder, com a flexão na afirmativa. Hoje em dia, porém, a convicção esbateu-se, a dúvida instala-se mais confortável nos seus senãos, os porquês surgem menos espaçados e as respostas aos mesmos tendem a ser esguias quando não completamente inexistentes. Vicissitudes dos tempos modernos; ou melhor, da nossa modernidade. A certeza e a previsibilidade são substituídas pelo risco e pela multiplicidade da acção individual solipsista. Não poderemos ser nós dois, única e exclusivamente, a mudar o mundo – aliás, demasiadas são as vezes em que é este que nos altera e nem sempre no sentido manifestamente desejado pelas nossas duas individualidades.

Compreendo perfeitamente a tua decisão e, de um certo modo, também a suporto. Creio que menos não esperarias de mim, nem eu de ti. Sei bem que não abandonaria Lisboa como residência no espaço de tempo do imediato. Tenho as minhas razões, as minhas boas razões; exactamente as mesmíssimas que a ti atribuo com as tuas ausências rumo ao Porto que a pouco e pouco vão sendo cada vez mais extensas. Presumo, num tom pessimista para o tal nós, que não tardará a que te mudes de armas e bagagens. Presunção pouco simpática, como é evidente, já que é mais do que garantido que não me poderei permitir acompanhar-te. Bem sei que estou a tentar não explicitar o inevitável, contudo não sei por quanto tempo eu e tu, ou nós, nos consigamos conter. Se fosse um jogo diria que estávamos perante uma situação em que nenhum cenário dos possíveis é vencedor ou capaz de o ser. O que é mais grave é que estou a habituar-me a viver o meu quotidiano apartado de ti, inclusive nas mais pequenas coisas que amiúde me te traziam à memória. Jantar, um ritual que fazíamos questão que acontecesse a dois, passou a ser normal suceder apenas entre mim e o televisor, isto quando não levo o prato para o quarto e me fixo no ecrã do portátil. Quebrou-se, ou está-se a quebrar, o hábito construído e constituído de nos alimentarmos enquanto nos entrosávamos em amena cavaqueira ignorando por completo os sons emitidos pelo aparelho de televisão invariavelmente ligado. O elo, o nosso elo, parece querer escorregar por entre a impossibilidade que se entrepõe e impõe entre as nossas vontades. Não me é fácil nem agradável admiti-lo, mas o vivido fala por si e, como se diz, contra factos não há argumentos. O amor devia ser mais forte do que tudo. Sê-lo-á?...

Hoje, sábado, declinei o convite semanalmente reiterado para ir tomar café com alguns bons amigos de longa data. O meu círculo social já não é nada de extraordinário, pelo que não é com leveza que pretiro destes momentos especialmente para me dedicar a práticas introspectivas que me conduzem, inapelavelmente nos últimos tempos, à interrogação sobre o nós. Porém foi exactamente esse o leitmotiv subjacente à recusa em ir socializar com a rapaziada. Mais do que convicto, estou certo disso. Almocei um hambúrguer manhoso numa dessas casas que se encontram praticamente ao dobrar de cada esquina e voltei sem mais embargos para casa. Queria-me só ou comigo e as paredes, que é dizer o mesmo. Estirei-me na cama mal me vi livre dos ténis; sem atacadores, até estas criaturas dispensam os laços. Bem a meio da cama, a observar o tecto, procurei colocar-me o mais confortável possível. As mãos atrás da cabeça e as pernas semi-flectidas. Por instantes tal foi a torpe que me enleou que julguei ir cair no sono. Contudo, esforcei-me para me manter acordado. Tinha vários projectos introspectivos em mente aos quais me queria dedicar e não estava disposto a protelá-los. Embora não tenha fugido na íntegra, lá espantei o sono que se aproximara sorrateiramente e matreiro. Pus na boca um kompensan, coisa de que me faço acompanhar religiosamente, a fim de mitigar o desarranjo então surgido no estômago – refluxo esofágico, diz-me o médico. Sabia que havia um nós. Todavia, haveria um projecto para esse nós? Algo de concreto, sustentável? Passei o comprimido de um lado da boca para o outro, revelando o meu nervoso miudinho e a tentativa de apelar aos meus neurónios que laborassem em conformidade com as exigências da situação que jamais me parecera tão delicada quanto agora. Atirei uma mão para o meu lado da cama, mas ao invés da habitual garrafa de água apenas encontrei o vazio; desisti. Afinal, talvez tenha sido burlado por artes de labuta do inconsciente, nem sequer tinha sede. Não de água, pelo menos. Sede, sim. Mas de respostas, por mais hipotéticas e provisórias que elas fossem. Respostas… Quem não as quer? Certos estão os que asserem ser mais fácil dizê-lo do que fazê-lo; já sei que é uma verdade à la Palice, contudo nem por isso menos acertada.

O ruído dos automóveis que circulavam avidamente pela rua incomodava-me, o que, diga-se, é qualquer coisa de bastante raro. Sempre fui um citadino, um nado da metrópole: aqui e ali tenho asseverado que Lisboa é a minha segunda mãe. Coisa tola. Ou nem por isso. Mas, de facto, não é tema para agora – debate para outras núpcias. Por que motivo danado fujo sempre com o rabo à seringa quando farejo assunto que suspeito ser desagradável? A minha capacidade de alienação é extraordinária quando os ventos não me sopram a favor; este é um desses casos, provavelmente dos mais paradigmáticos para exemplificar essa mencionada capacidade perante a contrariedade, a impotência, adversidades de monta, enfim, perante a frustração. Saí da postura confortável em que na cama me encontrava. Ponderei, errando pelo corredor único da casa, se não faria melhor em juntar-me àquele turbilhão de veículos em movimento, percorrendo por meu turno o tecido betuminoso que constituí boa parte da derme da minha amada Lisboa. Após alguma indecisão, subtraí essa hipótese do leque de possibilidades. Afinal pretendia estar comigo e por muito que goste de papar quilómetros enquanto me perco no profundo de mim mesmo esta não me pareceu opção acertada, não para saciar os meus anseios presentes – estava, definitivamente, fora de questão. Ao invés, seria de maior tino permanecer por casa. Acenei que sim, como que corroborando a minha própria sentença. Acabei por me sentar no sofá da sala, não sem que antes me tivesse ajoelhado defronte do singelo bar de madeira para dele retirar um copo baixo e bojudo que enchi com uma medida de três dedos de líquido de um dos meus whiskeys predilectos; dispensei as duas pedras de gelo do costume. Quebrei igualmente a nossa regra de não fumar na sala, coisa que só muito extraordinariamente acontece como quando reunimos alguns amigos, dos meus e dos teus, para uma jantarada que se prolonga noite afora até ao despontar da madrugada – ainda assim, nunca era eu a acender o primeiro cigarro. Levei o copo aos lábios a provar aquela bebida que ainda é mais quente quando desprovida das minhas habituais duas pedras. Poisei-o no braço do sofá para ir apressadamente ao escritório buscar o cinzeiro, creio que o único que temos no nosso cantinho – quanto aos mencionados jantares vários eram os apetrechos que, ao improviso, faziam as vezes de um cinzeiro. Troquei de posições copo e cinzeiro, passando um para a mão e o outro para o braço do sofá. Abri uma frincha nas janelas e voltei a sentar-me, já com o cigarro a fumegar na mão oposta àquela que segurava o copo servido. Fiz com que o mesmo, o copo, encontrasse mais uma vez os meus lábios. Porém, desta feita, aproveitei para uma golada mais profunda, acto que deixou apenas um risco breve de tonalidade âmbar a baloiçar no fundo do copo. Apercebi-me do erro da minha precipitação ao sentir o ardor provocado pelo líquido que atravessava o caminho que o depositaria no estômago, estômago que terá ficado danado comigo vista a forma violenta e célere como desagradavelmente se abrasou. Precisava de ter mais calma, pois não pretendia ficar ébrio o que implicaria, para mais contra a minha vontade, perturbar o regular funcionamento do sistema neuronal. Com o remoto liguei o leitor de dvd que por obra do acaso ainda continha em si o disco de música que lhe introduzira no dia em que havias dito regressar – o que, com facilidade se constata, não sucedeu. O seu impacto para comigo foi no mínimo ambivalente: se por um lado o álbum se encontra no lote dos meus musts, por outro cristalizava em mim a tua ausência já que habitualmente quando tocava, ainda que sem déssemos conta disso nessas alturas, o escutávamos em comunhão. Com um sorriso triste a ponderar sobre a constatação bipolar soergui-me e verti da garrafa para o copo um pouco mais de whiskey, o suficiente para que tomasse a aparência original de quando me servira. Voltei a molhar os lábios, tenuemente, precavido dos efeitos não desejados por trago exacerbado. Serena, a tarde ainda só vai a meio. Escuso precipitar-me esvaziando apenas num breve espaço de um par de horas uma garrafa de quase quarenta graus de álcool que ainda mal encetada tinha sido.

À medida que a tarde se ia fazendo noite outro ocaso acontecia em simultâneo no meu cérebro fervilhante – a saber, o nosso; ou assim o via, sem saber ao certo o que era isso que eu via. Não, não era torpe provinda do consumo do líquido espirituoso. Sabia-me – sentia-o sem réstia de dúvida – absolutamente sóbrio. Os discos lidos já iam para cima de três ou quatro, mas como permanecera praticamente imóvel o whiskey não tinha levado nenhum outro avanço desde que a borda do copo tocara os lábios logo após o reabastecimento. Passara um coro de horas a pensar em tudo e em nada; nem eu mesmo saberia fazer uma síntese deste facto tão prolixo como paradoxal – na realidade sentia-me tão paroxista como indigentemente indiferente. A concentração escapava-me, em nada o posso negar nem há palavras que me contradigam, porém a responsabilidade, uma vez na vida, não podia ser imputada ao álcool e aos seus efeitos aquando resultado de um consumo desmesurado. A entropia vivia em mim; ou era-o eu. Os meus movimentos redundaram, por tanto que os ponteiros do relógio avançaram, na troca de discos no leitor e a um ou outro espasmo ou contorção devido à abominável sensação de dormência que então perfilava num determinado músculo. Todavia, do que ainda assim concluíra mesmo que num profundo estado de astenia nada ia ao encontro do meu agrado; ao invés assentei num pessimismo que atribuía ao modelo pragmático a que não conseguia escapulir. Sem reservas de maior, via-me projectado num futuro no qual não caberias: tratava-se, mais que tudo, de apenas uma mera questão de tempo e tão-somente isso. Acendi um cigarro. A expressão do rosto devia desenhar-se falida, o brilho nos olhos extinto. Mecanicamente fumei o cigarro, novamente entregue à apatia e a pensamentos dispersos e desconexos, devaneios de quem deixou de acreditar: em si, nos outros, enfim, num qualquer sentido meritório que fizesse mover a minha vontade.



Por hoje basta. O volume de trabalho a que me deixei sujeitar por desleixo, fenómeno indissociável do meu modo de ser, tem-me deixado exaurido física e mentalmente. Pouco é o tempo que resta para mim próprio e careço dele para uso que permita refrear os laços à realidade – a fuga é quase tão importante quanto a integração. Tempo só e exclusivamente para mim ou, mais certo, para o cuidado de mim – coisa de que preciso como o ar que respiramos, por muito poluído que esteja, por mais ordinária que seja a sua qualidade. Hei-de dar continuidade ao que, por mote próprio mas sem saber ao certo das consequências, iniciei. Não me arrependo. Contudo, exige-se uma pausa na redacção de palavras. O descanso assume contornos acima da necessidade, torna-se premente e sei-o insubstituível. Até breve, garanto.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ausências evidentes, take III

Retomei, finalmente, o trabalho em pleno e a todo o vapor. Não posso asserir que tal seja suficiente, porém é o melhor que posso – pelo menos por agora, continuo a perceber que certas debilidades carecem ainda de tempo a fim de cicatrizarem convenientemente. O facto de cá não estares quando desperto já não é um exagero tão penoso e quase que incapacitante como há dias atrás. Não me habituo, contudo, à enormidade da cama que encaro como absolutamente desproporcional face às minhas necessidades do aqui e agora. Sei porém que se trata de facto transitório, que em breve voltará a cumprir os seus desígnios albergando duas e não somente uma pessoa.

Sentado à beira do colchão respiro algo ofegante, com uma mão na testa a evitar que a cabeça pendesse mais para baixo. Os pesadelos, os sonhos maus do inconsciente indisciplinado, assim te referes a eles, têm sido uma constante desde há meses – três contabilizo-os com certeza absoluta, desconfiando porém que o desfile vai bem mais longo. Não todos os dias, ou todas as noites. Indisciplinado o inconsciente, vejo-me compelido a corroborar as tuas palavras. Não seguem qualquer lógica que me veja habilitado a descortinar. Surgem aparentemente espontâneos ignorando por completo a dinâmica dos dias em que estás ou aqueles em que estás mas ausente. O que complexifica mais ainda a sua percepção, abortando qualquer capacidade explicativa por onde pudesse, pelo menos ir tentando, enveredar. Por mais que pense nisso não encontro sentido, escasseia qualquer tipo de tendência que permita inferir um qualquer padrão, perco-me em divagações e considerandos que só me enleiam mais profundo na sua teia tecida pelo incaracterístico do entrópico. Basta de pensar em pesadelos, remeta-se para segundo plano as aventuras de um inconsciente indisciplinado. O tempo não cessa de correr. São agora nove e doze da manhã, afirma o despertador pelos seus dígitos de cor verde. Perdi cerca de dez minutos numa tarefa estéril exceptuando unicamente o facto de agora sentir a respiração regularizada. Pelas dez quero estar a trabalhar, envolto em análise de dados estatísticos, diligência tão fácil quanto enfadonha; para além de que exige bastantes horas, de exercício a dar para o mecânico, e o tempo é-me cada vez mais escasso e precioso. Revolvo com o olhar o teu canto vazio na cama, tão sisudo quanto a tromba de um elefante. Agarro numa camisa, invariavelmente daquelas com botões no colarinho, retiro de uma gaveta uns boxers com bonecada imberbe face à idade que tenho, e arrasto umas calças de ganga surradas para a casa de banho. Dez horas. Porque raio não abrem mais cedo? 

Olho o espelho que reflecte o rosto de um tipo com cara a acusar cansaço mesmo após seis horas de – merecido – repouso. Reflecte igualmente, para meu profundo desagrado, a queda de cabelo que se acentuou, com particular ênfase nos últimos seis meses. Os pêlos de uma barba mal semeada encobrem parte da pele da face, porquanto me recuso a cortá-la rasa até que um projecto, que não é um qualquer ou apenas mais um, esteja definitivamente concluído. Há quanto tempo não observo o meu rosto sem esta pelugem a deformar a imagem que retorna do espelho? Meses. Para cima de um ano, estou certo. É evidente, mantenho-a aparada, por regra, à medida que se costuma dizer de três dias e acertada já que abomino vê-la desalinhada, com pêlos desgrenhados que conspurcam a ideia de alguma simetria desejada. É nisso em que agora me concentro, com a gillette na mão. Contudo a tarefa não é fácil. Há dias em que me apetece mandar às urtigas a o repto em termos de aposta que concordei comigo próprio; mas não, hei-de ser eu o mais teimoso. A merda da lâmina, três para ser exacto, arrepela-me o pescoço mesmo junto à maçã de Adão. Não escorre sangue, ao menos não me cortei. Se empastasse certas zonas com a mousse de barbear, que aliás custa os olhos da cara mas outra não pode ser que a pele, coitadinha, põe-se desde logo a bradar queixumes que materializa em irritações alérgicas, seria provável que a lâmina deslizasse bem melhor. Porém, não pode ser. Perdia facilmente a noção de fronteira, o até onde pretendo desbastar. Um fio de vermelho. Porra, desta é que foi. Senti a lâmina a cortar por onde não devia. Passo água fria no pescoço se bem que o espelho informe que o meu esforço esteja a ser inútil. Papel higiénico. É prático e resulta prontamente. Se dizem que há coisas de mulher esta, a dos papelitos de papel higiénico colados nos pontos lacerados, é definitivamente coisa de homem; também merecemos, caramba. O branco assume rapidamente o tom avermelhado característico de sangue. Olho o espelho, outra vez. Recordo o meu pai das minhas memórias de infância: também ele espalhava destes papelinhos consoante os cortes que a então lâmina de platina lhe infligia no rosto. Reconheço na imagem reflectida alguns traços fisionómicos demasiado semelhantes, não fosse ele meu pai. Quantos anos teria ele nessa altura? Durante a infância não nos preocupamos com isso, acreditamos que nunca envelheceremos; acreditamos igualmente que aqueles que mais estimamos jamais hão-de partir, como se aos nossos olhos fossem eternos. Enquanto crescemos do que mais custa observar é a morte desse mito consubstanciada nos traços de desgaste próprios de idades mais avançadas que os progenitores, incapazes de os travar, desenvolvem paulatinamente ainda que de modo perene e cada vez mais vincado. Creio que grande parte dessa angústia advém do facto da percepção que a morte os envolve e que para ela irremediavelmente caminham, o que nos traz à consciência a ideia da nossa própria finitude, que também a nossa singularidade terminará inopinadamente num qualquer dia que, para mitigar a dor psicológica, projectamos sempre no futuro e preferencialmente num futuro remoto; todavia, lá está ela bem incrustada, a ideia de morte. Escapo a estas cogitações mórbidas porque agora és tu quem, de rompante, me invade a mente. Gozas comigo – devo dizer brincas, há que ser sério em escolher os termos acertados – cada vez que me olhas e eu a distribuir minúsculos bocados de papel aqui e ali onde o vermelho sangue escorre como água numa tímida nascente que brota da rocha fendida. Ficas pasmada, talvez até um pouco estarrecida, quando me observas nesta prática. Estacas de ombro encostado à ombreira da porta, tão imóvel que pareces continuação lógica da mesma. És capaz de ficar assim minutos em silêncio, sem pronunciar o menor ruído. E eu, pelo canto do olho, vejo-te encantado e todo o meu ser desaba nos oceanos de carinho e ternura que te tenho. Às tantas lá te decides que és um ser ciente, na tua unicidade, e aproximas-te com vagar do meu corpo, abraçando-o de trás para a frente, poisas o teu queixo no meu ombro, depositas um, dois ou três beijos suaves no meu pescoço e eu, em deleite e por ti arrebatado, fecho os olhos para melhor sentir o teu morno e delicado beijar, as mãos que se encaixam diante do meu tórax, puxando-me de encontro a ti, o peso que não pesa do teu queixo em mim apoiado, a respiração que consigo escutar, o cheiro que emanas e que conta ser amor; também eu te amo, muito, correspondo-te o melhor que sei e posso porque quero, porque o meu sentir me exorta a diligenciar-te palavras e gestos, mais gestos, próprios só a quem ama e ama de verdade. Contudo, hoje não te é possível rires-te de mim. Aliás, já faz muito. Demasiado. Estás tão perto e tão longe, sei que moras aqui e no entanto não sei onde te encontrar – por muito que te veja em todo o lado. Esboço um sorriso, que me é transmitido de imediato. Os olhos brilham, proclamam a alegria de viver que ingressa novamente na minha essência. Volto a banhar abundantemente o rosto com água fria. Já não há sangue. Estancou.

Um duche rápido, enxaguar de forma preste mas eficaz o corpo, secar o cabelo com o secador suficientemente distante para que o bafo ardente cuspido da sua boca chegue ao couro cabeludo o mais tépido possível, frio de preferência, desodorizante nas axilas que este calor não perdoa, vestir a roupa previamente deslocada para a casa de banho; camisa invariavelmente de fraldas para fora. Tudo isto realizado mecanicamente, embora contigo a monopolizar os pensamentos e devaneios que duraram neste entretanto. Sei que há dias fiquei de me atribuir resposta a uma interrogação levantada. Não qualquer uma. Daquelas interrogações existenciais e patetas que tantas vezes surgem do aparentemente nada. Patetas, sem dúvida. Mas nem por isso menos passíveis de respostas provisórias entre as quais residem aquelas que mais repudio e temo exactamente pela simples circunstância de poderem vir a encontrar algo – ou alguém – que as corrobore. Ainda não é para hoje, não. Fica para amanhã, sendo que amanhã pode ser um qualquer dia no futuro. Saio. Tranco a porta. Lembro-me, todavia, ter-me esquecido de chegar a escova aos dentes. Retorno a casa num frémito. Escovo o serrote com pouca água e um dentífrico de farmácia com supostas propriedades branqueadoras. Nunca lhe vi resultados, mas insisto no seu uso reiterado mais teimoso que uma parede de maciço cimento. Esguelho os olhos ao espelho, o suficiente para reparar que tenho comigo os óculos que corrigem a visão que à distância se turva, que na camisa pendem os de sol e que, finalmente, não há sinais de pasta no canto dos lábios. Incerto se me havia borrifado com perfume acudo a um frasco verde que inadvertidamente fora deixado numa posição vulnerável correndo sério risco de se estilhaçar de encontro aos azulejos, ou pedra ou seja o que for, que cobrem o patamar do chão. É o perfume que me acompanha há mais anos e que vai, sem desgaste alavancado pelo tempo, encabeçando os meus predilectos, nem sempre correspondido na mesma medida por companheiras de jornada – também tu, neste particular, não fazes excepção; não há mal nisso. Agarro a chave do carro, começo a ficar atrasado, o que não me fica bem visto face ao anterior considerando irónico e sarcástico, talvez até petulante, de quem asseverou mais do que questionou porque raio não abrem mais cedo. Regresso, por motivo desta interrogação, à impertinente incerteza do que estaria a ser cozinhado no Porto. Falta de confiança? Sem duvidar. Só que em mim, não nela. Aqui o demérito é meu, consagrado pela auto-estima deficitária que tão claramente me caracteriza. Mas alto, estou a ir longe demais e não pretendo enunciados sobre os quais mais tarde me seja difícil retractar. Há que ser pragmático, porém igualmente prudente. Não é este o timing para iniciar em deambulações hipotéticas. O foco está no trabalho. Sê exigente contigo e concentra-te no primordial, todo o demais é acessório mesmo que das tripas fizesses coração. O elevador tarda em chegar, teimoso como a tua ausência o é; pelo menos assim a sinto – e desespero na obsessão de te voltar a ter nos braços.

À chegada sou recebido com a simpatia do costume. O ponteiro já ultrapassou as dez horas. As pilhas de material aguardam por mim numa secretária própria para o efeito, colocadas pelas mãos diligentes e simpáticas daqueles que provisoriamente me acolhem. Abri o netbook e aprontei-me para imergir nas tarefas que estão à minha exclusa responsabilidade. Antes, porém, fitei o tecto da sala com a imagem em mente dos risíveis pedaços de papel higiénico colados ao rosto e do teu abraço de possessiva ternura. Recordo porque gosto tanto de ti, de forma imensurável e esmagadora – se bem que no melhor dos sentidos. Arreganhei o sorriso. Até já, miúda.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ausências evidentes, take II


Puxei do telefone apenas com a finalidade de confirmar a hora certa. Amanhecera há bastante e eu havia dado conta disso. Seis e meia da matina e nem um minuto dormido. Nada disto me surpreenderia se remontasse aos meus quotidianos de há dois pares de meses, mais ou menos isso. Todavia, desde que vivemos no nosso regime de comunhão que decidi, com um hábil sucesso cuja explicação me ultrapassa, encurtar drasticamente no meu tardio horário de recolha ao leito. Não sempre, conheces bem as excepções que sucedem com particular ênfase nos momentos em que permito que o trabalho se acumule até que pilhas de livros e de outros documentos se edifiquem desde o chão até ao quase contacto com o tecto ou naqueles em que os timings apertam até ao seu praticamente impossível cumprimento. Curiosamente, e simpático da tua parte, deixaste cedo de barafustar comigo e com a entropia que aqui e ali vou acometendo no espaço quarto a que preferimos chamar nosso escritório. Compreendeste-me e soubeste quase de imediato que essa era uma constante da minha essência, o meu modus operandi por assim dizer, e sem julgamentos de monta aceitaste-me como sou no amplexo delico-doce do nosso relacionamento. Percebeste o quanto isso era importante para mim e que no entremeio do caos que levantava à minha volta me entendia como se estivesse a viver imerso no meu habitat natural; provavelmente até será verdade... Não é propriamente a tua maneira de trabalhar contudo, de alguma forma, aceitaste por analogia e sem hesitações de maior que tal como tu tens o teu método é perfeitamente lógico que eu tenha o meu, por, passando a redundância, mais ilógico que te apareça à compreensão preconcebida; dou-te enorme valor por essa tua capacidade, sei que não é fácil interagir com alguém assim, quanto mais conviver, e já passei, inclusivamente, por algumas experiências bastante amargas cujos desfechos me vou abster de elucidar e de comentar. Mais ainda, captaste com uma impressionante lucidez que careço de momentos exclusivamente dedicados a mim, na mais egoísta das acepções. Pese embora esta contra-regra, a prática comummente estabelecida, mais por acordo tácito do que pela força de forçadas negociações, dita que nos deitemos apenas com intervalos breves entre ambos ou que o façamos em primorosa sincronia. Existem ainda outras excepções, pois. Todavia, essas não dependem por inteiro da nossa vontade e estão inapelavelmente associadas à nossa prática profissional. Falo, claro está, das ausências a que somos obrigados e que se consubstanciam em deslocações a outros pontos do país ou aquelas além-fronteira – onde nem sempre, ou quase nunca seja mais bem dito, nos podemos fazer acompanhar um ao outro; as justificações para essas viagens a sós são imensas e vou escusar-me a enredar nelas. Porém insisto: quando as luzes, seja a dos candeeiros de cabeceira ou da televisão do quarto, se apagam até ao outro dia é fácil um saber onde o outro se encontra, bastando escutar aquela respiração que não a nossa, o cheiro que é o do outro ou um estender num movimento os membros que chocarão amigavelmente de encontro ao corpo do ente querido; acrescentaria, no meu caso, ao desmesurado ronco de ressono de que te queixas com cara de má traída pela séria postura brincalhona com que as tuas formas ficam, à guisa da ternura que me tens, esculpida. Seis e trinta. Era um desses momentos de ausência.

Ergui-me sem sobressalto mas definitivamente decidido. Após ter poisado com cuidado o telemóvel, smart phone como se lhes dirigem alguns, levei paulatinamente ambas as mãos ao rosto cobrindo-o, ou essa foi a sensação que se me instalou, por completo. Talvez estivesse a habituar os olhos à parca luminosidade que penetrava no nosso quarto, o mais íntimo dos nossos espaços – ou talvez não, sei lá, foi o que me ocorreu pensar na altura. Despi a t-shirt de dormir, digo que as tenho de ir à rua e as para dormir, num gesto de rompante e meio inconsciente e experimentei algum alívio face ao desconfortável calor que sentia. Esfreguei os olhos, apesar de nada ter dormido suponho que estivessem algo remelosos, e compus os boxers enquanto caminhava meio zonzo em direcção ao escritório. Fechei com cuidado as portas, a do quarto de sono e de sonhos e a do escritório onde tive de me desviar da tralha costumeira para assomar à janela e ao malfadado maço de tabaco, já que os vizinhos são gente boa que merece a minha consideração e, para mais, respeito as poucas horas de sono que agora lhes são permitidas pois que recentemente acrescentaram um pequeno e exigente membro à família; felizmente as paredes, ou o que for para além destas, são de boa qualidade e raras foram as vezes em que realmente escutei o choro que tanto apela ao consolo próprio de uma criança que conta somente com algumas semanas de existência: bem-vindo ao mundo, puto.

Inclinado no parapeito a tentar acender um cigarro e com as capacidades mentais ainda excessivamente dormentes procurei com os olhos a Lua. Acendi o cigarro. À Lua confesso não a ter visto, teria já dado a volta ao horizonte. O Sol, esse, brilhava plácido e tímido. Também ele, como eu, deveria ter sono, pensei num devaneio pueril mas que de certa forma me acalentou o espírito. Sorri com a trivialidade do meu pensamento e quase me engasguei com a porcaria do fumo do cigarro que ia queimando, entre dedos, na minha mão esquerda. Estarias tu na terra dos sonhos? Com certeza que sim. És muito menos propensa a este tipo de deambulações nocturnas, madrugadoras seria mais exacto, do que eu. Sempre com os quilómetros que nos separavam em mente fiz por imaginar-te na tua cama do Porto, sossegada, serena, premissa irrevogável quando dormes. Voltei a sorrir, desta feita devido à tamanha estupidez do sentido que permitira ao meu pensamento; ou, admito, que a ele se tenha imposto por consequência das minhas imensuráveis inseguranças e da precária auto-estima que me caracteriza. Dormirias tu sozinha, sempre, tal como eu, quando os deveres nos infligem a obrigação destas cisões para mim invariavelmente indesejadas? Expeli a última baforada de fumo sugada do cigarro que deixei cair no cinzeiro de vidro com um risco de água antes de me entregar ao exame da bacorada pensada. Vivemos em tempos incertos e de risco. A literatura da especialidade é prenhe em considerações sobre este fenómeno; estes fenómenos. Estamos bem cientes e mais do que avisados para a realidade das vidas que cada vez mais se vivem com urgência, no imediato, espúrias face às gerações antecedentes, pressionadas por processos de individualização encarrilados pela sociedade do consumo e do prazer inadiáveis que repudia o esforço e até mesmo, amiúde, o mérito. É esta a profecia para as nossas gerações e creio que engolimos o engodo sem um único apelo nem à consciência nem à razão. Somos portanto os portadores do pecado que aceitámos como fardo sem contabilizar prejuízos mas tão somente a realização instantânea. Pareceu-nos o oásis no deserto, mas escusámo-nos a ponderar como atravessá-lo por completo desprovidos da bagagem adequada – com a crença inabalável de que outros oásis surgirão pelo percurso sempre que entendermos, simplesmente pelo facto de nos é devido, como que por um qualquer direito divino agora reificado. Perco-me a divagar e sou omisso na resposta que (não) me quero dar. O dia já é praticamente adulto. O cigarro na mão esquerda, coisa de hábito, é já o terceiro praticamente consecutivo. Expiro, de novo, profundamente. Porém, agora resultado do peso sentido na alma. É impossível evitarmo-nos, é impossível desviarmo-nos das nossas congeminações e das nossas respostas provisórias. Se não padecermos de doença mental incapacitante que nos aliene e esquarteje a personalidade, é impossível fugirmos de nós próprios, a tentativa de escape é inglória e vã tarefa. Decidi aceitar os meus próprios juízos. É evidente que seria… a minha questão abarcava várias respostas, todas elas plausíveis, tanto as prazenteiras como as aterrorizadoras.

Removi com a maior das calmas os headphones. Nem sei se o i-pod ficou a tocar para as paredes, não me recordo de ter interrompido a sua mecânica pré-determinada. Tanto faz. Não tinha mais por onde contornar a dúvida suscitada. Limitei-me a desembaraçar-me da música que trauteava nos meus ouvidos por um único motivo: queria ouvir o mundo; ou pelo menos um mundo mais abrangente, aquele que agora me rodeava e do qual me podia acercar, com maior ou menor gradação, com a participação integral e sobreposta dos meus sentidos. Sentia-me, nesta medida, mais próximo da realidade, seja lá o que signifique o conceito de real – de garantido tenho apenas o facto de que este é entendido de forma mais ou menos subjectiva por cada um de nós, deformado pelas nossas lentes de visão que destacam percepções distorcidas pelo nosso esquema mental; todavia é o mais próximo que temos da representação comum dos acontecimentos encadeados e sempre em catadupa que formam o agregado das consciências e das práticas humanas. Via-me assim mais humano, mais vulnerável, todavia na melhor das condições para tentar perceber, mais do que aventar resposta, o que havia questionado. A angústia é matéria integrante da condição humana, conhecemos-lhe o sabor desde a mais tenra idade, eventualmente ainda antes de termos consciência de nós próprios, dos princípios constituintes que enformarão e atribuirão sentido à nossa identidade pessoal. Outro cigarro começou a queimar por imposição de uma chama alimentada a butano que encostara a uma das suas duas extremidades. Os meus pulmões contestavam pelos maus-tratos infligidos, facto que decidi por ignorar já que a minha mente se queria a trabalhar exclusivamente nos porquês de um porquê que suscitara e que, no preciso momento, experienciava como o mais demolidor dos mecanismos de aniquilação destrutiva.

Ia apalpando, em modos de um procedimento fugaz e prenhe de opressora incerteza, terreno do que não estava certo de querer percorrer mas do qual estava certo não poder evitar. A adrenalina pingava num compasso mais apertado enquanto o músculo cardíaco bombeava a seiva vital a um ritmo condizente com um estado de taquicardia. Contava cada sístole, cada diástole, num ritmo de quem está atrasado para o seu próprio funeral quando todos os outros, os vivos, já jazem a carpir a partida sem regresso negociável, na garganta como se o próprio órgão cardíaco exigisse por sair através da cavidade bocal. As mãos respondiam ao estímulo psicossomático movendo-se livres da minha vontade num treme-treme de varas verdes assoladas pelo sopro de tempestade tropical. Com dificuldade lá consegui limpar com o braço direito o suor que escorria afoito de uma testa gelada. Era premente recuperar o controlo absoluto do meu corpo, porém para isso era inevitável conseguir acalmar-me. Para iludir o sistema nervoso ao rubro e em alerta vermelho considerei racionalizar aquela resposta promovida pela ansiedade que sitiara a minha existência; quebrar o círculo vicioso da sensação de pânico teria de ser obrigatoriamente o primeiro dos passos a executar sendo que não podia falhar, em circunstância alguma, o que condenaria ao fracasso todo o processo subsequente, na sua realização. Se bem que não sou técnico de saúde, particularmente de saúde mental, e nem aspiro em sê-lo, domino medianamente algumas estratégias úteis para prosseguir com razoável êxito a empreitada de iludir o cérebro do seu sentimento de impotência e de falência face à circunstância que o intimidara por demais. O amor que sinto por ti vergou-me até ao limite mais baixo da minha existência. Contudo, foi igualmente o sentimento de charneira para dominar e retomar na íntegra a lucidez que como areia se esvazia das mãos que a torneiam e cingem: a minha identidade estava agora a salvo – alguma vez estivera efectivamente em causa? – e eu voltava a reinar sobranceiro sobre o meu castelo. Blindagem erguida, é hora de mergulhar na dúvida e aplicar-lhe os critérios da crítica racional sem olvidar que as emoções sobrevivem por razão que lhes é inerentemente própria. O ritmo cardíaco desbragado havia-se moderado, se bem que pulsasse ainda forte nas têmporas, e a saliva regressava à boca árida.

Era natural que… bom, não seria bem natural o termo que buscava, que visava empregar. Tinha acabado de me recompor pelo que a obviedade da minha fragilidade de resposta não espantasse. Era plausível, sim, plausível soa bem melhor e é um conceito mais moldável ao exercício racional, que o pesadelo imaginado se concretizasse. Afinal que sou eu mais que os outros? Sorri, sabendo muitíssimo bem a resposta. Finalmente um sorriso conseguira efectivar-se, torneando toda a amálgama entrópica por que passara nos imediatos minutos que o antecederam. Reganhara a totalidade da minha singular individualidade.

Volte face momentâneo, decidi-me por um armistício. Tanto comigo como… basicamente comigo, não interessa estar agora a complicar. Persuadido de que devia umas horas ao sono retornei àquela cama desproporcional, gigantesca quando para meu uso individual. Barrei o melhor que pude a luz do sol: estores cerrados, cortinas corridas uma de encontro à outra. Sabia que a minha decisão implicava em não comparecer ao trabalho naquela manhã. Todavia, em nada me sentia incomodado, o meu trabalho depende mais do objectivo a cumprir do que dos meios que unidos concorrem para concretizar o tal objectivo; afinal, os meios são mais flexíveis, facilmente manipuláveis por quem já não é um mero aprendiz na arte. A componente laboral não perturbava a minha consciência, sabendo o que acabei de explanar, pelo que acudi ao chamamento do físico quebrado. Voltei a deitar-me só com o lençol, e parcialmente, a cobrir-me. Os olhos exaustos acolheram de bom grado a escuridão encontrada assim que deixei cair as pálpebras. Retirei da tomada o maior número de neurónios que pude, mais tarde iria carecer do exercício de cada um deles, sem direito a exclusões mesmo que justificadas. O assunto não está encerrado, longe disso, só agora fendi terreno a trejeito para os primeiros trajectos face a uma questão que me coloca em combate comigo próprio; para mais tarde que agora não. Lá chegarei, devidamente equipado e pronto, com baioneta erguida e estojo de primeiros-socorros a pender do cinto; porém, põe-te prestes: a circunstância não tardará esfaimada por sangue – o teu.




Porquê a minha teimosa persistência em escrever quando me sei bem aquém do meu melhor? Que justificação para este fenómeno? Resposta inicial e provisória, não consigo deixar de escrever, como se fosse uma espécie de comportamento compulsivo. Todavia, poderia fazê-lo num registo mais privado, sem me expor, sem nos expor, num espaço de fácil acesso embora o saiba visitado com uma frequência cuja expressão é praticamente abaixo do nada significativa. Também sei, continuo convicto disso com um nível de certeza confortavelmente elevado, que desconheces por completo o endereço deste blogue; desconheces-lhe, inclusivamente, a existência. Em todo o caso exponho-me, por mais mínima que seja essa exposição. Pior, exponho-me ciente que ainda estou excessivamente debilitado pelo ‘cansaço cerebral’ que me acometeu há mais de um mês e do qual não recuperei ainda em pleno, falta ainda bastante e muito ‘exercício neuronal’. Não importa. Talvez seja apelativa, e até confortável, uma resposta nestes termos: pouco importa o estado em que nos encontramos, o que realmente importa é o esforço que envidamos para darmos o nosso melhor – independentemente das circunstâncias de um momento preciso. Só assim crescemos como pessoas, só assim cumprimos as parcelas do todo que é o nosso projecto de vida, estejamos a ultrapassar o mais intransponível dos obstáculos ou estejamos no topo da montanha a observar e a apreciar os ganhos que cremos fruto do nosso mérito. Afinal miúda, talvez um dia te venha a falar deste blogue, a apresentar-to. Só por ora, fico por aqui.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

espiral

Percorro a casa a fazer mil coisas sem nada realmente fazer. Não, não sei o que faço. Nem o que digo. O que penso. Estou só certo do que procuro e não encontro porque não está. Perdido. Não é a primeira vez. É normal. Já passa. Encontra-me.
 
"i've been under the gun
i've lost and i've won"
 
'under the gun', sisters of mercy
 
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ausências evidentes, take I

Volto a experimentar a tua ausência. Ontem saí contrariado para te conduzir a Sta. Apolónia, mal tendo aberto a boca no carro durante todo o percurso. Inversamente, escutava cada palavra tua com uma avidez tamanha que cheguei a temer ser a última vez que te ouvia. Tolices minhas às quais te vou poupando, isto se delas já não tiveres conhecimento dessa forma defraudando na íntegra os meus esforços de tas ocultar. De facto sou um tolo que demasiadas vezes se esquece de agradecer o facto da fortuna nos ter proporcionado viver num país de modesta dimensão territorial como Portugal o é. Ambos estamos cientes que a mobilidade humana se instalou para ficar e, ainda que a custo, a ela teremos que nos habituar. Curtas as distâncias, aqui. Imagino que preocupante seria ver-te abalar de NY para Palo Alto, CA, ou assim… Contudo, nem mesmo essa cogitação me sossega. Tremo cada vez que te observo partir. Temo que um dia seja a última vez.

O alfa pendular a levar-te para longe era um cenário construído do qual, por mais esforços que envidasse, não me conseguia abstrair. E tu, tu estavas ainda ali ao meu lado, escassos os centímetros que intervalavam os nossos corpos. Revias o teu discurso em tom bem audível, como que aguardando pela minha crítica que desta não veio porque não; não te interromper era-me fundamental, tal como as palavras que vocalizavas com a tua voz tão doce e em simultâneo firmemente decidida. Foi algo em ti, uma característica biológica e social, por assim dizer, que logo me cativou desde que pela primeira vez fui colocado na tua presença, de nada sendo relevante que nesse acontecimento o orador fosse eu. Característica biológica e social, sem dúvida: o teu tom de voz foi-te geneticamente concedido, transmitido pelos teus papás; a postura e a colocação do mesmo foi coisa culturalmente construída que adestraste à tua medida. Ficaria horas a escutar-te, sem hesitação e sem que o conteúdo importasse para o que fosse. Ouvir-te-ia dissertar sobre física quântica se fosse tua vontade, ou se tivesses saber para o executar. Estranha ambivalência, esta: a tua voz e o como a instrumentalizas excita-me e serena-me. Agora, todavia, era o pouco que me restava antes de te deixar abalar por mais quinze ou vinte dias em direcção à terra dos tripeiros – sem ofensa, do Porto só das melhores recordações.

A minha vontade era a de implorar-te que não fosses, que não me deixasses só com tantos outros na cidade alfacinha; excessivamente populada, obsequiosamente vazia sem a tua presença. Miúda, como me apetecia fazê-lo. Porém tratava-se de um delírio e nada mais do que isso, algo que deveria pertencer à esfera onírica. Jamais me passaria pela mente endossar-te tamanho e tão injusto requerimento; tens a tua vida profissional, como eu tenho a minha, e o respeito que te tenho é provavelmente superior ao respeito que por mim nutro… jamais, mesmo que tal possa vir um dia a ser a nossa perdição, o nosso tendão de Aquiles rompido e alimentado por um veneno por nós implacavelmente alentado no dia a dia.

Fiquei notoriamente mais ranzinza e impaciente por não conseguir encontrar espaço onde parquear o veículo. Ter-te-ia que deixar à porta da estação com apenas um beijo fugidio e fugaz? Parei, trancando a saída a dois ou três automóveis estacionados em conformidade com a dita lei. Abri e saí do nosso que nem uma fúria, batendo com força a porta à minha passagem. Dirigia-me, cego, ao porta bagagens. Do seu interior retirei um trolley que em nada me pareceu pesado, inversamente ao que sucedera quando saíramos de casa. Há muito que devia saber dos paradoxos que acometem distintos estados psicológicos. E sei-o, todavia em casa de ferreiro… o resto já se sabe. Só agora deixavas o carro, com os teus apontamentos em páginas soltas e o portátil arrumados na tua mala de métier. Percebi perfeitamente que me observavas com um ar estranho, ou melhor, de quem estranhava o meu comportamento. Conheces-me bem melhor do que isso, não te sou terreno virgem. Ainda assim teimas em fazer esse ar de quem se sente intrigado, e até algo ofendido, em todas estas circunstâncias ou outras que semelhantes. Talvez também eu teime em manter a mesmíssima prática, inadequada conduta de puto ofendido ou em ferrenha e indissipável birra. Desloquei-me, a mim e ao trolley cujas rodas já se arrastavam pelo chão, até à entrada principal da estação de Sta. Apolónia sem me dignar a olhar para trás e sabendo perfeitamente que não te encontravas a meu lado. Então parei e esbocei um sorriso tão tolo, querendo fazer passar que nada se passava, que logo o desmontaste na tua mente, o que se tornou mais do que perceptível no teu semblante. Sabia que não conseguiria fazê-lo vingar, mas a vã esperança de que o facto pudesse vir a suceder justificou ter ignorado, e quiçá ofendido, a tua arguta inteligência. Mantive-me fiel ao meu sorriso extemporâneo com a finalidade de não me tornar mais ridículo ainda, impedindo-me do absoluto desmoronamento exactamente ali. Despeguei-me da bagagem que transportava e assomei com ambas as mãos ao teu rosto, beijando-te delicadamente, e com todo o meu amor, os lábios; nada agora em mim mentia. Permitiste que a tua pasta escorregasse dos teus dedos até ao chão e abraçaste-me com vigor. Um beijo não te bastava. Muito menos a mim.



Miúda, a cada dia que passa noto a minha escrita, a sua qualidade ou falta dela, mais tacanha e mesquinha. A realidade é que me encontro bem longe do meu melhor. Já tu… Quando escreves, mesmo que o faças esmagadoramente num registo técnico, fluem-te as palavras com tremenda naturalidade e graça; e espírito. Reconheceria a assinatura do teu verbo em qualquer texto produzido pela tua pena. Vive no teu sangue e só lamento que não passes com maior frequência para outros registos, outros universos que dominarias tão bem… sei que sabes disso, porém não insisto contigo. Enfim, és muito melhor do que eu; melhor apenas, quando me encontro nos meus dias. Não te consigo explicar porquê, porque estou tão banal e ordinário, não só na forma mas especialmente nos conteúdos, conteúdos esses ora pervertidos por uma criatividade imaginativa estagnada e propensa ao definhamento. Talvez seja de todo o cansaço que se acumula, do uso excessivo do discurso técnico, do peso da tua ausência, da urgência em terminar a redacção do trabalho que me poderá atribuir o derradeiro grau académico. Stress. Ou desculpas, meras e incipientes desculpas para uma falha determinante que se instalou e que me recuso a todo o custo em reconhecer. Seja lá como for. Virá o dia em que conhecerei de certo uma resposta mais conclusiva e esclarecedora. Mencionei em texto pretérito que haveria de dar-te a conhecer este meu espaço, que reservo por variados motivos, tantos que nem vale a pena elencar nenhum. Reconheço que estou cada vez menos certo que esse acontecimento venha a ter lugar. Podem afirmar que tudo isto trata de uma espécie de competição e que se to não dou a conhecer é exactamente por me sentir aprioristicamente derrotado. Se um dia te contarem isso não acredites. São tretas de quem não nos quer bem. Vivo contigo numa relação partilhada, não numa corrida a disputar lugar medalhado. Miúda… orgulho-me demasiado de ti para que pudesse transmutar-me numa pedante criatura invejosa, coisa hedionda que só me desperta asco em todas as extremidades nervosas. Vou desligar a máquina: o mundo não pára para observar os meus devaneios. Sabes, fazes-me falta. Mais que muita.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Já cansa

Compreende-se perfeitamente que uma pessoa se sinta física e mentalmente desgastada aquando de esforços adicionais que envolvem ambas as componentes. Agora andar há mais de duas semanas derreado parece-me um absoluto disparate. Exaustão? Burnout? Stress cumulativo? Assim a paciência impacientemente se esgota...
 
Nota: marcar consulta para o senhor doutor.