domingo, 1 de abril de 2007

Quando não é peta

Primeiro de Abril. Alguns, muitos, por tradição, são apegos à graçola, à mentira em tom de patranha que o costume cristalizou no correr dos tempos. Outros, talvez em menor número, vincam-se à verdade, afirmando-a como algo supremo – ‘boas razões’, diria quem conheço por leituras e por elas somente.

Sem a peta, coisa que ressoa com o título. Sem a peta, sim; e sim, porque sim: escuso-me a explicações por, contornos seus, tão escusadas serem. O primeiro de Abril de há alguns anos terá sido certamente um dia radioso, pleno daquele estado solarengo que tão poucas vezes surge a exibir-se: ainda que, sem paradoxo, não houvesse raiado um único raio de Sol; mas certamente que solarengo, de Sol firme e disposto por convicções que só a ele e a mais ninguém, ou quase, respeitam. O primeiro de Abril de há alguns anos foi certamente de Lua cheia, aberta numa áurea inexprimível pelos sentidos; assim se terá iniciado o dia, mesmo pouco antecedendo a que se improvisassem as suas duas primeiras badaladas: ainda que, sem paradoxo, não houvesse Lua visível ao olhar humano – mas havia-a assim e muito mais para a vida.

É raro, e algo desconcertante quem sabe, exaltar desta maneira um dia. Mas, sem paradoxo, porque não: porque não fazê-lo? Exaltar o que é sublime não é crime nem pecado – nem lei nem divindade por ordem alguma se aprouveriam em sancionar tal façanha; se me questionarem porquê, retorquirei breve porque sim… porque sim.
Se nada é perfeito, e menos ainda o mundo que todos nós vivenciamos quotidianamente, inquestionável é que este se torna melhor pela graça das graças que, escassas mas irreprimíveis, se gera; gera… gerando em parto consumado. E daí até que as estrelas, em pozinho cósmico, se decidam a enredar todo o tecido de uma história, de histórias de vida… bem, isso é segredo delas; e com elas permanecerá – sabendo que, apesar desse pudico segredo, também nós vamos sabendo… sabendo vivendo, acrescentaria eu.

Certo é, sabemo-lo, que a memória tende a ser curta. Porém, afirmando em locução de asserção inabalável, cá vou estando; cá vou estando nesta afirmação que diz em peremptória exclamação ‘não esqueci!’.

É a vida… Gosto dela. Sim, se um duque e uma oitava conseguem compor sublime sinfonia…



"In a garden in the house of love, sitting lonely on a plastic chair
The sun is cruel when he hides away, I need a sister - I'll just stay
A little girl, a little guy - in a little church or in a school
Little Jesus are you watching me, I'm so young - just eighteen
She, she, she, she Shine On
Shine On
Shine On
In a garden in a house of love, there's nothing real just a coat of arms
I'm not the pleasure that I used to be - so young - just eighteen
She, she, she, she Shine On
Shine On
Shine On
I don't know why I dream this way
The sky is purple and things are right every day
I don't know, it's just this world's so far away
But I won't fight, and I won't hate
Well not today
In a garden in the house of love
Sitting lonely on a plastic chair
The sun is cruel when he hides away
Shine On...
Shine On
Shine On
....and on...and on...
Shine
Shine On
Shine
Shine
Shine
"

'Shine On', Apoptygma Berzerk (or. House of Love)

sexta-feira, 16 de março de 2007

Certo é que...

... nem sempre a distância separa; por vezes limita-se a uma ausência cujo destino é curiosa e paradoxalmente a sua ausência: a ausência da ausência, se assim antes a desejarmos definir.

©

"O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
Meu amor, o tempo somos nós
"

'Eternamente Tu', Jorge Palma

quarta-feira, 7 de março de 2007

Ao décimo terceiro...

Muitos são os mitos pagãos e herdados de uma moral judaico-cristã que apontam a má-sorte como parelha deste número. Por outro lado, muitos são igualmente os mitos pagãos e religiosos que lhe atribuem boa-sorte. É um número de opostos, como poucos gera controvérsia e tanto parlatório opinativo. Há uns anos, poucos se importariam de ter o tal 13 ao totobola; mas muitos se importariam em ser o 13º membro de uma mesa.
Enfim, um número importante. Tão e não menos que os restantes. Portanto, cá fica relembrado que o 13 não é esquecido; e talvez seja mesmo isso o que importa...


"Bad luck wind been blowing at my back
I was born to bring trouble to wherever
I'm at Got the number thirteen tattooed on my neck
When the ink starts to itch, then the black will turn to red

I was born in the soul of misery
Never had me a name
They just gave me the number when I was young

Got a long line of heartache
I carry it well The list of lives
I've broken reach from here to hell
Back luck been blowing at my back
I pray you don't look at me, I pray I don't look back

(...)"

'Thirteen', Johnny Cash

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Esterótipos?!

Mais um dia. Prestes a terminar. Emoldurado numa quadrícula demasiado estanque. Não que passe despercebido. Há mais dias. Há tantos mais dias a prosseguir num quotidiano preenchido; a preencher. Aí vêm...



dance in the city, 1883, pierre-auguste renoir

"Para o homem a sua namorada é literalmente a mulher mais bonita do mundo, superior a qualquer outra beleza."

'Sexo e Amor', Francesco Alberoni

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Simplicidade: 01

Pára. Ignora a velocidade alucinante da vida; das vidas. Acorda por instante o ser adormecido. Vive uma eternidade num momento. Os sentidos, todos, desintegram-se numa explosão unificadora. Descansa, despertarás novamente para o quotidiano envolvente, para a plenitude da existência.
Um ano passa. Um ano se ganha.

©

"Over the sea and far away
She's waiting like an iceberg
Waiting to change
But she's cold inside
She wants to be like the water

All the muscles tighten in her face
Buries her soul in one embrace
They're one and the same
Just like water

Then the fire fades away
But most of everyday
Is full of tired excuses
But it's to hard to say
I wish it were simple
But we give up easily
You're close enough to see that
You're the other side of the world to me

On comes the panic light
Holding on with fingers and feelings alike
But the time has come
To move along

Then the fire fades away
But most of everyday
Is full of tired excuses
But it's to hard to say
I wish it were simple
But we give up easily
You're close enough to see that
You're the other side of the world

Can you help me?
Can you let me go?
And can you still love me
When you can't see me anymore?

The fire fades away
Most of everyday
Is full of tired excuses
But it's too hard to say
I wish it were simple
But we give up easily
You're close enough to see that
You're the other side of the world
The other side of the world
You're the other side of the world
To me
"

'Other Side of the World', KT Tunstall

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Estádios...

A ausência é uma obscenidade. Há vezes em que ser-se obsceno é uma dádiva.


"As marcas do ausente no espaço recordam à pessoa presente que está sempre «com»."

François de Singly, 'Livres Juntos'

sábado, 13 de janeiro de 2007

Além Tejo I

E com uma infecção respiratória se compromete um radioso fim-de-semana alentejano. Fica para a próxima... próxima semana, espero.

"A dose deve ser tomada diariamente à mesma hora. Os comprimidos devem ser engolidos inteiros."

Folheto informativo, 'Klacid OD 500 mg'

domingo, 7 de janeiro de 2007

Tique décimo primeiro

Será que os segundos importam?
Os minutos correm; às horas não mais se atenta às parcas badaladas que as anunciam; os dias sobrepõem-se sem demora substituindo-se pela semana, semanas e, quando retomarmos à consciência, pelos meses.
A velocidade é alucinante, se estacarmos para admirar o envolvente. Se há uns segundos vivíamos a hora zero, reabrimos os olhos com onze meses de história. Poder-se-á falar de história? Ou esta não é mais do que um mecanismo iniciado – inventado? – bem antes dos nossos egos terem verificado a sua existência num pretenso porvir para sempre? A história continua, prossegue após se terem esgotado os nossos tempos naturais. É-nos exógena e intocável, pelo que, para precaver, devamos agarrarmo-nos aos exíguos momentos que dela podemos desfrutar numa tentativa de apropriação que os torne nossos.
Um ano, coisa redundante, conta doze meses. Estaca-se a fim de observar a velocidade das existências nestes mundos que construímos tanto quanto nos constroem: se onze meses foram então supra mencionados, então também o significado e o significante que outro ano se afirma prestes a iniciar. A velocidade é de facto alucinante; mas a memória não escorre para o vazio do esquecimento, antes encaixilha a velocidade sub-cruzeiro os momentos vividos na experiência passada, que augura futuro, do quotidiano que se realiza a cada novo instante.
Se a emoção não está desprendida da razão, então a razão cristaliza per si, no âmago do ser, as emoções que se viram descobertas, realizadas, incubadas num fenómeno de continuidade cúmplice.
Afinal, sempre posso terminar a escrita asseverando, convicção das convicções, que não esqueci.

oceanie: le ciel, 1946, henri matisse


"Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu
tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
tento esquecer a mágoa
guardar só o que é bom de guardar


Pensa em mim, protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar

Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve para longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só

Eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar
"

'Cada Lugar Teu', Mafalda Veiga

sábado, 6 de janeiro de 2007

Comunicante...

Quebrei o enguiço dos diálogos surdos. Agora não falo para as paredes.


A razão calculista terminaria numa administração das coisas, seca, sem piedade e sem alma, que não teria valores que formassem e sustivessem uma comunidade

Allan Bloom, ‘A Cultura Inculta

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Sim, claro que sim

- De certeza?...
- Dúvidas não relampejam sequer em instantes de um segundo.

"Who can say where the road goes,
Where the day flows, only time?
And who can say if your love grows,
As your hearth chose, only time?

Who can say why your heart sights,
As your live flies, only time?
And who can say why your heart
cries when your love lies, only time?

Who can say when the roads meet,
That love might be, in your heart?
and who can say when the day sleeps,
and the night keeps all your heart?
Night keeps all your heart...

Who can say if your love groves,
As your heart chose, only time?
And who can say where the road goes
Where the day flows, only time?

Who knows? Only time
Who knows? Only time
"



'Only Time', Enya

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Divagando...

Gosto pouco de balanços, aliás nutro mesmo pouca simpatia pelos mesmos; só em circunstâncias excepcionais – abro aqui excepção a uma não excepção…

O ano de 2006… Olhando para Janeiro compreendo que desde logo se apresentou prometedor. Não em todos os aspectos, aliás nalguns ficou bem aquém, ainda que no essencial tenha cumprido e mais que cumprido. Se Janeiro ficou pautado por algumas desilusões como por momentos vincadamente desagradáveis, por outro foi gerando o que em Fevereiro se formataria, logo breve, em vínculo. Iniciou-se, o ano, numa tez acinzentada mas assente em esperanças de aurora radiosa; de tal maneira se cumpriu, ainda que para tal alguns troços do percurso hajam sido percorridos na sinuosidade de piso que escorrega por debaixo dos pés que outra coisa não querem que assento firme.
O segundo trimestre manteve-se percorrido com alguns desencontros, mas depressa encontrou recta sem geada possibilitando a aderência ao essencial. Já o terceiro cristalizou esse essencial, contudo augurando uma perda que seria significativa e que, por fim, se consumou no derradeiro período de três meses; mas igualmente o essencial… igualmente o essencial, que é o que mais importa.
Voltei a encontrar-me com o Algarve, visto por outros olhos que antes cansados dele o reencontraram brilhante. Trouxe-me ao conhecimento a ilha da Madeira, e na ilha da Madeira o (re)conhecimento de certezas que se fermentavam. Trouxe-me aos sentidos a metrópole de Milão experienciada sem dar azo a tais certezas, já que essas se haviam há muito consolidadas no implícito do quotidiano vivido.
A academia reentra nos projectos de vida e decorre mais esplendorosa que nunca, encontrando e encontrado por fim um dos dois curricula de maior interesse pessoal que vinha, demasiado plácido, perseguindo. Por aqui desabrocha de novo a ilusão em detrimento da desilusão.
Constitui-se ainda a Trajectos, que certamente despontará florida em 2007 se bem que já de alicerces indubitavelmente enraizados. Há ‘sociedades’, que pela sua formatação, roçam a perfeição de um futuro que, dia-a-dia, se constrói.

Foi decerto um ano de emoções e ilusões, capacitando com o concreto algumas das direcções do porvir. Ao pragmatismo céptico substitui-se-lhe a emoção-razão pragmática, bem mais leve, livre e gratificante que o seu antecessor excessivamente ‘frio’. Óbvio, soçobra-se nalgumas frentes sendo que porém se conquista noutras. E não sendo quantitativamente mensuráveis, são-no qualitativamente. E a aferição, sem necessidade de esmiuçar, veste o manto da convicta convicção do ganho obtido. Até o Natal, esse monstro papão desprovido de sentido desde os tempos mais tardios da infância, reganha não só signicante como significado; e terminou por se dobrar à vontade de quem quer. E, quase pelo Natal, não só a Trajectos como a perspectiva da permanência activa em Lisboa; por ora, convenha-se… – escuso-me a falar (de)mais do porvir.

Se 2006 tem sido essencialmente um ano de construção firme, 2007 descobre o rosto com a afirmação estável do acontecido; o melhor do acontecível… Resta aguardar serenamente que pontas ainda soltas se arrematem. E o sonho vive-se. Em conluio com Sol e Lua, géneros opostos que se atraem e complementam na unicidade de trejeitos cósmicos. O sonho vive-se, de olhos bem abertos, desmontado então o véu que cortinava uma visão turva daquilo que tradicionalmente denominamos realidade.

"Oiço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado
"

'Lição', Miguel Torga

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Passo a Passo

Um gato na Marinha. Um sociólogo na terra do vidro, por excelência a é. Realidades que se julgavam intangíveis ou mesmo jamais imaginadas assumem os contornos do concreto. As cidades possibilitam-nos esta mobilidade; mobilidade de estar, de pensar, de agir. E eu encontro-me de novo entrosado com elas, com as cidades, em estreita comunhão e dependência. Lisboa é a maior, ainda que não em todas as acepções, e em Lisboa ainda a FCSH. Não serei um pária urbano, se bem que consentidamente me vá perdendo (encontrando?) num rol delas. No meu sangue corre já o betuminoso, o cimento, a armação em ferro, o suor do quotidiano vivido no presente, passado e futuro. Sina ou fado previamente determinados, dir-se-ia; à asserção oponho-me com a opção da escolha, de um percurso traçado com escolhas à direita e à esquerda e para além da direita e da esquerda. Ao destino, sobreponho o conceito de construído. Porque creio que nada se mantém desembaraçado da inelutável, interminável, contínua jornada da construção social da realidade e da construção da realidade social; seja na esfera pública como na privada. O investimento incontornavelmente exigido; e o curso mantém-se. Trajectos…


(capa à 6.ª ed., Italo Calvino, 'As Cidades Invisíveis')


Prologue – Un vieux problème dans un monde nouveau

in Loïc Wacquant, ‘Parias Urbains

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Dois Dígitos

Começa pelo dez. Depois não termina, segue estrada fora; um dígito a par do outro, numa lógica holística. Então o todo passa a ser irredutível às partes; doutra forma seria apenas soma dum dígito com mais um dígito.



"Enfim, é um laço forte o amor consolidado de uma vida vivida em comum, em que cada um se tornou indispensável para o outro […]"

Sexo e Amor’, Francesco Alberoni

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Milano

- Desinteressante, feia, sem nada para se ver.
- Logo se vê...


"Ninguém sabe melhor do que tu, sábio Kublai, que nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve."

'As Cidades Invisíveis', Italo Calvino

sábado, 18 de novembro de 2006

Refutando...

- Não gosto de lágrimas.
- O amor chora alegria.



I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try and Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry


Boys don’t cry’, The Cure

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Dá-me música

Uns pregos, uma água com gás e um chocolate quente, não excessivamente dispendiosos, são justificativo suficiente para se reservar mesa no Arena Lounge do Casino de Lisboa durante os concertos. E este, Toranja, jusficava-o mais ainda. Confortavelmente sentados, entretidos ao som de sons acima do razoável.

Nada de muito espectacular, mas que baste para agradar rompendo com algumas rotinas quotidianas entediantes algumas vezes acompanhadas por pensamentos, em demasia presentes, incipientes e algo mórbidos; vicissitudes provenientes de matérias que aqui não cabem nem pertencem. A companhia, como habitual, rompia igualmente com tais pensares e acometia-se calorosa; diria mesmo indispensável, inimpensável sua ausência. Também como habitual, soma mais ‘pontos’ que o próprio concerto ou qualquer outra prática.

Legitimada, então, a ida foquemo-nos no espectáculo ofertado em si. Simpático e caloroso, repita-se; nada de espectacular, como mencionado. Todavia, bem interessante para uma segunda-feira à noite em que fomos prendados com quase duas horas de músicas e um vasto leque de piadas sem piada. Mas na verdade os senhores esforçaram-se, culminando numa sessão francamente positiva. Pena foi o convidado especial surpresa, que por uma questão ética me recuso nomear, que ia corrompendo o entretém expectado; felizmente não se demorou, cingindo-se a acompanhá-los em apenas dois temas – presença, porém, escusada…
Como o segundo, Segundo, me parece bem mais fraco que o primeiro, torna-se normal que os momentos mais elevados fossem aqueles consagrados às músicas do primeiro de originais. A deficiente dicção de quem cantava e a medíocre acústica (do espaço ou móbil do hardware de sonorização? ou as duas em simultâneo?) foi secundarizada pela dinâmica com que, mais no final, percorria o interior da arena.
Surpreendeu, contudo, o vasto leque de presenças na assistência que cobria quer o piso do Arena Lounge como os dois pisos superiores que o rodeiam em espécie de anel. E como o casino apresenta um bonzito sistema de escoamento de gentes, foi breve e sem confusões de maior o abandono do espaço com destino ao ninho que, ávido, aguardava por alguns.

Haverá mais uma série de concertos no decorrer das próximas, ainda consideráveis, semanas. Tendo sido uma experiência por si interessante, lá regressarei nalgumas segundas feiras em que decorrerão outros eventos do género. Quem já gostava deste tipo de concertos no Casino do Estoril, certamente terá apreciado – quanto ainda irá apreciar – o que aqui ocorreu, dado que o espaço é ainda mais acolhedor que o seu homónimo da Linha.

Quanto ao resto da noite, guardo os pormenores para mim. Pouco importariam aos que os lessem, supremos para quem os vivenciou. Digo eu…

© IGG


Aconteceu...
e por me teres feito cego
recordo o sabor da tua pele
e o calor de uma tela
que pintámos sem pensar.
Ninguém perdeu,
e enquanto o ar foi cego
despidos de passados
talvez de lados errados
conseguiste-me encontrar.

Foi dança
foram corpos de aço
entre trastes de guitarras
que esqueceram amarras
e se amaram sem mostrar.
Foi fogo
que nos encontrou sozinhos
queimou a noite em volta
presos entre chama à solta
presos feitos para soltar...

Estava escrito
E o mundo só quis virar
a página que um dia se fez pesada

E o suorque escorria no ar
no calor dos teus lábios
inocentes mas sábios...
no segredo do luar.
Não vai acabar
Vamos ser sempre paixão
Vamos ter sempre o olhar
Onde não há ninguém
Dei-te mais...! Valeu a pena voar...

Estava escrito
E a noite veio acordar
a guerra de sentidos travada num céu

Nem por um segundo largo a mão
da perfeição do teu desenho
e do teu gesto no meu...
foi como um sopro estranho...
...e aconteceu...

És noite em mim,
És fogo em mim.
És noite em mim.


Fogo e Noite’, Toranja


Ah, a noite… E como nela tudo se torna (quase) perfeito…

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Sono

- Dorme comigo.
- Só em sonhos. Zzz… Até amanhã.


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Love don't need to find a way
You find your own way
I forget that I can't stay
And so I say that
All roads lead to where you are
All roads lead to where you are

The seed is spilled, the bed defiled
For you, a virgin bride
Hide yourself in someone else
Don't find yourself in me

I can't lift you up again
Love comes tumbling down again

Love don't need to find a way
You find your own way
I forget that you can stay
And so I say that
All roads lead to where you are
All roads lead to where you are


Love Comes Tumbling’, U2

Alvitre

O amor é sério. Mas não façam caso.

nude study, 1908, henri matisse


Spy on me baby use satellite
Infrared to see me move through the night
Aim gonna fire shoot me right
Aim gonna like the way you fight
And I love the way you fight...


Sex Bomb’, Tom Jones

terça-feira, 7 de novembro de 2006

estado nascente

Em nove meses, período padronizado, um embrião desenvolver-se-á até ao estádio último que se concretiza pelo nascimento de um novo ser, completo. Reifica-se o princípio da vida, o recomeço de algo concebido em momento pretérito. Reifica-se pelo rito, mantendo acesa a chama do mito, reifica-se a glória do que é a vida e o seu eterno recomeço; renascer, continuando para e nas futuras etapas. Assim se glorifique o belo, pela transformação, adaptação e pelo seu percurso em constante caminhada na busca do perfeito ou ao que a si mais se assemelha.
É-se quase perfeito em instantes num mundo e corpos contextualizados pela imperfeição das suas existências e quotidianos vividos. Quase perfeito, roçando-a de perto…


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"Ai se eu disser que as tremuras
Me dão nas pernas, e as loucuras
Fazem esquecer-me dos prantos
Pensar em juras

Ai se eu disser que foi feitiço
Que fez na saia dar ventania
Mostrar-me coisas tão belas
Ter fantasia

E sonhar com aquele encontro
Sonhar que não diz que não
Tem um jeito de senhora
E um olhar desmascarado
De céu negro ou céu estrelado, ou Sol
Daquele que a gente sabe.

O seu balanço gingado
Tem os mistérios do mar
E a certeza do caminho certo que tem a estrela polar.
Não sei se faça convite
E se quebre a tradição
Ou se lhe mande uma carta
Como ouvi numa canção

Só sei que o calor aperta
E ainda não estamos no verão.
Quanto mais o tempo passa
Mais me afasto da razão
E ela insiste nopasseio à tarde
Em tom de provocação

Até que num dia feriado
P´ra curtir a solidão
Fui consumir astristezas
P´ró baile do Sr. João

Não sei sefoi por magia
Ou seria maldição
Dei por mim rodopiando
Bem no meio do salão

Acabei no tal convite
Em jeito de confissão
E a resposta foi tão doce
Que a beijei com emoção
Só que a malta não gritou
Como ouvi numa canção
"

'Namoro II', Trovante

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Paste me!

É cada vez mais comum deparar-me com um relativamente novo fenómeno quando me passeio pela blogosfera. De facto é um mundo que nunca pára, em constantes alternâncias, pautada pela novidade e rápidas mudanças particularmente ao nível de conteúdos que vão surgindo em catadupa, numa sucessão virtualmente interminável. Por alguma razão nos chamam a gente da sociedade em rede, sociedade ou era da informação.

Todavia, a este não o encaro com bons olhos. Não por qualquer censura moral idiossincrática, antes por estrangular a originalidade e virtuoso individualismo/ multipluralismo que em regra é o constitutivo, que lhes determinava essa tal singularidade, do post publicado/ a publicar. Deve-se, esse estrangulamento da iniciativa individual, a qualquer coisa que denomino por fenómeno assente na predominância do copy/ paste.

O que me leva a questionar, sem qualquer ingenuidade de permeio, mas será que já (quase) ninguém escreve na blogosfera? Identifique-se, então, o fenómeno copy/ paste: You Tube; fácil para todos, para o menino e para a menina – auspicioso, o reclame.

Claro, cada um faz o que entende. E por entende leia-se o que quer. Realmente eu cá também só publico (devendo ler-se escrevo) o que me dá na ‘real’ gana.

Não deixa porém de se sentir um certo vazio, uma apurada insipidez difícil de ser apreciada, ao contemplar o rol de acumuladas publicações apresentando o início de um vídeo dotado de um símbolo e instrumento de visualização centrado em ‘play’ na (ainda) estática imagem. O vinco pessoal que matiza as publicações, nas suas mais diversas e variadas temáticas, é substituído por uma construção a prioristica que pouco – nada! – deve à estética das criações que diluem a sua especificidade na massificação; a blogosfera renega a sua identidade, logo as suas raízes de princípio (e causa?), numa serialização que me faz recordar e remeter para o século passado em que o standard parecia ser a lógica a seguir e, mais, a imperar. Percebo, e disso faço igualmente uso, que a imagem e uma doseada porção de ‘plágio’ consagrem, esclareçam e ajudem na compreensão e complemento de um post que expõe uma ideia, seja essa ideia qual for. Agora este fenómeno que mais é de substituição que de complemento ao post ‘personalizado’ levanta-me algum agravo. Um dos mais livres e abertos espaços de criação é castrado. E é-o pelos seus próprios autores/ editores. Pessoalmente lamento-o…

Longe de ser um juízo de facto, este post que redijo é mais enquadrável no juízo de valor. Termino-o portanto, uma vez que a minha opinião é mais uma entre largos milhares que doutro molde se podem permitir opinar. Menos ainda me cabe a tarefa do juízo como julgamento, insistindo que esta publicação, ao menos originalmente redigida, não ultrapassa o parco limite do juízo de valor; ou de opinião, como preferem determinados comunicadores para fazer valer como conceito e que, por motivos que extrapolam a presente publicação, não subscrevo – já que o considero assim erroneamente aplicado, tanto quanto desenquadrado do seu sentido específico; pois que conceito ultrapassa em bastante a mera qualidade substantiva ou adjectiva com que tem vindo a ser corriqueiramente, e mal, empregue e imposta.

Eu cá, teimoso. Escusar-me-ei a aderir. Mas se querem (quase) todos ser iguais na indiferença… que o sejam. Ultrapassa-me. You Tube copiado e colado, aqui não. Admitindo o complemento, em toda a humildade que me é devida, não admitirei a substituição pura do conteúdo singular, ou com maior exactidão, mais ou menos singular. Dixit. Porque não gosto de ver uma blogosfera ‘calada’. Um ‘Brave New World’, à Aldous Huxley, não fará aqui cruzada. Para estar ‘calado’, delete blog? yes – click.


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"A perfeição elimina o acontecimento - é esse o seu crime, o de desencadear a reprodução, a obediência a uma necessidade. Como é óbvio, não se trata de um crime assinalável, apenas os seus efeitos o são."

Silvina Rodrigues Lopes, in prefácio a 'O Crime Perfeito', Jean Baudrillard

domingo, 15 de outubro de 2006

Ele

Porque não pode ser errante...


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harmonie tranquille, kandinsky


"Amor errante, por onde anda
Há tanto tempo, amor errante
Sinto o teu vento, sempre distante
Sem um lamento

Sem parar nem pensar
Ao partir e voltar
Para sempre hás-de errar
Onde o vento soprar

Amor distante, por quem eu espero
Contando o tempo de cada instante
Para sempre hás-de errar
Onde o vento soprar

Amor errante, por quem demoras
Há tanto tempo, amor distante
Eu conto as horas, amor errante
Ainda há tempo para voltar

Meu amor tão distante
Onde te leva o vento
Meu amor tão distante
Volto e volto ao tempo
"

'Amor Errante', Diva


...mas constante, em harmonia.

sábado, 7 de outubro de 2006

Assinalado

- Esqueceste-te…
- Achas mesmo que sim?



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"And as the hands would turn with time
She'd always say that she was mine
She'd turn and lend a smile,
To say that she's gone.
But in a whisper she'd arrive
And dance into my life.
Like a music melody,
Like a lovers song.

Oh tonight, you killed me with your smile.
So beautiful and wild, so beautiful.
Oh tonight, you killed me with your smile.
So beautiful and wild, so beautiful and wild.
"

'Tonight', Reamonn

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

... and take a deep breath

Se até os gatos com todas - tantas - as suas vidas envelhecem...


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"Some are like water, some are like the heat
Some are a melody and some are the beat
Sooner or later they all will be gone
Why don’t they stay young

Its so hard to get old without a cause
I don’t want to perish like a fading horse
Youth is like diamonds in the sun
And diamonds are forever

So many adventures couldn’t happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams are swinging out of the blue
We let them come true

Forever young, I want to be forever young
Do you really want to live forever, forever and ever?
"

'Forever Young', Alphaville


Prossiga-se...

domingo, 24 de setembro de 2006

Amarelo com chuva

Consta que principia também por estas terras o Outono; ou principiou ontem. A estação muda, o clima anuncia-se igualmente em mutação, aprumam-se as cores da época ou, ao menos, o seu preparo.

Outras mais mudanças se formatam. À indisciplina a regra, contando-a flexível e não pautada por uma rigidez a traço de régua e esquadro.

Outras mudanças não se operam. Melhor, operam-se endogenamente. Na busca da partilha cada vez mais profunda e estruturada entre entes em laço de mutualidade sem inquinamento mas absorta na naturalidade com que se põe e nasce o dia – contemplação activa complementando-se. Porque há coisas que não mudam – ou não se querem mudadas –, antes se transmutam tal qual a encruzilhada trilha para o centro, para o objectivo único e uno

Aguardam-se os majestosos mantos que trajem a nova estação. Aguarda-se por muito, muito mais. Que brilhe…

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In a garden in the house of love,
sitting lonely on a plastic chair
The sun is cruel when he hides away,
I need a sister - I'll just stay

A little girl, a little guy
in a little church or in a school
Little Jesus are you watching me
I'm so young - just eighteen
She, she, she, she Shine On
Shine On
Shine On
In a garden in a house of love,
there's nothing real, just a coat of arms
I'm not the pleasure that I used to be
so young - just eighteen
She, she, she, she Shine On
Shine On
Shine On

I don't know why I dream this way
The sky is purple and things are right every day
I don't know, it's just this world's so far away
But I won't fight and I won't hate
Well not today
Shine On...


Shine On’, Apoptygma Berzerk (or. House of Love)

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Pausa (nos dias que correm)

Ontem, Palma no casino do Estoril. Duas horas recheadas daquele espectáculo que o Jorge Palma tão bem sabe criar e oferecer. Esteve muito bem…

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©

Hoje abala-se para terras da lezíria do Tejo. Presença de sol e lua apenas; complementando-se, completando-se.

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra prima à escala mundial
Mas não passo de um homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
e o paraíso no teu olhar


Dá-me Lume’, Jorge Palma


Bom fim de semana.